Bola leve, jogo pesado




Geraldo Hasse

A Copa do Mundo abriu nossos olhos e ouvidos para algo que freqüentemente escapa à percepção dos torcedores apaixonados, que apreciam a beleza desse jogo e enaltecem os valores éticos implícitos nas disputas esportivas: a cadeia de negócios que gira em torno do futebol é uma das mais complexas e ricas do mundo, daí resultando talvez a sensação de logro a cada final de evento.

Não sei de ninguém que tenha feito o cálculo de sua influência no PIB deste ou daquele país, mas seria capaz de apostar que a cadeia econômica dos esportes equipara-se à do agronegócio, com uma diferença fundamental: enquanto esta atende à necessidade humana de sobrevivência alimentar, aquela corresponde ao anseio mais profundo de lazer. O pão e o circo, quem pesa mais? Eis um desafio para economistas e também para praticantes de outras ciências sociais.

O jogo da bola mobiliza especialmente a infra-estrutura de turismo (transportes, gastronomia, hotelaria, diversas modalidades de entretenimento, serviços bancários e telefônicos), tendo como elo supremo de ligação os meios de comunicação de massa, principalmente a TV, e seus agentes de propaganda e marketing, todos a serviço dos anunciantes e patrocinadores, todos com o taxímetro ligado na bandeira dois.

Nesse jogo as celebridades não estão apenas no gramado, mas nas cabines, nas tribunas, nos estúdios onde são produzidos os anúncios que animam a grande festa. Melhor para todos se no balanço final pintar um novo craque, um ídolo diferenciado, uma jogada genial, mas o espetáculo se consuma mesmo que os deuses-atletas não realizem as performances esperadas ou até frustrem as expectativas geradas pela mídia na alma dos torcedores. O telão nos estádios consola o espectador ao transformá-lo em protagonista fugaz do espetáculo.

Se o tempo se esgotar sem um lance genial, todos voltam à rotina com um episódio novo para comentar ou uma lição adicional para tocar a vida. O craque tem direito de pipocar? Pode o ídolo ser desleal? Teve culpa o goleiro naquele lance decisivo? Falhas individuais tornam-se temas nacionais. O esporte mobiliza sentimentos profundos, é capaz de afetar a auto-estima de um povo, que pode tirar mais lições de uma derrota do que de muitas vitórias.

Sem dúvida, seria muito melhor se o jogo não fosse contaminado por interesses menores. Quem, porém, fala mais alto em campo e nos bastidores? São eles, os mesmos interesses maiores de sempre. Por isso se dá bem nesse jogo quem compreende que a primazia é do negócio. São tantos os fatores envolvidos que o aspecto esportivo pesa tanto quanto uma bola: cada vez menos. Nesse sentido, ao desdenhar do jogo bonito e priorizar o resultado, os técnicos são o protótipo do pragmatismo emergente nos campos de futebol.

Apliquemos esse mesmo raciocínio ao pragmatismo vigente na economia e na política e veremos se temos motivos para otimismo ou pessimismo quanto aos troféus em disputa nas eleições como a de outubro próximo. Jogo duro, torcedores. Vivamos a democracia que temos. Capaz que a esperança não termine aos 45 minutos do segundo tempo.


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