"A melhor coisa do futuro é que ele
chega à razão de um dia de cada vez".
(Abraham Lincoln)
A entrevista deste final de semana parece mais uma aula sobre política. Nossa entrevistada, a professora Marta Zorzal, é vice-diretora do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN) e professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Como cientista política, a professora explica os arranjos que estão ocorrendo neste ano eleitoral. Para Zorzal, tanto os projetos do candidato ao governo Sérgio Vidigal pela oposição, quanto os de reeleição do governador Paulo Hartung, são de "centro".
Não há, portanto, uma "esquerda" e uma "direita" se debatendo, almejando o Poder Executivo no Estado. A avaliação da professora aponta para um governador dotado de muita astúcia, como bom estrategista e articulador dos detalhes de um jogo de xadrez.
Marta Zorzal também interpreta a crise do PT, diante de acontecimentos mostrados pela mídia, interferindo no poder de voto nas classes médias e nas mais intelectualizadas. Em relação às classes populares, ou seja, a grande massa, a situação é diferente. Para a cientista, o presidente Lula conseguiu conservar, em torno do povo, um carisma nato, diferentemente do seu maior opositor, Geraldo Alckmin (PSDB).
Século Diário: - Como a senhora avalia as interposições do jogo político nesse cenário para as eleições 2006?
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Foto: Ricardo Medeiros
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Marta Zorzal: - Eu vejo o cenário político no Estado, de uma perspectiva dos atores. Não tanto os atores partidários, mas os atores que façam representações, enquanto grupos, enquanto articulação de projetos, mais do que do ponto de vista da expressão partidária. Os partidos no Brasil não têm uma densidade muito grande do ponto de vista de representação de interesses. Eles têm uma característica muito mais, digamos, como instituição obrigatória, no sentido de vencer. É pelo partido que se tem condições para a eleição, tem condições para expressar lideranças, de colocar plataformas. Mas, no Espírito Santo, no Brasil em geral, os partidos mantêm muito o papel de articuladores de projetos políticos, no sentido particular. Você vê muito mais lideranças que ora estão num partido ora estão em outro e fazem muito o papel de capitalizar muito, aparecer muito, de estar sempre sendo colocadas enquanto atores que articulam um projeto político. Nesse sentido, vamos perceber claramente os grupos, como eles se movem dentro dessas siglas e dentro de um sistema partidário. No caso do Espírito Santo, vemos isso de uma forma muito clara, com o exemplo do próprio governador Paulo Hartung, que não tem uma tradição de fidelidade partidária, ou seja, vemos em outros países a liderança que nasce republicana, no caso dos Estados Unidos, ou nasce democrata, vai permanecer nesse partido praticamente a vida toda e, nesse sentido ele se coloca como liderança. Há um vínculo muito forte entre liderança e partido, que é uma coisa que não se verifica no Brasil, no sentido de ter uma fidelidade partidária muito volátil, muito solta, muito sem controle; por isso que vemos muito mais a movimentação das lideranças no cenário político. É claro que não estou dizendo que esse partido não tem função. Estou avaliando como isso aparece para o grande público. Enquanto uma imagem portadora de projetos, eles têm uma dificuldade de enraizar seus projetos, suas bandeiras, de forma clara na sociedade, principalmente PMDB, o PSDB, o PL... ficam meio numa linha homogênea. Três ou quatro partidos que, no espectro político, marcam a "direita", marcada pelo PFL, e a "esquerda" é bem marcada, mas já nem tanto, pelo PT, PC do B, PSOL... São os dois extremos, mas no "centro" temos o PMDB, o PSDB, o PDT... o próprio partido do Sérgio Vidigal. Temos claro que, em termos de projetos, de propostas políticas, os partidos dentro do cenário e uma mobilidade grande nesse meio. Sobre a aliança que aproxima PMDB e PSDB, é uma aliança que não é tão estranha assim. Essa aproximação, eu não diria que ela é natural, mas tem muita proximidade. No caso do PSDB, se olharmos historicamente, nasce de dissidências dentro do próprio PMDB. Nesse sentido, têm afinidades históricas, em termos de pensamento de projeto, de ações, de prática política que não é tão longe. No plano nacional, podemos ver um certo distanciamento, mas, aqui no Espírito Santo, os dois não têm grandes polaridades. No meu ponto de vista, o governador Paulo Hartung está montando o seu tabuleiro de xadrez, por sinal muito bem montado. É um grande estrategista, que está com uma proposta e, nesse setor ele tem uma astúcia muito grande, no sentido de trabalhar o processo eleitoral do ponto de vista da construção de alianças.
