Vitória (ES), edição de 30 de janeiro de 2006    
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Música hermana!



Oscar Vasconcelos
Atualizado toda terça-feira, às 16 horas


Há muito tempo atrás, eu não entendia muito bem a razão de bandas que eu admirava muito, ficarem insistindo numa aproximação com artistas que cantavam em espanhol. Fui a shows que eram verdadeiros "intercâmbios culturais" e, confesso, sem jamais perceber o valor que aquilo tinha.

Falo mais especificamente de Paralamas do Sucesso e Titãs, do lado de cá, e Fito Paez e Charly Garcia do lado de lá. No começo, e meados, dos anos 90, essas presenças em shows, discos e versões eram muito constantes pelo que me lembro, principalmente entre esses quatro.

Teve o disco do Caetano também, todo em espanhol, o "Fina Estampa", mas o público alvo era outro. Com os Paralamas eu comecei a perder o preconceito, mas não muito, graças ao "Severino" (obra prima!) que trazia três temas em espanhol (duas versões - para "Go Back" e "Quase Um Segundo" - e uma inédita, "El Vampiro Bajo El Sol" em parceria com Fito Paez), e uma sonoridade carregada de latinidade. E a banda mantém até hoje essa aproximação e o interesse pelo som dos nossos "hermanos". Depois acho que foi o Lulu Santos, que no álbum "Liga Lá" trouxe a belíssima "De Mi" de autoria de Charly Garcia e, por fim, a Cássia Eller que começou a chamar minha atenção com uma interpretação arrebatadora para "Mis Penas Lloraba Yo/Soy Gitano(Tangos)". A partir daí eu não rejeitava mais as canções em espanhol, embora também não as procurasse. Moska recentemente trouxe Jorge Drexler para seu universo e o resultado foi muito bom também.

Eis que o destino, personificado na pessoa jurídica para a qual alugo minha alma, me levou a começar a estudar espanhol, e como tudo que faço na vida precisa de música para funcionar bem, lá fui eu buscar aqueles que tempos atrás reneguei.

Hoje estou completando quase uma semana que só ouço músicas em espanhol, descobri grandes discos dos dois maiores referenciais do idioma. Exemplos são "Filosofia Barata y Zapatos de Goma" (1990) e "Parte de la Religion" (1987) de Charly Garcia, e "Circo Beat" (1994) e "Euforia" (1996) do grande Fito Paez, certamente deve haver mais trabalhos de altíssimo nível desses dois, eu é que não tive tempo de conhecer tudo ainda.

Encontrei também gente nova, nova para mim pelo menos, como o grupo mexicano "Café Tacuba" com diversos discos lançados - ouvi o "Unplugged" (1996) e o "Reves!Yo Soy" (1999) - e o mais surpreendente de todos: Gecko Turner.
Antes da carreira solo, Gecko liderou alguns grupos de relativo sucesso, sempre cantando e compondo (em inglês, português e espanhol), ainda produziu, e produz, diversos artistas. A mistura de influências é o que mais chama atenção em seu álbum "Guapa Pasea!". Temos desde uma releitura de contornos tropicalistas, pontuados por uma deliciosa flauta que paira na atmosfera de toda a canção, feita para "Subterranean Homesick Blues" (em espanhol) de Bob Dylan, ou uma levada flamenca para "Rainbow Country" sem perder o groove do reggae de Bob Marley. Para nós, brasileiros, que somos musicalmente muito admirado por Gecko - aliás tem dois representantes de nosso país em sua banda - há uma bela versão de "Toda Menina Baiana", que, sem traumas, virou "Nina del Guadiana". Suas composições próprias são irresistíveis também, "Limon En La Cabeza" e "Dime Que Te Quea" poderiam tocar em rádios aqui ou mesmo na MTV, certamente chegariam ao topo. Há influências - declaradas pelo próprio - de seus "mestres" como Lou Reed, "Pops" Staple, Chuck Berry, Lamont Dozier, Donny Hathaway, Curtis Mayfield, Bo Diddley... Ele tem a humildade de dividir todos os créditos de criação com seus músicos (são pessoas que vivem em Salvador, Madri e Nova York, então têm muito a contribuir), e diz ainda que seu som é fruto de todos os tipos de viagem, tanto as físicas quanto aquelas em que não se sai do lugar. Num primeiro momento, eu o rotularia de "Jamiroquai latino", mas muito mais voltado para suas raízes e para as do jazz também, com muito groove e swing. Hoje depois de uma centena de audições, digo que ele vai muito além.

Dêem uma chance aos "hermanos".

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