Veio a lume esta semana, em edição do Centro de Ensino Superior de Vitória (Cesv), um livro que condensa versos do que de mais brilhante e mais feminino há na literatura capixaba contemporânea.
Salmos de inquietação e eclosão do ser, de Ester Abreu Vieira de Oliveira (já nas melhores livrarias de Vitória), é também um passeio em verso, e reverso, que conduz o leitor por um mar de amar, por um mar de indagar, de filosofar, de espreitar, de se encantar, e de mar, mesmo, marzão com suas profundezas inescrutáveis, com sua força e sua formosura, seus mistérios e seus encantos, suas oscilações e, sobretudo, sua beleza.
Vivêssemos num país minimante culto e falar da obra de Ester seria chover no molhado. A dúvida maior ficaria, como na referência de Stanislaw Ponte Preta a Vinicius de Moraes ("se um só fosses serias Vinício de Moral"), no definir-se em qual das muitas "Esteres" deveria centrar-se o foco do comentário: na Ester escritora,
lato sensu, na Ester professora, na Ester pensadora, na Ester acadêmica, na Ester Professora Pós-Doutora, na Ester intelectual publicada em várias línguas e em vários países, na Ester de Muqui ou na Ester cosmopolita cujo talento, um dia, sem caber em milhas nem ilhas, decolou na vida e pousou no mundão de Deus, asas abertas, dono de si e de poesia?
Mas estamos no Brasil, esta Pindorama, esta Belíndia, este País da Cobra Grande, nestes tristes trópicos que ainda põem tantos de seus deserdados filhos a errar, cegos, pelos continentes, no dizer buarquiano, quando não se debatem nas garras da falta de conteúdos, da pouca leitura, dos parcos estudos. Então há que falar de Ester como quem falasse de uma novidade que ela já não é faz muito, muito tempo. Quem é do ramo já o sabe, embora isso seja tão pouco pra tanta poesia.
Salmos de inquietação e eclosão do ser é um livro essencialmente feito para mulheres e para todas as pessoas. Como diziam os antigos leiloeiros das quermesses de mês de Maria, "afronta eu faço..." que você mergulha nele e não o deixa antes do final, ao emergir das ondas de tanto mar e de tanta imagem e tanto som. Nossas angústias todas ali estão, sem faltar umazinha só; nossos medos, nossos desencantos, nossos encontros e desencontros, também.
Mas, feita uma atenta garimpagem em meio a tanto ouro, o que restará no fundo da bateia do garimpeiro, ao fim e ao cabo, será um possante libelo de fé, uma espécie de manifesto ou vade mecum da fé. A poesia da Ester é casa construída sobre rocha, sobre reflexões de mulher sábia, de poeta nascida de vivências permeadas de fortes dores que jamais lograram, contudo, esmaecer os prismas multicoloridos de sua inteira alegria. E é também casa erguida sobre o profundo conhecimento dessa intelectual brasileira que o Espírito Santo tem a graça de ter como filha e que à gente muquiense há de encher de orgulhosa ternura o coração.
A sabedoria desses conhecimentos de Ester poderia estar em
Salmos; em
Provérbios; no
Eclesiastes, porque sua poesia parece descender de Salomão, logo, da Casa de Davi. Não estranha, então, que Ester maneje sua lira com a elegância de quem abana um leque de seda rendado, em dia de calor.
Também poderiam, os seus versos, sentarem-se à vontade, no deserto, à beira-rio ou na montanha, à sombra dum Tagore ou dum Gibran, porque são igualmente universais, como universal é todo conhecimento que brota do Um e se reflete nas belas imagens e nas sábias reflexões que só os grandes poetas de todo o mundo são capazes de captar e de decodificar, pelo processo que Hermeto Paschoal tão bem classificou de LDD (Ligação Direta com o Divino).
Ester, você não me engana: esse seu novo livro é um sorriso.
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