Vitória (ES), edição de 24 de janeiro de 2006    
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Panis et Circensis
ou
em terra de cego, quem tem um olho é caolho...



Heraldo Ferreira
Atualizado toda quinta-feira, às 16 horas


Pão e circo. Foi o que a Petrobrás ofereceu aos participantes da audiência pública desta quarta-feira (18) para a apresentação do Relatório de Impacto Urbano (RIU) de sua sede. Projeções, animações, maquetes eletrônicas e todo o tipo de suporte audiovisual para leigo (e profissional) nenhum botar defeito, além de um rega-bofe pequeno e discreto, mas suficiente para fazer jus à comparação com Roma antiga.

Como sempre, muita energia gasta de forma errada. O diferencial foi que a Petrobrás, como quase sempre, foi mais esperta. Ao contrário da última reunião com os moradores, numa sala (usada como auditório) do Colégio e Faculdade Americano Batista, um lugar pequeno e claustrofóbico, propício às manifestações e à algazarra, desta vez escolheram um lugar maior, um cerimonial grande o bastante para as pessoas se dispersarem. Estratégia digna de César, dividir e massacrar o inimigo.

A questão é que os moradores da Chapot Presvot preocupados com a perda da sua "ruazinha" sem saída, bucólica, de cidade de interior (que é o que Vitória ainda é!) ouviram o galo cantar e nem sabe aonde. Porque se parassem meio minuto para pensar, o Mc Donald´s, a Escola Crescer, a Faculdade Americano Batista e outros empreendimentos deste gênero causam mais impacto no trânsito no horário de pico do que esta tão mal fadada Sede Administrativa.

E aí surgem as mais estapafúrdias idéias e perguntas. Por exemplo, um morador aventou a possibilidade de transferir a sede para São Pedro ou Andorinhas. Ora, então, a solução é que Vitória não deve ser pensada como um todo, como parte de uma área metropolitana, onde estariam incluídos mais quatro ou cinco municípios, mas como bairros (esses feudos modernos)? É como se dissessem: Tirem o meu da reta! Pensamento mais individualista, medieval e provinciano, impossível!

Outra pérola sugerida é que se transformasse o terreno (que é privado) num "grande parque". Não sei, acho que talvez pudessem criar uma fazendinha, pasto e bois, só para ficar de acordo com nossa cidade. Aliás, uma das exigências da Prefeitura para aprovação do projeto é a cessão de uma área de 15.000m² para a instalação de um equipamento público a ser definido junto às comunidades da Praia do Canto e Barro Vermelho. Poderia ser qualquer coisa, uma Biblioteca Pública (já que, além da Biblioteca da UFES que tem acesso restrito, não existe nenhuma com um acervo decente), ou um Cinema de bairro (desses que passam filmes de arte e a produção local de curtas e longas, uma vez que a Petrobrás é um grande patrocinador do cinema) ou, quem sabe, um Teatro de verdade (com fosso para orquestra e palco para grandes apresentações de teatro, ópera e dança). Entretanto, o vereador e presidente da Associação dos Moradores da Praia do Canto, José Carlos Lyrio Rocha, já adiantou a informação que foi realizada uma consulta com os referidos moradores e ficou decidido pela criação de um "PARQUE". Uau, que surpresa!!!! Também, com tantas idéias criativas descritas acima não dava para ter nenhuma esperança.

Acredito, que como quase sempre em se tratando de problemas urbanísticos, a celeuma está sendo criada pelos motivos errados. Vejo dois problemas na implantação deste empreendimento, e não tem nada a ver com impacto no tráfego. O primeiro é o projeto de arquitetura em si, que foi resultado de um controverso e, até que se prove o contrário, idôneo e transparente concurso público de arquitetura, cuja ata da etapa final é contraditória e deixa claramente transparecer que a decisão não foi unânime e que o projeto escolhido pode não ter sido o melhor, pelo menos, para Vitória. Particularmente, acredito que não foi e digo, sem sombra de dúvida, que o melhor projeto para a área partiu de um arquiteto uruguaio radicado em São Paulo chamado Hector Vigliecca (mais informações sobre este projeto no site www.vitruvius.com.br na seção Institucional), que, aliás, recebeu a única menção honrosa do concurso. Outra questão que até hoje me incomoda é a descaracterização do traçado centenário da Reta da Penha (projeto do engenheiro sanitarista Saturnino de Brito). Ao invés do retorno proposto para quem vem da Avenida Fernando Ferrari em direção à Terceira Ponte, poderia se criar um retorno subterrâneo. Iria preservar o traçado e evitar mais um cruzamento.

Bem, apesar de tudo, o que fica é que a Petrobrás vai realmente se instalar naquele local e daqui a 10 anos ninguém falará mais nada sobre o assunto. As mesmas pessoas que hoje criticam, amanhã vão querer se beneficiar dela de alguma maneira. De qualquer forma, espero que a sua vinda traga a cultura e a produção de conhecimento, bandeiras que a Petrobrás encampa e patrocina, e que seja o início de uma mudança dessa mentalidade e atitude provinciana desprezível e anacrônica.

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