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Bethânia é perfume



Da Redação


  
Foto: Divulgação
  

Tudo começou no Festival de Montreux, na Suíça, em 1998, quando o documentarista francês Georges Gachot, há 15 anos especialista em filmes sobre música clássica, foi a um show de Maria Bethânia pela primeira vez. A perplexidade diante do que viu, o "choque com a presença dela em cena, sua concentração incrível de emoção, seus pés nus", segundo ele próprio, resultou na vontade imediata de fazer um documentário sobre a cantora.

A imersão do cineasta num universo musical completamente desconhecido para ele, o de Bethânia, e por extensão o brasileiro, desaguou na sensibilidade crua de Maria Bethânia- Música é Perfume.

Decidido a fazer o filme, Gachot gastou cinco anos, de 1998 a 2003, num processo de pesquisa sobre a cantora e toda a história da música brasileira. O olhar estrangeiro e surpreso do cineasta confere ao filme um frescor, livrando-o de quaisquer chavões e ranço de repetição. Talvez o desconhecimento por parte de Gachot da carreira de Bethânia e da música brasileira seja uma explicação para a forma de desenvolvimento da narrativa: ele busca incessantemente a contextualização. Assim, Música é Perfume é, antes de mais nada, uma análise do processo criativo de Bethânia dentro da perspectiva do processo de formação da música popular brasileira. O filme traça um paralelo entre a vida da cantora e as transformações sociais ocorridas no Brasil.

O documentário é todo narrado pela própria Bethânia. Mais do que isso, sua voz nos conduz a uma viagem pelos vários sons e matizes que embalam e colorem o imenso mosaico humano-cultural que compõem a nação. Não à toa, as filmagens ocorrem durante a gravação do disco Que Falta Você me Faz, dedicado à obra de um dos mais brasileiros de nossos poetas, Vinicius de Moraes, e a turnê do show Brasileirinho, em que a cantora lança um olhar apaixonado sobre o Brasil, a partir de referências incondicionais da arte brasileira. Gachot procura representar Bethânia como a voz síntese de um povo que tem a música como alimento e analgésico, como uma forma de redenção para a miséria ancestral que o assola.

Para o diretor, o mais importante era mostrar de onde vinha a música de Bethânia. Por isso, o registro dos ensaios, que ratificam o total domínio que a cantora tem do seu ofício, e a ida a Santo Amaro, cidade natal de Bethânia: - Meu objetivo com o filme era pôr na tela a grandeza da música de Bethânia. Não quis que a história quebrasse a música. Quando as canções me davam a oportunidade, eu contava a história - disse.

Mas essas histórias também preenchem de humanidade a ode a uma estrela da canção. Além da própria Bethânia, que conta curiosidades de família ("Eu e Caetano adorávamos brincar de faquir quando crianças... Eu acho que foi a primeira aula de concentração que nós fizemos."), há outros depoimentos que permeiam todo o filme, como o do irmão Caetano (que sugeriu o nome Maria Bethânia, inspirado na música homônima eternizada por Nelson Gonçalves), da mãe Dona Canô, dos amigos Chico Buarque, Nana Caymmi e Gilberto Gil, e também do fiel maestro Jaime Alem.

O título Música é Perfume vem de uma idéia da própria Bethânia. Para ela, "nada como um cheiro ou uma música para nos fazer sentir, viver, lembrar". A confirmação de suas próprias palavras vem em seguida, ao ouvir sua interpretação de Melodia Sentimental, e se emocionar - a voz mora em mim, mas não sinto como se fosse minha. É uma expressão de Deus, uma fagulha - diz a cantora.

Não a sente como sua, porque pertence também a todos os "brasileirinhos", aquela gente humilde que aparece na abertura do filme catando lixo e vendendo cerveja na praia de Ipanema, com Bethânia falando o texto Pátria Minha, de Vinicius, ao fundo. A voz de Bethânia é isso, é aquela que está presente em cada um de nós, a porção individual de fagulha divina. E, ao mesmo tempo, é expressão humana e síntese de todo um país. Música é Perfume capta a simbiose única entre uma voz e um país, até que não se saiba mais onde termina um e começa o outro.

Nos extras, cenas de Bethânia em estúdio cantando músicas como Gente Humilde, Nature Boy, Lamento no Morro, Eu não existo sem você e A Felicidade. E ainda, depoimentos de Suzana De Moraes, Caetano Veloso, Moogie Canázio, Miúcha e Chico Buarque.

Texto: Sidimir Sanches (Biscoito Fino)


 

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