Vitória (ES), edição de fim de semana
 
Pobre em ideologia e programas,
o debate não estimula o eleitorado

'Estamos caminhando para o absolutismo'





Cristina Moura


"O momento da vitória é curto demais para ser a única motivação de um esforço."
(Martina Navratilova)

Nosso entrevistado deste final de semana explica por que o governador Paulo Hartung está sofrendo de "síndrome do rei-momo". Stélio Dias é professor aposentado pela Ufes. Foi professor dos departamentos dos cursos de Administração e Educação, possui mestrado e doutorado na Universidade do Texas, Estados Unidos, e foi secretário de Estado da Educação nos governos Eurico Rezende e José Ignácio Ferreira.

Na política, Stélio exerceu dois mandatos de deputado federal: um pelo PMDB e outro pelo PFL. Nesta entrevista, ele analisa a eleição deste ano como um embate que, do ponto de vista ideológico, não acrescenta nada.
O debate no Estado é pobre, assim como o debate em nível federal. No Estado, o governador Paulo Hartung possui um ponto frágil, atraído pela sua função de poder, que caso se complete por mais quatro anos terá tendências absolutistas.

O principal adversário do governador é o ex-prefeito da Serra Sérgio Vidigal (PDT), que realizou uma elogiada gestão municipal, mas que não teria agregado os problemas em nível estadual ou federal, como a questão da segurança pública. No cenário nacional, também é insosso o debate entre PSDB e PT. Para nosso entrevistado, os dois são "farinha do mesmo saco".

Século Diário: - Como o senhor avalia o panorama das eleições 2006?

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
Stélio Dias: - O cenário para 2006, eu considero um cenário pobre para 2006, politicamente. Não permite grandes renovações, quando a política nacional demanda uma renovação política muito grande. O cenário político não permite um aprofundamento das raízes partidárias. Não permite uma continuação das tradições políticas capixabas, que vão se perder. As alianças que estão sendo conduzidas para isso são alianças baseadas no 'básico' da política, ou seja, a política como ato de conquistar o poder. Então, o único objetivo para isso é a conquista do poder e não a política como 'a arte do bem comum'. Dentro dessa raiz da arte do bem comum, não se vislumbra nenhuma tentativa de aprofundar as ideologias, as convicções, seja de ordem dos problemas partidários, seja de ordem das ideologias puras, como direita e esquerda. Vejo um cenário muito pobre na questão dos conceitos governamentais, quando se pergunta o que eles estão querendo, o que eles querem fazer. Nacionalmente, as pesquisas mostram isso, que Segurança, Educação e Saúde continuam sendo prioridades que foram na época de Getúlio Vargas e continuam sendo até agora. As pessoas não agregam nenhum conceito novo em nível de programas governamentais, administrativos. Então, as alianças são pobres porque não trazem as questões partidárias. São pobres porque não trazem as ideologias partidárias. São pobres porque não trazem nenhum apelo, nenhum conceito novo às demandas da população. Isso, a princípio, digamos, é um conceito um pouco acadêmico. Mas quando você traz esse conceito acadêmico para a necessidade do povo, os conceitos permanecem. Essas figuras permanecem, essas filosofias permanecem. Então, como estava falando sobre cenário político, digo que vejo um cenário muito pobre, que não vai trazer ao Estado, ao Espírito Santo, nenhuma colaboração nova ao que está havendo, atualmente.

- Como o senhor está percebendo o embate entre o ex-prefeito da Serra Sérgio Vidigal (PDT) e o governador do Estado, Paulo Hartung, este com um projeto de reeleição? O primeiro é avaliado como bem-sucedido na gestão municipal, durante oito anos. O segundo está com as chaves da máquina administrativa do Estado.

- Para analisar essas duas figuras, que foram plantadas e continuam no cenário político, em virtude da pobreza política do Estado. Eles não tiveram que fazer muito exercício político para conquistar o que já conquistaram até agora. A bipolarização mostra como é pobre o cenário político. Essa bipolarização se dá sem muito esforço do governador Paulo Hartung e sem muito esforço do opositor, que é Sérgio Vidigal, que é um político que se fez liderança localmente. Ele não tratou de nenhum tema estadual, muito menos nacional para se projetar estadualmente, e se mostrou capaz, como prefeito e o foi, capaz como prefeito, mas não fez esforço para ser conhecido como um político com temas estaduais e temas nacionais. Eu, por exemplo, posso até estar fazendo alguma injustiça, mas nunca vi o tratamento de um assunto, como na Serra, onde é crucial o problema da segurança. Se ele transportasse esse assunto para o plano estadual e para o plano federal... Nunca o ouvi falando sobre esse assunto de maneira sistêmica: por que a segurança da Serra é assim? Foi um problema de construção desordenada, de figuras urbanas mal postas? Foi um problema tratado como segurança, mas não de maneira integracional, com outros assuntos. O que ele fez, o que ele produziu? Em cima dessa segurança, o que ele produziu, a nível estadual, a nível nacional? Nada. Então, o cenário vai continuar pobre porque o governador Paulo Hartung se baseou numa única pilastra, de maneira muito forte, que é a recuperação financeira do Estado.
  
Foto: Ricardo Medeiros
  
Em cima da recuperação financeira, ele agregou a política, agregou pessoas e fez uma coisa que não deveria ter feito: tornar-se, como as pessoas o chamam, 'imperador' da política. Em cima disso, ele construiu os partidos e, como teve muito sucesso nessa recuperação financeira do Estado, não teve ninguém contra ele, que questionasse isso. Ele seria o político perfeito se abrisse todo o Estado para a oposição. Seria uma espécie de rei momo da política, o primeiro e único. Isso é ruim, sob o ponto de vista das convicções, das ideologias, do ponto de vista da própria política. E é ruim para ele também. Seria bom que ele abrisse o leque, permitindo, inclusive, que houvesse oposições muito fortes. Ele crescia muito mais. Ele tem seriedade política. Ele tem. Mas ele tem essa síndrome do rei momo, de primeiro e único, de forma que o torna, não ele, mas a política dele, um pouco frágil. Essa fragilidade vai se dar agora, na eleição. E é um embate com o Sérgio Vidigal, que vai se colocar como um político local, mas vai se dar em cima de uma figura, que eu chamo Max Mauro (PDT), que vai se tornar na figura de oposição a ele, permitindo que as pessoas de oposição se agreguem a ele. Por exemplo: seria ele trazer para o mesmo espectro político os partidos que estão em crise a nível federal, como o PSDB, PSB... e trazer todo mundo para o mesmo embornal, não acrescenta nada à figura política dele. Então, ele vai fazer um segundo mandato e o segundo mandato sempre peca pelo absolutismo político. Ele vai fazer um segundo mandato talvez um pouco melhor do que esse, como abrir seus projetos para além da recuperação financeira. Se ele colocar os grandes investimentos que vão acontecer, ele vai fazer um momento muito bom. Mas não está acrescentando em nada o cenário político, a ser o absoluto na área política. Não acrescenta nada. Não acrescenta nem para ele nem para a política.