Vitória (ES), edição de 17 de julho de 2006    
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Uma questão de responsabilidade
"Caché" e o cineasta como manipulador



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


Fingidor, com certeza: disso já sabíamos desde Fernando Pessoa. O poeta (e aqui, o cineasta) como fonte de uma série de verdades absolutamente mentirosas, cheirando a artifício, com a etiqueta de fabricação estampada no corpo. Mais ainda, a quantos desses fingidores não poderíamos também atribuir a pecha de manipuladores? A todos, oras - ou pelo menos aos bons, que são os fingidores que nos interessam. Não há outra mão na obra de arte que não a do próprio artista, é ele quem dá forma, quem dá direção (do fotógrafo ao músico, do pintor de afrescos ao escritor, são todos um pouco escultores, por esse ponto de vista). Manipula o produto de suas afetividades, e já embute nele o número e o grau de relação pretendida com aqueles que eventualmente tomarão contato com seu filme, seu livro, seu quadro. Com alguma sorte, esse cálculo - porque sim, todo artista é também um calculador - irá extrapolar as intenções iniciais, e tomará um rumo que já independe da vontade do fingidor em provocar esta ou aquela emoção.

  
Foto: Divulgação
  
Com oito longas-metragens na carreira (a metade deles lançados com algum sucesso no Brasil), o alemão Michael Haneke é uma espécie de receptáculo preferencial desses três adjetivos-problema, que vêm sempre na forma de uma acusação. Se em parte são perfeitamente cabíveis ("Funny Games - Violência Gratuita" e "Código Desconhecido"), há que se repensar sua aplicação nos casos recentes de "A Professora de Piano" e, sobretudo, em "Caché", em cartaz atualmente no Cine Metrópolis. Fingidos, manipuladores e calculados sim; mas sendo-o tão completamente que a dor de mentira se transforma em dor de verdade, que a distância segura entre realizador, tema e espectador perigosa e deliciosamente diminui. As regras do jogo de Haneke foram muito claras desde o começo. Seu interesse é a corrosão moral e física de uma certa elite econômica e cultural, muito ocupada entre um concerto de câmara e a decoração da casa de campo para se preocupar com suas próprias idiossincrasias - e é claro que elas, com o tempo, vão se transformando em feridas cada vez mais difíceis de estancar. Flagrar estas pessoas justo no momento da exposição desse esqueleto no armário sempre traz o risco de um certo sadismo, como o psicopata que assiste babando de prazer à morte de uma vítima. Faltava a Haneke cumprir esse caminho que sai do alto da torre de observação e caminha até o palco das tragédias, não necessariamente para compartilhar com seus personagens a experiência de ruir, mas para pelo menos estar ao lado deles quando a queda fosse inevitável. Entregar-se tão inteiramente à sua idéia de mundo a ponto de ser quase impossível distinguir onde começa o filme e onde termina o diretor. "Caché" é tudo isso.

Encontramos na vida de Georges uma tranqüilidade sem sobressaltos, de uma uniformidade tão harmônica que beira a irritação. Essa noção de estabilidade, quando diante de uma ameaça do mundo real - as imagens secretas que o literato recebe em fitas de vídeo - se desmancha em cascata. A horizontalidade de uma trajetória pessoal se vê confrontada com picos e quedas nunca antes denunciadas, e toda a idéia de harmonia é posta à prova. Georges não consegue manter uma relação de confiança com sua esposa Anne, a rebeldia de seu filho Pierrot explode na suspeita de uma traição imaginada, a distância física e emocional da mãe enferma só se amplia, mesmo durante uma visita íntima. No centro do furacão um trauma do passado, fortíssimo, mas já devidamente domado pelo tempo. É também com estabilidade que Haneke trata o manancial de imagens que vêm desse universo em colapso. Os vídeos de vigilância, as memórias que Georges tem da infância, a apresentação de seu programa de tevê, as cenas cotidianas, tudo é tratado de maneira estável, uniforme, sem que suas diferenças sejam acentuadas. Como na vida do protagonista, o que harmoniza estas instâncias diversas (e às vezes até conflitantes entre si) é apenas um artifício muito frágil e facilmente identificável: a expressão sempre fixa e imperturbável de Daniel Auteuil, os planos fixos e imperturbáveis filmados por Haneke, mesmo diante de uma situação grave. Fossem Juliette Binoche e sua Anne as protagonistas dessa história, "Caché" seria outro. Mas como já havia feito ao responder com frieza a frieza de Isabelle Huppert em "A Professora de Piano", Haneke inunda seu novo filme das sensações de seu protagonista - e mal poderíamos distinguir sua autoria, não fossem as disposições opostas de criador e criatura em assumir seus pontos-de-vista.

Quando está discutindo com o filho de seu algoz involuntário, quase no fim do filme, Georges diz ao rapaz que não tem nenhuma responsabilidade sobre o que acontecera a seu pai. Logo em seguida vemos finalmente a cena que é a razão da explosão de "Caché", o pequeno Majid sendo levado da casa dos pais adotivos, os pais do pequeno Georges, toda a recusa do menino em sair de um lar estabelecido para um orfanato. Como nos vídeos de vigilância que tanto aterrorizaram a família do protagonista, esta cena é também vista de longe, num plano fixo, longo, sem cortes. Estamos desde o fundo do matadouro da velha propriedade em que Georges viveu sua infância, o mesmo que havíamos visitado num flashback anterior. Naquele momento, víramos Majid acuar seu irmão de criação com o machado e as manchas de sangue da galinha que acabara de matar. Pequeno, frágil, apavorado, a criança que Georges era se refugia exatamente no mesmo lugar de onde assistiremos a partida dolorosa de Majid. É como se estivéssemos acompanhando todo esse drama pelos olhos de George - e é como se a responsabilidade de todas as imagens dos vídeos de vigilância fossem desses mesmos olhos, é como se o próprio Georges estivesse observando e aterrorizando a si mesmo, durante todo o filme.

É essa a responsabilidade que o protagonista nega na discussão com o filho de Majid. Como na infância, como no momento em que viu concretizada sua vontade de expulsar de casa o menino imigrante, como diante do confronto definitivo com esse trauma do passado, Georges se esconde. Recolhido em seu quarto escuro, fecha as cortinas e tira as roupas sem, no entanto, conseguir tirar do corpo peso nenhum. Diferente dele, Michael Haneke não escapa dessa responsabilidade. Dramas pessoais e dramas da humanidade convivem quase sem se esbarrar: está isso lá no plano estarrecedor em que Georges e Anne discutem sua relação e no fundo da sala a televisão ligada mostra as últimas tragédias do Oriente Médio, os novos ataques terroristas, os carros explodidos na rua. Duas correntes que não se esbarram simplesmente porque uma é a outra, únicas, inseparáveis. Haneke emprestou a câmera para que seu protagonista registrasse os pontos-de-vista de sua história pessoal, mas o que queria mesmo era tirar dali os pontos-de-vista da história do mundo. Manipulador, calculado, fingidor, mas quase como uma necessidade, ou como resposta a uma postura que o diretor descarta por princípio: em "Caché" Michael Haneke nunca está escondido.


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