Vida de Imigrante - Futebol e preconceito




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


Preconceito é feio em qualquer língua e em qualquer ocasião. Mas quando acontece no esporte é pior ainda, porque o esporte tem exatamente a finalidade oposta de nivelar diferenças, reunir, igualar. Para isso são feitas as competições internacionais - todas as nações dando as mãos para valorizar e incentivar o esforço e a competência, não importa em que raça, credo, ou situação econômica.

Essa Copa do Mundo está mostrando que nem todos pensam assim. E como roupa suja se lava em casa, temos que começar apontando o péssimo exemplo do Casseta e Planeta que acintosamente - e pedantemente - fez a maior crítica ao país de Gana, esquecendo: 1) que também somos pobres e não gostamos que os países ricos zombem de nós, 2) ninguém é pobre porque quer.

Não muito tempo atrás sentimos na pele essa discriminação, quando o programa "Os Simpsons" fez um capítulo passado no Brasil, zombando da nossa pobreza e mostrando nossos problemas e defeitos com lentes de aumento. Não gostamos, e é imperdoável que a história se repita justamente num programa que se diz moderno e liberal.

Na imprensa do primeiro mundo, o que mais vemos é o "espanto" porque os países pobres estão derrotando os ricos na Copa do Mundo. Não! Como é possível que isso aconteça? Claro, isso já acontece há anos, mas só agora resolveram explorar a incongruência dessa situação. Os jornais falam em "resultados surpreendentes" - não de times ruins sobre times bons, mas de países sem "influência geopolítica" sobre os economicamente poderosos.

Lido em um jornal: "Como pode Trindade e Tobago, uma nação com um PNB de apenas 13 bilhões vencer a Suécia, 30 vezes mais rica? O Equador vencer a Polônia? E a Costa do Marfim?" O autor dessa pérola do preconceito culpa a migração para tais disparates, porque os jogadores de países pobres são levados para os times dos países ricos, e "aprendem" a jogar.

Enquanto a bola rola nos campos da Alemanha, e os placares vão revelando "resultados surpreendentes", continuamos na rodada, vendo o Brasil citado não apenas como franco favorito, mas como o melhor time do mundo. Hoje, ver pessoas vestidas com camisas do Brasil não indica necessariamente uma alma brasileira em regozijo. O mundo torce por nós. Pra frente, Brasil!