"Não sei quem foi meu avô. Estou muito mais preocupado
em saber qual será o futuro do neto dele."
( Abraham Lincoln )
A diferença entre o otimista e o sonhador é que o otimista procura trabalhar para realizar seu sonho. Parece que é neste campo de comparação que o secretário de Estado de Planejamento, Guilherme Dias, gosta de se encaixar. Como otimista, claro. Uma atitude que já está traçada para os próximos vinte anos no Espírito Santo.
Convidado a falar sobre eleições 2006, o tema abordado por Século Diário desde meados de 2005 para as entrevistas de final de semana, o secretário aceitou. É diferente do seu comportamento habitual em relaçõ à imprensa, ele mesmo reconheceu, já que seu assunto mais tratado é o que diz respeito à sua pasta, passando pelos mais diversos assuntos econômicos que envolvem o Estado.
O leitor vai conhecer um outro Guilherme Dias, ou pelo menos com outro perfil, diferenciado por se dedicar a avaliar o quadro eleitoral que se organiza. Entretanto, um quadro não tão distante do que o Estado verbaliza no momento, por diversos setores sociais. Sua avaliação se aproxima da reeleição do governador Paulo Hartung, mas não se distancia da outra possibilidade, a do Senado.
Esta última hipótese chega perto do nome do secretário como nome provável para disputar o governo. Ele não se sente envaidecido com a possibilidade. Reage com bom humor em vários momentos. Nesta entrevista, reflete um tom cronístico e espirituoso sobre alguns acontecimentos, não somente do Brasil e do mundo, mas da sua própria história.
Século Diário: - Eleições 2006. Como o senhor está percebendo a situação que está mais ou menos sendo traçada no Estado para este ano?
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Foto: Ricardo Medeiros
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Guilherme Dias: - Eu acho que a situação do Estado, o quadro eleitoral do Estado, tem características muito próprias, completamente diferentes do quadro eleitoral do País. Aliás, isso aconteceu na eleição passada, a eleição de 2002. Se bem que, agora, as diferenças são por razões positivas. A eleição passada no Espírito Santo era a superação daquele quadro de desordem, de caos que havia. Agora, não. Acho que o quadro eleitoral do Espírito Santo, nessa avaliação, vai ser uma oportunidade de nós, inclusive, discutirmos o governo. Apresentar, debater, discutir com a população os avanços, as conquistas que foram obtidas num espaço de tempo relativamente curto. Na verdade, o governador Paulo Hartung tem dito e enfatizado isso. Nesse período de governo conseguiu realizar mais do que a melhor expectativa que ele próprio tinha de governar o Espírito Santo. A grande questão colocada na eleição passada, e essa era a demanda da sociedade, esse era o compromisso, de arrumar a casa, desmontar as redes, a teia do crime organizado, as ramificações políticas do crime organizado, combater o crime organizado, recuperar os valores éticos, morais, enfim... basicamente de reconstrução do Estado. Acho que a mudança do Estado é absolutamente nítida, transparente, percebida e reconhecida por todos os agentes políticos relevantes, pela sociedade... Além disso, foi possível avançar, como eu disse, melhor do que a expectativa, avançar, inclusive, num programa de investimento que poucos estados têm hoje. Um programa de investimentos em todas as áreas de governo, a infra-estrutura, as áreas sociais... Então, eu acho que é o que coloca hoje o Estado do Espírito Santo na linha de frente. São poucos estados que têm esse ambiente político-econômico-institucional positivo e com muita autonomia. O que está sendo feito no Espírito Santo é muito forte. Você não vê hoje o governador dizendo 'para eu fazer isso, eu dependo do dinheiro do orçamento da União...'. O Estado hoje não passa o pires. Você não vê o governador reclamando que precisa de uma reforma tributária. Vou dar um exemplo, do Germano Rigotto, lá do Rio Grande do Sul. 'Ah, é preciso uma reforma tributária para colocar mais dinheiro nos estados...' Quer dizer, hoje, o Espírito Santo conseguiu mobilizar suas forças produtivas, forças políticas, para criar uma rota de desenvolvimento. Ou seja, é um ambiente de convergência: setor público, setor privado, sociedade. Eu acho que poucos estados hoje têm esse ambiente tão positivo. Obviamente, isso faz com que o processo eleitoral aqui tenha uma agenda diferente do processo eleitoral de outros estados ou mesmo do País. No País, até que ponto a energia vai ser gasta? Que parcela da energia vai ser gasta discutindo programa de governo, prioridades? Que outra parcela vai ser gasta discutindo escândalos? Nossa agenda hoje no Estado é uma agenda positiva. É lógico que precisa ser feito muito em muitas áreas, mas o importante é que temos projetos em execução em todas as áreas relevantes. Nós temos tudo para ter debates de alto nível, um debate político aqui no Estado sobre o que é relevante e o que é preciso fazer para o Estado avançar ainda mais. No nível federal, passa pela discussão de economia, problemas sociais, mas passa também por CPIs, por escândalo A ou B, desse governo ou de outro governo, enfim...
