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| O jornalista Pedro Alexandre Sanches
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Em seu blog, o jornalista e crítico musical da revista CartaCapital, Pedro Alexandre Sanches, promove uma pequena revolução na forma como a grande imprensa pode realizar um debate em relação à cultura junto aos leitores. Sem ficar restrito ao limite de uma folha, PAS despeja em sua página pessoal todos os seus pensamentos. E é acompanhado de perto por leitores de todo o País. O diálogo é aberto, franco e sem pirâmide de conhecimento.
No dia 14 desse mês, PAS - adepto da licença Creative Commons - publicou exclusivamente em seu blog uma entrevista histórica e inédita com o cantor Hyldon, autor do célebre e recém-relançado disco "Na Rua, Na Chuva e Na Fazenda". Sem nenhum entrave, o compositor falou sobre artistas contemporâneos e da indústria da música, resultando "num documento histórico de alta consistência sobre música brasileira", como frisou o próprio jornalista.
Confira ao final da entrevista o endereço do blog do Pedro Alexandre Sanches, onde há espaço para comentários a respeito da entrevista e o restante da mesma. [Nota do Editor]
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quando, há mais de três meses, a gravadora universal editou uma versão caprichada do clássico "na rua, na chuva, na fazenda..." (polydor, 1975), logo pensei em propor a seu autor, o singularíssimo hyldon, uma entrevista por e-mail, aqui para o blog. ele topou a empreitada. eu me empolguei, e enviei uma lista de perguntas gigante, viajandona. ele avisou que ia demorar, por razões óbvias, e foi mandar o questionado respondido já em dezembro. mas a espera valeu - as respostas vieram detalhadas, caudalosas, amplas, generosas. foi minha vez de demorar na edição, mas eis enfim aqui finalmente o diálogo aberto com hyldon, na rua, na chuva, na fazenda, ou num blogzinho de sapê.
já que, onde tudo se mistura, o pequeno É o grande e vice-versa, aqui no telhadinho de palha virtual temos o privilégio de ler a manifestação integral do cara, sem edições, sem os cortes inerentes ao ofício jornalístico. é trabalho em progresso, com compassos e descompassos e percalços. porque, por exemplo, a metodologia "lista de perguntas" proposta pelo entrevistador desfavorece as réplicas e tréplicas, torna o diálogo soluçado, deixa perguntas adicionais fora do traçado. mas, por outro lado, arrisco dizer que pela primeira vez o pensamento (ou melhor, o pensamento escrito) de hyldon aparecerá mostrado na íntegra, sem censuras (ou, ao menos, sem censuras exteriores, se ainda houver as internas). uma experiência, enfim.
várias razões justificam a relevância do experimento, que, arrisco novamente dizer, resulta num documento histórico de alta consistência sobre música brasileira. tal contundência mora em motivações que procuro expor no teor das perguntas, e que nasceram da leitura dos textos do próprio autor no encarte do cd reeditado. ali, hyldon cita artistas de iê-iê-iê, black music e mpb, mas também escritores como machado de assis e filósofos como schopenhauer. ele re-revela os muxoxos dos músicos eruditos que tocaram em seu disco pop - sim, músicos eruditos tocaram no disco pop de hyldon. e é daí para diante, como procuro evidenciar negritando nomes, pessoas, movimentos, gêneros, referências e circunstâncias que ajudam a perceber o mapa diversificado, abrangente, aberto, contraditório, riquíssimo enfim, que constrói o imaginário de um artista como hyldon, pertencente ao rol dos geralmente confinados a rótulos tipo "popular", "comercial", "cafona", "brega"..., impostos de fora para dentro (de dentro para fora também, será, hyldon?).
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bem-vindos à aventura, para a qual me arrisco (de novo!) a resgatar recomendação já atribuída-criada-transformada-papagaiada por arquitetos (mies van der rohe, frank lloyd wright), físicos (einstein), escritores (flaubert, guimarães rosa), filósofos (nietzsche) & outros malucos: "deus (o diabo) está nos detalhes". tintim.
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PEDRO ALEXANDRE SANCHES - você poderia fazer um resumo de suas andanças musicais antes do lp "na rua, na chuva, na fazenda..."?
