Vitória (ES), edição de 20 de janeiro de 2006

Caso Edgard: Martinelli vai esperar
documento da CEDH para se pronunciar



Stephanie Oliveira


O secretário estadual de Segurança Pública, Evaldo Martinelli, decidiu esperar o documento com pedido de transferência de inquérito do caso Edgard Cabral para se pronunciar. Baseado nas denúncias dos familiares do pacifista, o Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH) vai enviar ao secretário um pedido de 'avocação' em regime de urgência, para que o inquérito seja transferido para Vitória.

Os familiares de Edgard Cabral resolveram procurar ajuda no CEDH por medo de que o assassinato do pacifista fique impune, como é o caso da morte de um outro membro da família, Afrânio Cabral, morto em 23 de junho de 2000. Até hoje o assassinato de Afrânio não foi elucidado.

Mais de dois meses após a morte de Edgard Cabral (o assassinato ocorreu em 12 de novembro de 2005), a polícia ainda não apresentou nenhum suspeito e, segundo uma das filhas do pacifista, Melissa Cabral, nem os familiares têm acesso às informações do inquérito na Delegacia de Conceição da Barra. "A única coisa que falam é que o processo segue em sigilo de justiça para não atrapalhar as investigações. Mas eu pergunto: que investigações? Eu tive que pedir ao delegado para prestar depoimento", afirmou.

Melissa Cabral denuncia ainda que o caseiro e uma empregada doméstica, trabalhadores do sítio da família há mais de 10 anos, só foram ouvidos duas semanas após o crime. Eles também estão estarrecidos com os rumos das investigações, pois dizem que até o arame utilizado pelos assassinos para prender o portão ainda estaria jogado no mesmo lugar, fato que demonstra a ausência total de perícia no local. Perguntas evasivas e questionamentos sem importância também fazem parte dos métodos utilizados na investigação.

O presidente do CEDH, Isaías Santana, vai pedir a transferência dos inquéritos de Edgard Cabral e Afrânio Cabral pela demonstração clara de falta de estrutura da polícia e da Justiça de Conceição da Barra para apuração dos crimes. "A vasta documentação apresentada pelos familiares da vítima, além de apontar os suspeitos, evidencia claramente a caracterização de crime de mando. A linha de investigação já está definida. Não há motivos para tanta demora", afirmou Isaías Santana.

Edgard Cabral já havia denunciado diversas vezes ao Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJ/ES) as decisões contraditórias dos juízes designados para cuidar tanto do caso da herança de família da vítima, quanto do caso da impunidade da morte do irmão. Contudo, no dia 17 de outubro, um mês antes do assassinato do pacifista, os juízes refutaram as denúncias apresentadas por Cabral e decidiram pelo arquivamento do processo encaminhado à ouvidoria do órgão.

Um mês após a morte de Edgard Cabral, a própria polícia já afirmava que o crime havia caído no esquecimento. "Na minha opinião, o crime já caiu no esquecimento. Ninguém mais ouve falar sobre o caso na cidade. As pessoas têm memória curta", confirmou o sargento da PM de Conceição da Barra Júnior, em entrevista a este Século Diário, edição de 6 de dezembro de 2005.

A polícia de Conceição da Barra chegou a mudar o discurso de sigilo nas investigações e passou a acusar a falta de efetivo policial como causa do atraso nas investigações. O próprio delegado-substituto do DPJ de Conceição da Barra, Antônio Sérgio Nogueira, foi quem denunciou o fato a Século Diário. "O governo precisa entender a necessidade de contratar mais policiais. Eu, por exemplo, estou tomando conta das delegacias de Conceição da Barra, Pinheiros, São Mateus e outras", denunciou.

Cansados de tanta demora, os familiares de Edgard Cabral resolveram agir e pedir ajuda ao Conselho Estadual de Direitos Humanos. Este já começou a elaboração da documentação de pedido de transferência dos inquéritos para a Capital. Segundo o presidente do CEDH, Isaías Santana, dessa forma vai ser mais fácil acompanhar o processo e a cobrança às autoridades.


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