Dias atrás, o editorial do Século Diário falou do "jornalismo canhestro" praticado por A Gazeta dentro de uma matéria sobre a Lei Rubem Braga, criada no início da década de 90, quando a prefeitura de Vitória esteve nas mãos do então petista Vitor Buaiz.
Lamento dizer que esse tipo de crítica ao comportamento da imprensa não só me constrange, mas deprime. Do fundo do coração, gostaria que o jornalismo fosse exercido como um sacerdócio em nome da deusa Verdade. Infelizmente, é um ofício cada vez mais subordinado a interesses políticos e econômicos. Pior ainda, no caso em questão, é que a omissão do nome do ex-prefeito é fruto provável de certa mesquinhez. A mentira tem pernas curtas, diz o ditado.
Até para os leitores é constrangedor ler, ouvir dizer ou perceber por conta própria que um jornal ou um jornalista pisou na bola. Mas há uma diferença fundamental entre pisar na bola por acaso e pisá-la de propósito. Nesse aspecto, o adjetivo "canhestro" é um achado do editorialista do Século, um mestre no manejo das palavras.
Essa palavra tem a mesma raiz de canhoto, no sentido de escuso, escondido. Quem faz algo canhestro, no fundo, procura esconder algo. Fica difícil, porém, fazê-lo impunemente em algum veículo de comunicação, pois as pessoas lêem as linhas e também as entrelinhas. Seja rádio, jornal ou TV - e até mesmo na internet, uma nova mídia, ainda no jardim da infância - todo veículo de comunicação é um espelho transparente da realidade. Nele, mais até do que ao vivo, é possível perceber o jogo da verdade e da mentira, com suas diversas gradações.
Muitos leitores dizem que têm nojo da imprensa, porque ela manipula e distorce a realidade. Freqüentemente me questionam: como é que o jornalista agüenta correr atrás de informações que sabe serem deturpadas antes, durante ou depois da publicação?
É como usar óculos: a gente acostuma. É costume comparar o jornalismo à cachaça. Seria um vício, uma compulsão. Não concordo. Ser jornalista é como ser advogado ou policial, requer um empenho de alma; caso contrário, vira merda.
Há um romance em que certa personagem reconhece um jornalista "pelo seu olhar subserviente". É claro que se trata de ficção, mas como dizia aquela canção popular gravada por Elza Laranjeira - cantora talvez presente nas lembranças de mais de um editorialista do século XXI -, "todo boato tem um fundo de verdade". Infelizmente muita gente acha que, por "segurar um microfone", o jornalista tem de ser submisso. Ao contrário, é melhor para todos que sejam inquieto e questionador.
Não se pode dizer, sem correr o risco da generalização, que no jornalismo a mentira prospera mais do que a verdade. Na realidade, a maioria das notícias veiculadas pela mídia corresponde aos fatos, mas o modo de narrar varia de acordo com o narrador e veículo. E como vareia. Entre o fato e a notícia há 1001 interesses. É aí que mora o perigo. Freqüentemente, o nome do jornalista vai de roldão dentro de um processo redacional (no qual interferem vários dedos e mãos) de manipulação ou omissão de um fato. Fica sempre a pergunta: depois da cagada feita, adianta recorrer ao sindicato?
Enfim, cabe lembrar que não se deve confundir o jornalismo e a imprensa. O jornalismo é um ofício individual, a imprensa uma atividade empresarial. Muitos gostam de confundi-los e alguns até forçam de propósito a mistura, em movimentos de camaleão, mas em princípio o jornalista é uma coisa e o veículo outra. Embora ambos se situem aparentemente no mesmo campo, seus interesses não são necessariamente harmônicos. São até naturalmente antagônicos, pois entre eles arde comumente o fogo da luta (também chamada de contradição ou conflito) de classes, algo que o neoliberalismo gostaria de ver revogado, para que se intensifique a exploração de uma pela outra. Mas, ainda que haja acordo ou comunhão entre as partes, a dialética da História não acabou.
Além disso, é preciso lembrar que os leitores não são necessariamente alheios ao jogo de interesses que tem na mídia um dos mais perfeitos reflexos.
Chamemos os leitores de "mercado", essa instituição mais dotada de estômago do que de cérebro. Ele é voraz, aceita tudo, mas não é neutro. Adora fofoca (uma das gradações mais pervertidas da verdade factual) e gosta de saber dos crimes mais banais, das picuinhas mais rastaqueras e das falcatruas mais grossas. É tolerante e conservador. Pouco exigente também. Por isso aceita não apenas o jornalismo canhestro, mas a bajulação e a subserviência como prática corriqueira da mídia.
Aceita, mas isso não significa que esteja de acordo. O mercado é burro e age com o chamado espírito de manada, mas não é incapaz de mudar, já que se constitui de pessoas que sentem, pensam e são aptas a organizar-se no pensamento e na ação.
Em outras palavras, a busca da verdade é uma chama que jamais se apaga. Pode-se supor que o jornalismo romântico, tocado por repórteres audaciosos e editores sem medo, é um fenômeno em extinção, devorado pelo jornalismo econômico, o jornalismo empresarial, o marketing, o business. Mas a esperança é a última que morre e jamais faltará espaço para a manifestação da sede de justiça (que é o motor da busca da verdade). Um dos sinais de que a luta continua é essa fantástica proliferação de blogs na internet - enquanto a mídia impressa parece trafegar irremediavelmente na contramão da História.
É claro que tudo isso pode acabar no buraco negro dessa civilização dependente de energia não renovável, mas até lá ainda temos muito chão pela frente. Em último caso, os postes servirão como suporte para bilhetes e panfletos. E mesmo aí haverá gente pronta a pôr no ar mensagens canhestras.
ghasse@th.com.br
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