Às vezes eu fico pensando como é que a gente pode fazer pra deixar de exigir dos outros o que a gente não tem coragem de exigir da gente mesmo.
Tem dias em que eu fico imaginando como é que se faz pra manter o foco nas melhores coisas que as outras pessoas têm, sem deixar de perceber as limitações delas mas também sem se colocar no lugar de juiz.
O que será que faz o avaro chamar alguém de gastador, o esbanjador classificar o irmão como miserável, o invejoso apostrofar o amigo de apadrinhado, o protegido rotular o seu próximo de incompetente?
Toda pessoa que se aproxima de mim tem pelo menos uma lição para me ensinar, geralmente mais de uma, nem que seja apenas me mostrar, com seu jeito de ser, como é que eu não devo me comportar se desejo ser feliz, mas é estranho como na prática é difícil a gente se concentrar e perceber isso no outro, o que às vezes faz com que a lição passe debaixo do nosso nariz e a gente não a perceba nem se beneficie da riqueza dela.
José e Maria são dois amigos meus que vivem juntos há muitos anos e agora resolveram se separar. E o melhor que eu posso fazer por ambos é continuar seu amigo, em silêncio, respeitando neles o sagrado direito de jogar diamante pela janela, que é o que ambos estão querendo fazer, e pedir a Deus que lhes dê a chance de crescer com a dor que certamente virá de sua decisão.
Já faz um tempo que deixei de oferecer ajuda a quem não está pedindo, preferindo aguardar que eventualmente a pessoa manifeste o pedido, porque aquilo que a pessoa não buscou para si não tem qualquer valor quando dado de bandeja.
Todos nós temos um limite, mas a maioria das pessoas, eu incluído, corre o risco de parar de crescer muito antes de atingir seu limite, o que significa dizer que na às vezes quem delimita nosso próprio universo somos nós mesmos, com nossa falta de concentração, ou de noções de espaço e limites, e também com nossa dificuldade de estabelecer prioridades em nosso projeto de vida.
Todos somos invejosos, uns mais outros menos, uns de modo mais contundente, outros de maneira mais sutil, mas, se é importante ter consciência disso, é igualmente necessário perceber que às vezes atiçamos maldosamente a inveja do outro, com palavras, relatos e atitudes cheios de orgulho e de vaidade.
Quantas vezes pedimos a Deus que nos dê coisas que invariavelmente negamos aos nossos semelhantes, e como é freqüente querermos que nossos superiores hierárquicos tenham para conosco atitudes que somos incapazes de ter diante de nossos subalternos.
A maioria de nós sabe na ponta dos dedos as coisas que são primordiais para se mudar o mundo, mas quantos de nós têm verdadeiramente a coragem de empreender uma mudança dentro de si, começando por um processo de autonhecimento?
Conhecer-se é dar de cara consigo mesmo, não com sua auto-imagem de bonzinho, bonitinho, leal e justo, mas com sua porção desconhecida, aquela parte sua aonde ainda não chegou suficiente luz, onde a ética que prevalece é a do instinto de sobrevivência, às vezes de predador, o que explica que o autoconhecimento não é só pra quem diz que o quer, mas principalmente para quem o suporta.
Colocar no chão, reduzida a pó, sua auto-imagem tão ilusoriamente construída, para então erguer no lugar a estrutura de um ser mais humano, mais ético e mais amoroso, capaz de reconhecer no outro um semelhante, independente de suas características e diferenças, é não só desejável mas imprescindível, se de fato queremos a paz, mas quantos de nós podem compreender que a paz é algo que só se pode atingir num processo cujo movimento só pode se dar de dentro para fora do ser?
Para mexer em estruturas tão arcaicas, é preciso primeiro encarar o medo, nosso mais antigo companheiro aqui na Terra, e então entender que a única diferença entre um covarde e um herói é a maneira como administram o medo, sentimento que está presente dentro de todas as pessoas medianamente saudáveis.
De onde vem a coragem vêm também a cordura, a cordialidade, a cortesia e todas as outras coisas boas que nascem num coração desarmado e sem medo, e um coração sem medo é incapaz de agredir, seja com palavras, atos ou omissões, exceto em caso de legítima defesa, porque toda agressão é filha do medo.
Vai uma coragenzinha aí, gente boa?
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