HYLDON - do violão em casa, que aprendi a tocar com sete anos, à minha primeira guitarra, que ganhei aos 14, pouca coisa aconteceu. mas a partir daí, influenciado por beatles e "com uma pequena ajuda" do meu primo pedrinho, dos fevers, formei meu primeiro conjunto de baile, os abelhas. fazíamos de tudo: tocávamos na rádio federal de niterói acompanhando calouros, em festinhas de colégio, em aniversários, e chegamos a fazer um programa de televisão, "a festa do bolinha", do jair de taumaturgo.
morávamos em niterói, e, com a volta da minha família para a bahia, minha mãe só deixou eu ficar no rio de janeiro com a condição de morar com meu primo. e foi o que aconteceu. então acompanhei de perto todo o processo da jovem guarda. ia com ele a todos os lugares, bailes e gravações de programas de televisão. a mão do destino então deu seu toque mágico. certo dia, o outro guitarrista dos fevers, almir, faltou a uma gravação, e alguém sugeriu que eu o substituísse. eu estava com 16 anos. apesar de nervoso e suando muito na mão, me saí muito bem . a partir daquele dia, passei a ser o reserva oficial da banda. essa oportunidade me propiciou o contato com estúdios, maestros, músicos e produtores, e me interessou em fazer músicas e mostrá-las, até que, em 1968, gravei a primeira. como era menor de idade, pedrinho assinou o contrato por mim. em 1970, alguns fatos contribuíram muito pra minha dissidência da turma do iê-iê-iê. o produtor e versionista rossini pinto resolveu formar um conjunto em cima dos fevers, e me chamaram pra tocar guitarra solo. nessa época eu tinha acabado com os abelhas, porque era a maior mão de obra conciliar minha nova vida no rio com os ensaios e bailes em niterói.
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comecei a acompanhar cantores nas caravanas pelo interior, geralmente em circos, capitaneadas por animadores de programas de rádio. me lembro, por exemplo, do paulo sérgio cantando e eu atrás, com violão sem amplificação. o cara ia rodando o picadeiro e eu atrás com meu violão, acho que só ele ouvia. mas voltando ao tal conjunto, o nome era os selvagens, foi aí que conheci o michael sullivan. a primeira música que ele fez foi comigo, fui eu que o iniciei no ramo. gravamos a dita cuja com um cantor chamado zé roberto, espécie de genérico do roberto carlos. porquinho ou ivanilton, que mais tarde seria conhecido como michael sullivan, era o crooner, e o tinho saxofone, que depois viria a tocar com tim maia na banda vitória régia, e eu fomos os únicos dessa banda que continuamos com a música. eu estava mais a fim de sair na capa do disco, minha passagem pela banda durou menos de três meses. foram alguns bailes e um festival de música acompanhando rossini pinto. tomamos a maior vaia. a música era tipo sentada à beira do caminho, chata e monocórdica, e ele cantava com uma voz pequena, meio desafinado, mandava muito mal no palco. era um cara de bastidor. as outras músicas eram muito loucas, muito rock - para se ter uma noção da praia que rolava por lá, a música que ganhou tinha o nome de "agite antes de usar".
o que começou a me incomodar era ter que copiar as gravações originais para tocar nos bailes. como solista, eu tinha que fazer igualzinho os solos. a outra coisa que mexeu comigo foi um livro que ganhei de presente do maestro ian guest, chamado "cartas para um jovem poeta", do rainer maria rilke. a última, mas não menos importante, foi aceitar um convite para tocar no quarteto que acompanharia toni tornado, que acabara de ganhar o festival internacional da canção. na banda, chamada br-4, tinha um pianista chamado hélio celso que era jazz puro, admirador confesso de bill evans. ele me apresentou musicalmente a joão gilberto e me ensinou aquelas harmonias cheias de "aranhas", acordes imperfeitos, nonas aumentadas, quintas menores, e por aí ia.
PAS - você tinha uma trajetória nos bastidores de gravadoras antes de conseguir gravar aquele que seria seu maior sucesso popular, certo? como foi essa experiência? por dentro, as gravadoras são tão ruins quanto a gente imagina?
