Relâmpago McQueen é um jovem carro de corrida que desponta no circuito americano sem nem mesmo ter uma equipe de técnicos e mecânicos para ajudá-lo. Sua ousadia é tanta que, para vencer a famosa Copa Pistão, ele se arrisca a não trocar seus pneus, não quer perder tempo nos boxes. O pneu fura, mas ainda assim ele chega bem, num tríplice empate com seus dois maiores competidores. McQueen, no entanto, fez tudo sozinho, e mesmo o mais arrogante dos campeões uma hora precisa de amigos. O novo talento das pistas, ignorante da verdadeira felicidade, não os têm, não pode dividir com ninguém os louros da vitória, a esperança de outras, e por isso chora a solidão na penumbra de sua garagem. Não são necessários mais do que cinco minutos para que "Carros" já nos desfie sua primeira lição de moral, e não haveria nenhum mal nisso, não fossem essas lições sempre tão evidentes, e muitas vezes até literais. Se é difícil saber quem veio primeiro, a fábula infantil ou o ensinamento subliminar engrandecedor, que pelo menos este último se mantenha um pouco abaixo da superfície, ali onde possa ser absorvido pelo espectador sem que este, no entanto, tenha que se furtar do espetáculo colorido que acontece logo em cima. Em "Carros" não há como separar estas duas forças narrativas. Para se divertir minimamente com a animação cada vez mais impressionante dos estúdios Pixar, é imprescindível comprar o peixe ideológico que o diretor John Lasseter está vendendo.
É preciso descartar a modernidade por princípio. Tudo hoje em dia está muito rápido, e esse excesso de velocidade da vida nos faz perder o passo dos reais valores humanos (ou mecânicos, já que no mundo deste filme só existem automóveis). É o que aconteceu com Radiator Springs, uma cidade próspera na época em que era ponto de parada da famosa Rota 66, mas que desde a modernização da rodovia tinha sido praticamente riscada do mapa, ficando fora do novo traçado da estrada. Radiator Springs é uma espécie de depositário da América Profunda, e cada um de seus moradores remanescentes encerra os tipos clássicos da formação social do país. Lado a lado moram um jipe militar e uma Kombi hippie, carros (mas na verdade pessoas) que no Vietnã estavam em trincheiras opostas, um pregando a guerra, o outro pregando a paz e o amor. Devidamente encarcerados pelo tempo e pela velhice, esses dois tipos chegam aos anos 2000 apenas como dois motivos de piada pronta. Há também o calhambeque caipira e de coração puro, a Porsche advogada que trocou a vida agitada da metrópole pela calma do interior, o ex-campeão de corrida que se aposentou precocemente e que vive recluso (uma espécie de J.D. Salinger com 16 válvulas). Tudo está lá para emoldurar a constatação de que antigamente, puxa, antigamente era muito melhor.
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Foto: Divulgação
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Essa queda irresistível pelo passado como o mito da pureza de espírito chega às raias da contradição quando é veiculada numa animação que traz o que de mais moderno há na técnica do 3D. "Carros", nessa história toda, é a estrada nova que corta indiferente o território que antes contava com os atalhos antigos da animação tradicional. Mas mesmo em termos de estrada nova (os filmes feitos em computador nos últimos 10 anos), o novo trabalho de Lasseter parece não encontrar lugar. Uma das grandes piadas do filme não diz absolutamente respeito a ele: os pneus dos carros de corrida chamam-se, ao invés do nome similar da fábrica americana, Lightyear, como o Buzz Lightyear, astronauta deslocado de "Toy Story", a obra-prima que este mesmo diretor realizou pioneiramente no meio dos anos 90. E até deste passado recente "Carros" sente uma saudade incontida. Só há mesmo uma explosão de gargalhadas quando o filme reencena trechos clássicos das três grandes animações da Pixar (além de "Toy Story", também "Vida de Inseto" e "Monstros S.A."), jogando-os na tela do drive-in em que nosso herói recuperado McQueen leva a nova namorada Porsche. Nesses poucos segundos em que permite ter seu mundo arcaico invadido pela contemporaneidade, "Carros" mostra o que poderia ter sido se não berrasse, em cada imagem, aquele bordão que todo avô e avó não se cansa de repetir: "porque no meu tempo é que era bom...".
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