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Foto: Divulgação
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Lá pelo meio de "Quem Somos Nós?" (em cartaz no Cine Metrópolis), um dos cientistas entrevistados diz que em alguns laboratórios americanos já é possível reproduzir a tão sonhada experiência de simultaneidade de um objeto em espaços diversos, ou seja, um mesmo feixe de luz já pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Mas esse mesmo cientista - ou místico, ou filósofo, ou teólogo, ou simplesmente um lunático, isso o filme não faz questão de deixar claro até os créditos finais - diz que, pelo histórico de ficcionalização em torno dessa experiência, quase banal para qualquer um que tenha visto um capítulo de Jornada nas Estrelas, um observador leigo que fosse a um desses laboratórios e visse a ocorrência simultânea do feixe de luz certamente duvidaria de sua veracidade, acreditaria que ali por trás existiria alguém fabricando aquela ilusão de ótica e vendendo-a como verdade científica. Se a ficção em torno da ciência é diagnosticada como um mal à propagação de suas idéias, não deixa de ser curioso que "Quem Somos Nós?" queira usar justamente ela para dar conta de seu tratado quântico. Talvez seja por essa desconfiança em relação à representação que o trio de diretores William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente tornem o entrecho dramático dentro de seu documentário tão sofrível: se o cinema tornou ridícula uma experiência científica tão revolucionária, promovamos em nosso filme revolucionário a vingança perfeita, tornando o próprio cinema totalmente ridículo diante da ciência suprema que defendemos.
Os fatalistas que previram a morte do cinema com a chegada da tecnologia digital certamente não viram "Quem Somos Nós?". Não há nada em suas imagens que justifique a película gasta para projetá-lo pelas salas do mundo inteiro (porque, é claro, o filme foi um sucesso por onde passou). Se toda a parte documental com as entrevistas dos "especialistas" em física quântica se qualificaria para um programa sensacionalista do canal People & Arts, a ficção em torno da personagem Amanda (Marlee Matlin) não passaria nem como uma dramatização de um desses programas religiosos que reconstituem em imagem a história sofrida de seus fiéis. Ou vejamos: Amanda é uma jovem fotógrafa que está perturbada pela traição de seu ex-marido, pego em flagrante transando com uma de suas madrinhas de casamento. Sua vida caminha para a apatia e, entupida de antidepressivos, ela já não consegue mais ver significado nesse mundo. Mas Amanda tem a sorte de ouvir em seus sonhos os depoimentos de uma dúzia de especialistas em física quântica que dizem para ela que nem tudo está perdido. Sorte maior ainda é que Amanda seja surda-muda, o que torna sua essência pura e sua alma livre das vicissitudes normais - e é por isso que a jovem terá sua vida transformada pelos ensinamentos dos mestres cientistas. Esse mau gosto não é casual: está espalhado em cada jogo de computação gráfica que simula as ligações nervosas do cérebro, em cada efeito especial amador, em cada encenação preguiçosa, no fetiche poético do trio Ternura que dirige "Quem Somos Nós?" e acredita que basta mostrar uma fonte d'água em câmera lenta para dar profundidade à uma idéia.
Essas, no entanto, são enganações menores. Fosse apenas um filme ruim, até poderia proporcionar alguma diversão com suas trapalhadas. Mas a idéia aqui é outra. "Quem Somos Nós?" quer mesmo é ser doutrinário, e não se faz de rogado em utilizar todos os ardis necessários para nos ensinar suas lições de moral. Apesar do desserviço que presta à arte e ao cinema, quem sai mais desfavorecido do filme é justamente seu grande trunfo, a ciência e todos os conhecimentos que a humanidade pode tirar delas. A trinca de ases da direção nos conduz de maneira não muito sutil por um caminho que sai das complicações conceituais para a simplificação absoluta, num panorama que transforma a física quântica num mero instrumento de auto-ajuda. Muito rapidamente nos é empurrada a idéia de que o mundo é produzido pelo nosso interior, que a realidade é criada pelos próprios seres humanos. Desse modo, nós temos totais possibilidades de afetar a realidade de acordo com nossa vontade. Se tudo no mundo é pensamento (nada existe de fato, o conceito de matéria é implodido), e se nós podemos mudar tudo o que quisermos, por que ainda nos olhamos no espelho e vemos uma pessoa muito gorda? Essa cena existe em "Quem Somos Nós?". Amanda está diante do espelho, e um truque de computação caseiro faz com que seus quadris fiquem do tamanho de um elefante. Então vemos um sujeito misterioso aparecer e dizer que é preciso acreditar na força do pensamento, pois com ele mudamos nossa realidade. Amanda pensa. Amanda emagrece. Amanda aprende a ser feliz com a teoria do pensamento positivo dos senhores William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente. E eles esperam que nós também, espectadores imbecilizados ao nível do absurdo, saiamos dessa experiência com uma grande lição nas mãos. Fica mesmo muito fácil ser feliz depois de "Quem Somos Nós?", mas não porque de agora em diante só pensaremos em coisas boas e assim mudaremos nossas vidas. É que, graças à sua capacidade de ser tão descartável, nunca mais pensaremos num filme desses.
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