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H - foi muito importante minha experiência como músico de estúdio, porque quando eu pensava na música já "via" ela pronta. naquele tempo a banda gravava junto com cordas e metais, eram poucos canais nos estúdios, então eu sabia como soava uma orquestra e, apesar de nunca ter lido uma partitura, sabia o que acontecia na grade do maestro. aliás, eu sei ler muito bem cifra. às vezes, quando tinha notas para mim, eu pegava a partitura, ia nos pianistas, que sempre sabiam música. eu pedia para dizer ou passar as notas, e quando o maestro atacava aquele trecho eu já sabia que notas eram. meu bom ouvido me ajudava.
só tive problema uma vez, e logo com a cantora de quem eu era o maior fã: elis regina. cesar camargo mariano, com quem eu havia trabalhado num lp do wilson simonal, e o produtor mazzola, que gostava do meu jeito de tocar, me chamaram para gravar no disco da elis. só que eles estavam ensaiadaços, cesar no piano, luisão maia no contrabaixo e paulinho braga na batera, eles tinham passado meses ensaiando. a primeira música era um samba do gilberto gil chamado "prezado amigo afonsinho" (depois de alguns anos desse fato, afonsinho ficou meu amigo e está sempre nos meus shows no rio de janeiro). sem brincadeira, a música, além de ser um samba rápido, tinha uns 300 acordes por minuto, exageros à parte... era foda, quando eu tentava acertar os caras já estavam longe. botei minha viola no saco e recomendei que chamassem o hélio delmiro, que, além de ser um excelente músico, lia até cocô de mosca. e deu certo a minha recomendação, pois helinho ficou um tempão tocando com a minha ídola. e eu carrego essa frustração de não ter participado daquela "guigue".
agora, voltando ao assunto das gravadoras e comparando antigamente com agora, se isso é possível, um lance que havia naquela época é que a gravadora mantinha no cast artistas que eram muito bons, que não vendiam muitos discos, mas davam prestígio. e as gravadoras tinham dezenas de artistas. um exemplo: milton nascimento gravou seus discos sem vender na odeon. outro exemplo é johnny alf. com a entrada do marketing e o jabá ostensivo, a partir dos anos 80, isso acabou. e o talento musical não está sendo preservado, isso é péssimo para nossa cultura. pena que o gilberto gil não se liga nessa, talvez porque ele, caetano veloso, maria bethânia e gal costa tenham se beneficiado desse esquema. então não pode nem falar mal, que dirá fazer alguma coisa, mexer nesse vespeiro.
PAS - como se deu a história da gravação de "na rua, na chuva, na fazenda (casinha de sapê)"? ela demorou um tempo para ser lançada, não foi?
H - foi uma escrotidão do [presidente da philips] andré midani, que já tinha feito a mesma coisa com o compacto do tim maia, "primavera". tim havia gravado em são paulo, quando o disco chegou na mão do midani ele ficou segurando, não acreditava que fosse acontecer alguma coisa. até que um dia tim, num ato de desespero (estava duro e faminto, e gordo faminto não é mole), invadiu a sala dele e deu um soco na mesa. não sei se por medo ou pelos "argumentos" gritados do tim, logo depois do incidente o disco saiu e deu no que deu: "primavera" estourou.
comigo foi o seguinte: eu saquei que a melhor maneira de fazer o disco sem ser "descoberto" por um produtor ou empresário era estar dentro de uma gravadora. então comecei a produzir, primeiro como assistente do mazzola na philips e depois já como produtor na polydor [selo mais "popular" da philips]. eu tinha um feeling para produzir, e talvez um pouco de sorte também. tudo que eu fiz deu certo, até projetos da casa, discos de bandas fictícias como banda do canecão, som bateau e samba é uma parada. aumentei as vendas em mais de 100%. eu havia feito um trato com o [diretor da polydor] jairo pires, de que quando eu estivesse pronto iria gravar o meu disco. e foi o que rolou, quando um dia faltou um cantor eu, que já tinha puxado o grupo azymuth para tocar comigo em quase todos os trabalhos, aproveitei e gravei três músicas. descartamos uma, "palavras de amor ao vento", e montamos um compacto com "na rua, na chuva, na fazenda" e "meu patuá". o andré, quando ouviu, falou na reunião de produção que era um dos trabalhos mais legais que ele tinha escutado no brasil nos últimos dez anos. eu dei gritos de alegrias quando soube.