- O senhor acredita que o governador Paulo Hartung seja mesmo candidato à reeleição?
- A decisão do governador Paulo Hartung, de ser candidato à reeleição ou de tomar outros caminhos, é uma iniciativa dele. É hoje a maior liderança política do Estado, não apenas pelo fato de estar exercendo o governo. Há estados, vou dar um exemplo: no Ceará o governador Lúcio Alcântara (PSDB) não é a maior liderança política. A maior liderança é Tasso! (risos). Aqui no Espírito Santo o fato de o governador ser a maior liderança política é que fortalece a posição do governo do Estado hoje. Quer dizer, uma coisa alimenta a outra. Mas o governador Paulo Hartung tem declarado que vai avaliar as opções que tem, olhando o quadro político nacional, local, e conversando com as forças políticas que o apoiam e que hoje são majoritárias no Estado.
- O senhor acredita, então, na possibilidade de reeleição?
- Eu particularmente acho que o caminho mais natural é o da reeleição do governador, porque, obviamente, primeiro pela elevadíssima taxa de aprovação junto à sociedade, o reconhecimento; segundo porque o governador, ele próprio construiu uma agregação de forças políticas diferentes, algumas que até estão em campos antagônicos, em torno desse processo de reconstrução do Estado. Então, é lógico que a primazia, a preferência é pela reeleição do governador Paulo Hartung. Mas como ele mesmo não descarta outros caminhos, esse é um quadro que vai ser construído nos próximos meses.
- Caso esta última possibilidade se concretize, o governador lançou na imprensa alguns nomes para disputar o governo. Em algum momento o senhor ficou envaidecido por ter seu nome citado pelo governador para essa disputa?
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Foto: Ricardo Medeiros
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- Sabe que esse negócio de vaidade é algo que a gente não deve ter na vida... (risos) Primeiro porque o governador citou vários nomes capazes de exercer a governança, o exercício do governo do Estado do Espírito Santo. Não fui o único nome lembrado. Ele já citou alguns nomes do próprio PSDB e outros. Eu acho que um dos pontos fortes do governo e o próprio estilo do governador Paulo Hartung sempre foi de valorizar o trabalho em equipe. É um governo que trabalha de forma muito solidária, muito cooperativa, ao contrário de uma prática até mais comum, que deixa muitas vezes uma perda de energia muito grande dentro dos governos. Mas, quanto à citação do meu nome, eu acredito na valorização da história de trabalho aqui no Estado. O próprio governador Paulo Hartung foi prefeito de Vitória, depois Luiz Paulo (PSDB). Depois, Paulo Hartung, atualmente no governo... No meu caso, na administração pública, passei pelo BNDES, depois Ministério do Planejamento... Logicamente, todo mundo gosta de ser reconhecido pelo trabalho que faz. Mas reconhecimento é diferente de vaidade... (risos). Eu entendo assim: quando o governador cita o meu nome e o de outros companheiros... Já citou o nome de Ricardo Ferraço, César Colnago (PSDB), Luiz Paulo (PSDB) e outros... O que ele está colocando é a importância de ser estabelecida uma prática de governar, de fazer política, que respeite a coisa pública, que respeite os valores republicanos, que tenha compromisso com a ética, mas que, além disso, seja contemporânea de um modo de governar mais avançado, que tenha compromissos mas que tenha resultados para a população, que não improvise, que dê valor ao trabalho em equipe, com planejamento, e não ao personalismo e ao improviso. No Brasil, há essas dicotomias ainda. Há os que têm o estilo personalista. Outros preferem o trabalho em equipe. Alguns preferem improvisar, outros organizar e planejar. Há aqueles que acreditam na importância de fazer um bom governo, um bom período de governo. Além disso, investir, criar estruturas, fortalecer os quadros permanentes, criar um padrão de administração pública que vai muito além de um, dois ou três mandatos. Nós olhamos as democracias ocidentais, mais desenvolvidas, e vemos claramente que a estrutura, a máquina de governo não muda com a mudança de governo. Mudam as orientações políticas. Essa prática que ainda se vê no Brasil hoje em seus vários níveis, vemos no municipal, no estadual e agora, no federal... Então, quando o governador diz que pode ser sucedido por alguns companheiros de equipe é nesse sentido. O que importa também é nós consolidarmos novas práticas. Eu acho que é esse o ponto.