Eu não tenho dúvidas. Acho que nunca tive. Aos 11 anos, preferia ir à casa dos amigos vê-los se estapear no Street Fighter do que ficar curtindo Sessão da Tarde. As partidas eram tão repetitivas quanto uma reprise de "Mulher Nota Mil", mas sempre havia a possibilidade de alguém escorregar na tomada e quebrar o nariz.
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Foto: Divulgação
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| "O Blanka lutava capoeira hardcore"
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Eu nunca jogava. Sempre que pegava no joystick, numa variante sofisticada de /bullying/, eles me obrigavam a escolher o Blanka, que era brasileiro e mutante. Na época, eu já tinha esse orgulho besta que me impede de jogar com um personagem cujo poder especial é dar
cambalhotas e morder a cabeça do adversário. Por isso, ficava só olhando.
Na certa, não era o único. Gente como eu formava um vasto contingente, um exército de um tipo peculiar: o jogador passivo. O cara que não joga, mas fica vendo os outros jogarem.
A cruel realidade é que todo jogador é um pouco passivo, enquanto espera a sua vez. Antes de existirem consoles com 8 joysticks, lan houses e jogos multiplayer massivos, as pessoas iam jogar umas nas casas das outras, espalhando-se pela sala de visitas. Você tinha que competir com dez, doze moleques, por um controle. Se tivesse sorte, ficava 10% do tempo jogando. No mais, eram duas horas de molho, com os pés no sofá alheio.
Mas era divertido, talvez como estar numa fila de parque, vendo as pessoas se esgotarem em carrinhos de bater. Elas fazem caretas, se exasperam e tomam sustos. Tentam controlar a máquina da forma que sabem, que é a forma errada: sobram braços, falta prática. Inclinam o corpo inutilmente, esperando curvas, e largam o volante para se proteger de colisões que nunca chegam. E, às vezes, maravilhosamente, aprendem o que fazer.
As /softhouses/ nunca deixaram o expectador de fora da brincadeira. Os jogos sempre foram cheios de coisas espetaculares, que só tem graça para a platéia (gente que vê) ou quando se tem uma platéia (gente para quem se exibir).
Um bom exemplo são os infames /fatalities/, os golpes "póstumos" de Mortal Kombat. (Alguém ainda joga isso?) São golpes não tem nenhuma serventia em jogo: só podem ser feitos depois que o adversário é derrotado. Sua única função é humilhar o perdedor e causar o delírio do público. Uma demonstração vulgar de habilidade, perfeita para quando a turma está toda reunida.
Lembro ainda de um jogo de corrida, /Stunts/, que foi pioneiro em várias tecnologias de exibicionismo especialmente difundidas hoje em dia. Possuía diversas câmeras (cockpit, atrás do carro, terceira pessoa e "de helicóptero"), função de replay e a possibilidade de gravar vídeos das partidas.
Isso porque não era um jogo comum. Era um jogo de acrobacias. As pistas tinham loops, parafusos e rampas sobre abismos. Tudo em gráficos poligonais chapados, que eram o estado da arte da computação gráfica em 1990.
Stunts ficou famoso por dois motivos: pelo seu editor de pistas e pela incrível quantidade de bugs, que faziam o carro voar nas alturas e se espatifar no chão maravilhosamente. Justamente aí estava sua graça. Não havia competição pelos melhores tempos. O desafio era criar um circuito impossível de ser completado e entregar-se à catástrofe, destruir-se de
maneira impressionante na frente dos amigos - e depois ficar vendo tudo de novo, em câmera lenta, por ângulos diferentes.
O efeito das batidas era ridículo, e não se comparava com a reação que causavam no público, que urrava de alegria a cada trombada. As pessoas comentavam, torciam, e entravam no jogo no momento mais inesperado: quando estavam longe dos controles.
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Foto: Divulgação
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| Cena do jogo Stunts
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Hoje eu lembro disso e penso que não pode haver cinema mais interativo. Estamos cercados por obras multimídia, que alardeiam não-linearidade e acurada simulação sensorial. Mas, por mais que me cubram de periféricos, nenhuma delas consegue me arrebatar como um bom filme, sequer causar a palpitação que sinto observando uma partida de Metal Slug.
Há que se admirar essa dialética complexa, de crianças e vídeo se desentendendo, até que subitamente entram em harmonia, como bailarinos, sem se confundir.
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Aproveite: como as distribuidoras não possuem mais cópias de Stunts, ele virou abbandoware, e pode ser encontrado de graça (legalmente!) na internet. Procure e divirta-se!
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