No livro "História & Música", o pesquisador Marco Napolitano sustenta que as mudanças no samba ao longo dos anos sofreram influências sociais e políticos-culturais. De amaxixado, passou ao percussivo influenciado pelos bambas do morro do Estácio. Esse novo samba do Estácio "nasceu de uma ruptura e não de uma ´volta ao passado` folclorizado", como afirma Napolitano. A indústria cultural e sua massificação fizeram o gênero percorrer diversos caminhos, necessitando da criação do conceito de tradição dentro do samba. Folcloristas e críticos musicais como Almirante e Lúcio Rangel passaram a questionar a validade dos novos sambas influenciados por outros gêneros urbanos e acabaram por criar o conceito de "velha guarda". Campanhas foram instauradas demarcando as primeiras décadas do século XX como a era de ouro. Neste movimento da década de 40, a intenção era deixar claro o passado glorioso do samba.
Formada por Carlos Augusto Lajota (voz), Edson Papo Furado (voz), Alvimar Guimarães Detefon (voz), Nelson Gonçalves (violão de sete cordas), Ney do Cavaco (banjo), Abel Nascimento Choroca (percussão), Tião Batera (bateria), Zezé (percussão), Joaquim Joaca (pandeiro) e Zé Luis (percussão), a Velha Guarda do Samba Capixaba, em disco homônimo, apresenta 13 sambas que tentam resgatar o que o grupo acredita ser a raiz.
Iniciar o disco com a música "Algo Estranho", composição de Monarco e Mauro Diniz, não é acidental. A faixa vira um manifesto pelo samba tradicional tanto pelos nomes que assinam a canção como pela letra que narra a história de um casal que pode ser interpretada como um apelo à glória do samba: "Não sei meu bem porque mudaste tanto / que sinto algo estranho em teu proceder / tu que me tratavas com carinho e acalanto / não há mais harmonia nem prazer". Apresentar Monarco logo na abertura é relacionar o samba capixaba com o melhor da tradição do gênero no Rio de Janeiro.
Como a Velha Guarda Capixaba não é fruto de uma única escola e as agremiações locais não apresentam uma ala dedicada aos membros mais antigos, se fez necessária a criação de símbolos para a ambientação do disco, como a inclusão de um coro substituindo as pastoras. As referências ao samba carioca levam o grupo a celebrar os compositores locais na faixa Homenagem à Velha Guarda da Fonte Grande, em que são citados diversos compositores como Fiusa, Aloísio, Caroço e Ailton Canário.
A maioria das faixas é cantada por Lajota e apresenta arranjos clássicos para o samba em estúdio, com pouco destaque para a força da percussão e realce dos floreios da flauta e instrumentos de corda, por exemplo. Tendo o samba de meio de ano como guia do disco, o álbum acerta na tarefa de mostrar como os compositores capixabas aprenderam cuidadosamente os mandamentos enraizados pelos grandes nomes do samba. A única ressalva é o encarte, que ganharia mais valor se não cometesse erros na ordem das músicas e se não omitisse o nome dos membros do grupo e informações preciosas como dados sobre os autores e o ano de registro de cada composição.
*Editor do Caderno Atrações
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