- O PMDB vai apoiar, de uma forma ou de outra, o candidato nacional à presidência da República, Geraldo Alckmin (PSDB). O governador Paulo Hartung está tentado ficar "neutro" sobre isso, no Estado. A senhora acredita que essa "neutralidade" seja possível para um ator político no lugar que ele ocupa?
- Eu acho muito difícil. Acho que ele vai ter que fazer um grande esforço, se é que ele vá ficar eqüidistante. Não digo que ele vá ficar neutro. Acho impossível ele ficar neutro. Vai ficar eqüidistante. Então, ficar eqüidistante e pensar, o tempo inteiro, nas alternativas. Na verdade, aqui (no Espírito Santo) na política, o tabuleiro está armado. O jogo de xadrez está armado. Como é que essas peças vão se movimentar nesse tabuleiro, vai depender muito da conjuntura política nacional, da própria conjuntura política internacional, do ponto de vista das polaridades no âmbito internacional, do ponto de vista dos arranjos, das articulações que estão se montando em termos de Mercosul, etc. A coisa do Japão, da Coréia... Como é que esse cenário internacional vai se mexer? Mas pode dar o tom do cenário, do ponto de vista mais geral. Do ponto de vista local, nosso, acho que esse cenário da questão do petróleo, vai proporcionar alguns impactos interessantes. Dependendo de como essa conjuntura se configura, não só no Estado, mas no Brasil como um todo, essas eleições, os caciques e as forças políticas regionais e estaduais tenderão a ser um "peso" nessas eleições. Na verdade, o que se está articulando do ponto de vista do futuro? Temos, hoje, possibilidades de reeleições, tanto no plano estadual quanto no plano federal. Então, são projetos que vão estar se desenhando para daqui a dez anos, daqui a quinze anos... É um pouco do que Antônio Carlos Medeiros, no Século Diário, está colocando na coluna dele, da última quarta-feira (5). Um pouco desse redesenho do pacto federativo, das forças. Uma coisa que parece interessante é que se tem uma grande renovação, do ponto de vista de todos esses movimentos, nesses últimos anos, têm se expressado. A questão da corrupção no governo Lula, o próprio fato de o PT ter chegado ao poder. Isso, na verdade, desmistifica muito o próprio lado revolucionário da "esquerda" e as bandeiras que a "esquerda" tem e que levantou e ergueu. Na verdade, do ponto de vista de colocar em prática, houve muito constrangimento, tanto sobre a gestão quanto a governabilidade e da necessidade que a governabilidade impõe, da construção de um arco de alianças que gere condições de ligar interesses e dê sustentação a essa governabilidade.
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Foto: Ricardo Medeiros
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Foi nesse sentido que eu disse que Paulo Hartung está tendo muita astúcia, no sentido de montar um bloco que tenha capacidade de lhe dar sustentação à governabilidade. Isso ocorre na medida em que ele está trabalhando tanto, que vemos a montagem de apoio ao governo. Mas também vemos a montagem do Legislativo. Como estratégia dele, está muito bem montada, não só no quesito "reeleição" em si, mas também da construção de possibilidades, no sentido de eleger o maior número de deputados federais, deputados estaduais. Eu acho essa estratégia inteligente porque na democracia não se governa sozinho. Não existe essa coisa de o Executivo caminhar sozinho. Prescinde o Legislativo. Se ele não tem uma boa base de sustentação, dificulta o governo. É como não ter o "fluir" das ações, dos projetos, sem uma série de questões. Se tem muito opositor, então, na realidade, há uma negociação... Há uma necessidade maior de oposição, mas eu digo essa negociação, no sentido de a oposição colocar pedras no caminho, dificuldades para a construção a longo prazo.