Ouvindo estrelas decaídas





Tavares Dias


Às vezes, em meio à turbulência, me ocorre que talvez fosse bom desenvolver a capacidade de ver a vida pela janela, feito um poeta parnasiano isolado em seu castelo de marfim.

Ou, quem sabe?, em amargurada tentativa de nada ver desta nossa pobre realidade trópico-lamacenta, buscar um viver nas nuvens, feito um simbolista, entre missais, broquéis e viagens na maionese.

Nada, porém, parece capaz de nublar a clareza com que se abate sobre nós esta letárgica sensação de que jaz um travo, um breque, um samba naturalista, suarento, promiscuído, modorrento, atravessado na garganta desta nossa avenida, desta cabeça-de-porco chamada Brasil, azevedo cortiço mulato de nossa prevaricada pindorâmica vida.

Mesmo que estes dias não sejam, como não são, senão um cortezinho assim, um nadica de nada na noite dos tempos, pegava bem um refresco, uma utopiazinha bem no meião do aqui e agora, uma folga, uma forra, uma farra das boas, um lirismo descomedido, de manuéis e de bandeiras, um lirismo que fosse enfim de libertação.

Que senão periga essa depressão coletiva não prestar senão pra nos transformar de vez de bando em debandados e degenerados, quando a gente já pareceu assim tão na beiradinha de virar uma nação.

Que é capaz de essa malemolente sensualidade trópica, essa pasmaceira abismal, essa expressão bovina, essa incompetência tranqüila seguir comendo a gente pela perna feito erisipela, esipa, elefantíase, osteoporose, frieira, gabarra, mijacão.

Que a corrupção, a sífilis, que a tortura, que o jeitinho e tanto trem torto que este País aprendeu tudo tem cura, que dessa amorfa escultura, desse tumor que não fura, ainda há de um dia, a vaza encontrando, um povo se formar.

E então, o que ao Primeiro Mundo parece realismo fantástico mas que pra nós sempre foi só o cuíco eco do ronco lamento de milhões de barricas vazias, há tornar-se o tamborim que há de chamar o bloco para a apoteose da paz e do desenvolvimento.

E então, de saco cheio de ouvir estrelas decaídas, haveremos, quem sabe, então?, de lembrar, drummonianamente, do tempo em que também ainda não sabíamos que a nossa história "era muito mais bonita que a de Robinson Crusoé."

Sambando em fio de navalha,

Dançando em cio de gilete,

Deus se quiser que nos valha,

quem quiser que conte sete.