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uma semana depois o jairo me chama na sala para me dar a boa notícia: a companhia achava que eu poderia ser o cara que faria um trabalho fifty-fifty, ou seja gravaria metade das minhas próprias músicas e metade de versões, e eles iriam investir muito em mim. a primeira música seria "angie", dos rolling stones. eu fiquei pasmo, a vontade que me deu foi ir lá tomar satisfação com o midani. o pessoal da polydor me segurou. me levaram para um restaurante e lá me acalmaram, me deram um compacto da música para eu ouvir e pensar. cheguei em casa e coloquei a música pra tocar, até gostei. era uma bela música, mas totalmente longe da minha realidade. pensei que poderia regravá-la do meu jeito, se quisesse, mas tudo o que eu queria era gravar as minhas músicas. se eu não fosse compositor nem pensaria em cantar músicas de outras pessoas, nem do papa.
então começou uma guerra surda. a minha estratégia era produzir cada vez mais e dar mais lucro, assim uma hora eles teriam que ceder. só sei que, em dez discos da companhia, no final do ano de 1973 eu tinha quatro que havia produzido sozinho e mais uns dois de que participara da produção, preparando as bases: odair josé e erasmo carlos. meu compacto foi três vezes para a fábrica e voltou, por ordem do andré. isso durou oito meses, até que, para não me perder como produtor que estava gerando muito lucro para a empresa, resolveram soltar o disco, mas meio que escondido, sem nenhuma divulgação. mas o disco foi sozinho, com ajuda de pessoas honestas que trabalhavam no rádio fui sendo descoberto pelas rádios mundial e tamoio, no rio, e a bandeirantes de são paulo. em pouco tempo fui a primeiro lugar em todo o brasil.
PAS - de onde e como partiu a idéia de mistura de samba, iê-iê-iê, música erudita, soul, rock'n'roll, música norte-americana etc. de "guitarras, violinos e instrumentos de samba"? era uma experiência malvista em 1975, mesmo entre músicos populares do brasil?
H - essas misturas sempre aconteceram na minha música naturalmente. deixo a música sair de mim sem bloqueio ou sem querer direcionar ritmo, levada ou melodia. simplesmente elas nascem assim, é uma mistura de tudo que ouvi nessa e em outras vidas (risos). em 1989, quando estava terminando um disco para a gravadora esfinge, apareceu por aqui o ex-trombonista de uma banda americana que eu adorava, chamada the crusaders. ele era também produtor da janet jackson e dos brothers johnson, e depois que ouviu meu disco me botou o apelido de "change man". wayne gostou tanto do trabalho que levou para mixar nos estúdios dele em los angeles, cobrando só o custo do técnico. tenho os direitos desse disco, pois a gravadora faliu e ficou me devendo dinheiro. qualquer dia desses vou relançá-lo. mas minha música tem esse lance de mistura, dentro da própria música o clima muda de repente.
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PAS - do episódio que você conta sobre a rixa entre músicos eruditos e os "psicodélicos", que impressão você guarda hoje? os eruditos se acreditavam superiores aos populares? como os populares reagiam a isso?
H - os eruditos daquela época eram coroas que não estavam acostumados com essa "profanação". estudavam anos e mais anos para tocar numa grande orquestra. de repente apareciam aqueles cabeludos tocando acordes perfeitos, alguns ruins, e eles tinha que aturar. então tinha essa parada de estereótipos. para complicar, todo cabeludo roqueiro tocava mal, não existia afinador de guitarra. imagina você estudar anos para conseguir entrar para uma orquestra do teatro municipal e de repente ter que gravar umas musiquinhas chinfrins com uns caras tocando desafinados. na cbs, tinha um presidente chamado evandro [ribeiro], que produzia também alguns discos [toda a produção iê-iê-iê de roberto carlos, por exemplo]. a máxima dele era "vamos gravar, gente! se afinar, não vende!".
PAS - mudando um pouco o registro da pergunta anterior, você sente que os músicos populares da geração dos festivais, da dita "mpb", se acreditavam superiores a artistas de extração mais popular, como eram os da jovem guarda, da black music, da canção "cafona" etc.? como você reagia a isso?
H - sempre existirá esse lance de turma, os iguais procuram se juntar. naquela época tinha a turma da jovem guarda, a turma do chacundum, a turma do soul, a turma da velha guarda (os da tradicional mpb, aliás no meu gosto os melhores, como nelson gonçalves, angela maria etc.), a turma do brega (que só estourava no norte - waldick soriano, por exemplo, era o rei dos puteiros do interior do país e aqui ninguém sabia quem era)... e existiam os "dandarandês", a galera dos festivais que adorava um "dandarendê" [uma pequena pausa, para não engasgar: hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaahahaha]. era um tipo de música em que sempre cabia um barato desse. a nossa turma, também chamada de esquadrilha da fumaça, sempre circulou bem entre todas, até porque neguinho respeitava, porque éramos músicos e nosso trabalho, apesar de simples, sempre teve um rebuscamento nas entrelinhas.
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