Vitória (ES), edição de 25 de janeiro de 2006    
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Apocalipse Qual?
O fiasco de "Soldado Anônimo" ajuda a pensar a
validade dos filmes de guerra no mundo de hoje



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


  
Foto: Divulgação
  
Por que ainda insistir em fazer filmes de guerra? A pergunta, realmente tentadora após uma sessão de "Soldado Anônimo" (em cartaz no Estado), tem uma resposta simples, óbvia até: ainda existem guerras, e é preciso - ou mais que isso, é fundamental - pensá-las criticamente através da arte. Se "toda guerra é diferente, toda guerra é igual", como diz a certa altura o protagonista do filme de Sam Mendes, o mesmo não se pode dizer dos filmes que se fazem sobre ela. Porque os (bons) trabalhos do gênero falam sempre muito mais sobre o mundo que produziu estes conflitos do que sobre os conflitos propriamente ditos, já que estes são, e sempre serão, eventos repetidos em que gente mata gente. É por ser este mundo de agora completamente diverso de tudo o que já existiu na História que ainda são válidos e bem-vindos os filmes que tentem entender a matemática tão complexa que torna, por um período determinado de tempo, o assassinato um instrumento legítimo de defesa dos valores (pátria, fé, paz, democracia, o que seja).

Mas que não se aceite qualquer engodo. Quando decide contar a história de um soldado americano no front da Guerra do Golfo de 1991, Sam Mendes parece ignorar a ligação direta entre este conflito e a grande enrascada da invasão do Iraque promovida pelos Estados Unidos dois anos atrás. Em boa parte de "Soldado Anônimo" parecemos estar numa colônia de férias a-histórica: as hordas de recrutas chegando ao deserto, a falta do que fazer, o tédio mortal, o calor, tudo isso preenchido com a displicência de quem não se esforça para ver nas relações que se estabelecem dentro de uma situação-limite como essa mais do que uma série de ligações esquemáticas. Não que Mendes elimine totalmente a referência ao presente: é que essas citações são sempre encapsuladas como momentos de exceção, quase surpreendentes diante da pasmaceira constante da narrativa - pensemos em que significações outras poderiam ser atribuídas à cena em que, finda a guerra, os soldados americanos comemoram atirando pela primeira vez com suas armas, para o alto, para o nada, apenas para exibir e gozar a força do equipamento, do mesmo jeito que fazia Saddam Hussein, o inimigo derrotado.

O caminho tomado por Mendes para se eximir de qualquer conotação mais pessoal sobre o assunto é transformar seu filme numa espécie bizarra de homenagem à cinematografia do gênero que não homenageia, apenas copia. Nesse horizonte esbarra num ponto precioso, mas nunca aproveitado pelo diretor. Como um filme de guerra sobre os filmes de guerra, "Soldado Anônimo" chega à questão de como a própria cobertura midiática (uma constante nos filmes feitos do Vietnã para cá) e a cultura de filmes sobre os conflitos influencia o andamento das batalhas reais. Os soldados do filme de Mendes cantam em coro a trilha sonora do ataque triunfal de napalm quando assistem à "Apocalypse Now". Em outro momento, numa referência ao mesmo filme, escutam The Doors e dizem que aquilo é música de uma outra guerra e que é preciso uma música nova. Mas interessa muito pouco ao filme pensar estas questões. Novamente a estratégia da cápsula, os momentos de reflexão crítica envolvidos numa casca sufocante que não permite que se exerçam como tal, posando apenas de chistes, quase piadas. Quem veio primeiro, a rigidez dos sargentos reais responsáveis pelo treinamento dos novos recrutas ou sua representação fictícia na figura do cruel comandante de "Nascido Para Matar" (e que em "Soldado Anônimo" é vergonhosamente copiado)? A velha questão de quem imita quem, arte ou vida, que Sam Mendes chega a jogar em cena, mas que nunca leva à diante. Cretinice por cretinice, fiquemos com o filme de Stanley Kubrick, e não com o subproduto que coloca "Don't Worry, Be Happy" para tocar quando o protagonista é espancado num rito de entrada na corporação. Falatório filosófico por falatório filosófico, fiquemos com o "Além da Linha Vermelha" de Terrence Malick e não com a xerox não-autenticada que se contenta em lançar uma "lição de vida" a cada vez que a narração entra no filme. Se há alguma razão para a permanência de "Soldado Anônimo" em nossas mentes, é essa: diante dele, somos arremessados à memória de momentos em que o cinema soube ser realmente grande o bastante para pensar seu tempo, momentos que, diferente deste filme aqui, escapam brilhantemente da gaveta implacável da irrelevância.

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