A dona do pedaço





Rogério Medeiros

Na última coluna, falei do mapamento que a transnacional Aracruz Celulose está fazendo das eleições de outubro, usando o Instituto Futura. Deliberada intenção de intervir na política do Espírito Santo, como já fez nas eleições passadas para o governo, parlamento e prefeituras.

Só que agora ela está mais voraz, levada, evidentemente, pelos frutos que colheu nas duas últimas. Resulta no silêncio da classe política, nas barbáries que pratica para cima das comunidades quilombolas e indígenas e nas regalias fiscais.

No seu embate com as comunidades quilombolas e indígenas, ela chega a contar com uma milícia própria e com setores da própria Polícia Militar. A ponto de jogar num cubículo um grupo de índios na companhia de um cacique, desrespeitando a lei.

Refestela-se em lucros advindos de vários privilégios, entre eles o da Lei Kandir. Todos produzidos pelas mãos dos políticos. Cria novas periferias e deixa para os governos cuidar da mão-de-obra dispensada nos seus períodos de construção de bases industriais, além de formar contigentes de trabalhadores eventuais no interior e na cidade. Os males que criou no Espírito Santo são imensos, sem que haja o necessário combate da classe política. Pelo contrário, os seus políticos costumam dizer que ela é desenvolvimento.

Claro que há exceções, como comentei na coluna passada. Mas são tão poucos que não fazem efeito e muito menos têm repercussão. Neste Espírito Santo, quintal das multinacionais (estão aí para comprovar, junto com a Aracruz, a CST, a Samarco, a propria Companhia Vale do Rio Doce), é odioso o despedaçamento que a Aracruz promove em cima da identidade cultural e social do Estado.

Para que esses privilégios permaneçam é necessário manter vínculos estreitos com a classe política. Quando me refiro à classe política, é lógico que estou me referindo àquela que ocupa cargos de governo e no parlamento. A Justiça Eleitoral deve colocar um freio na intromissão da Aracruz nas eleições. Não só por ser indevida, como também por já configurar em crime eleitoral. Mas tenho cá minhas dúvidas de que isso venha a ocorrer. Até por falta de clima junto aos governos e às elites capixabas. A cada eleição que presencio com ela dentro, mais me conveço de que ela diminui a distância para virar proprietária do Espírito Santo.

Fragmentos
1- Candidatos à Câmara dos Deputados dos blocos governistas estão de olho na campanha aberta que o secretário de Transportes do governo, o senador Gerson Camata (PMDB), faz em favor da sua mulher, Rita Camata.

2 - Alguns até acham que ele foi para a Secretaria para tal fim. Trocar o Senado por uma secretaria não é habito de senador. Ou melhor, não é lugar de senador. Não há exemplos desse tipo pelo Brasil afora e muito menos foram registrados no Espírito Santo.

3 - E o senador Gerson Camata, ao longo de seus mandatos (já está no terceiro), jamais congitou de tal. Ele vai para uma secretaria numa hora em que eleição para a Câmara dos Deputados ficou dificílima. A missão dele não é só a de salvar a eleição da mulher, mas de torná-la a mais votada, aproveitando-se da saída da disputa do ex-secretário de Agricultura Ricardo Ferraço.