Parece estar chegando ao fim a luta dos índios do Espírito Santo pela posse de suas terras, no norte do Estado. Significa dizer que está próximo o recomeço de seu esforço para dar um chão digno às futuras gerações.
Sim, porque eles mesmos reconhecem que as terras ocupadas ilegalmente pela Aracruz Celulose, e que em breve voltarão aos seus legítimos donos, vão exigir muito sacrifício, suor e trabalho para que voltem a ser férteis e agricultáveis.
Desgastadas e saturadas pela monocultura do eucalipto, além disso inférteis pela aplicação sistemática de agrotóaxicos, as terras indígenas terão que ser renovadas, tratadas segundo os costumes indígenas para voltar a dar frutos.
Foi dura e dolorosa a luta. Pacífica, ordeira, mas firme e incisiva. Muita incompreensão os índios enfrentaram, mas tiveram o apoio e a solidariedade dos cidadãos de bem deste Estado. Sua última batalha foi sangrenta - 13 índios feridos a bala de borracha e espancamentos, mulheres grávidas e idosas desrespeitadas, lideranças detidas e mantidas incomunicáveis na "casa de hóspedes" da Aracruz Celulose.
Todo o drama vivido pelos índios já é de conhecimento do presidente da República, que com eles se reuniu nesta segunda-feira (30) quando de sua visita ao Estado. A história, com detalhes, desta batalha desigual travada com a poderosa multinacional do eucalipto está contada e documentada, inclusive com fotos, numa correspondência entregue em mãos ao presidente.
Lula se comprometeu a dar uma resposta rápida ao pleito dos índios. Designou o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, para negociar com a Aracruz a fim de que impedir novas batalhas judiciais, como parece ser a intenção dos dirigentes da empresa, a julgar pelo artigo de seu diretor de sustentabilidade, Carlos Alberto Roxo, publicado domingo último (29) em "A Gazeta".
Trata-se de um texto recheado de inverdades, a começar pela informação de que as terras em litígio foram adquiridas de mais de 80 proprietários e, mais adiante, que a reserva indígena só foi criada em 1983, com doação de 1.700 hectares pela Aracruz. A verdade é que os Tupinikim estão nesse território há séculos. A história registra, inclusive, no século XIX, uma visita de d. Pedro II ao território, quando oficializou a posse da terra, ameaçada de invasão pelos madeireiros.
Na passagem do imperador pelo Espírito Santo foram demarcados cerca de 40 mil hectares como território indígena. A maior parte das terras ocupadas hoje pela Aracruz, tanto em Aracruz como em São Mateus e Conceição da Barra, pertencia aos índios e aos quilombolas.
Foram cedidos à empresa exatamente por constituírem territórios étnicos, sem estarem, portanto, devidamente legalizados sob a ótica da lei de terras do Estado. Sob o falacioso argumento da inexistência dos índios, os governos da época, que eram ditatoriais, transferiram o território para a Aracruz.
Além desses dois territórios, de extensão superior aos 100 mil hectares, a Aracruz também adquiriu terras de terceiros, muitas das quais na periferia dos territórios indígenas e quilombolas. Essas terras de periferia foram usadas para legalizar terras indígenas e quilombolas. Analisando-se os preços pagos à época, facilmente se constatará seu aviltamento.
O governo federal tem agora a oportunidade de passar a limpo toda essa história. Para os índios, o presidente da República demonstrou sensibilidade e interesse em dar fim a esse domínio da Aracruz sobre uma enorme extensão territorial do Estado, como se fosse ela a dona do Estado.
É aguardar e torcer para que a justiça se faça sem sangue e novos sacrifícios.
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