A cidade me dá as boas vindas vestida de verde e amarelo, como se ainda... Me sinto em casa, feliz de ver tantas bandeirinhas flutuando no ar, sonhando com a possibilidade delas estarem ali, não por causa de uma competição esportiva, mas porque somos um país rico e feliz.
A seleção italiana chega a Roma aclamada com todas as honras. A França caiu e, simbolicamente, seu grande astro caiu com ela. Vivemos um mundo de violências, e tudo que não queremos é sentar em frente da televisão num domingo de sol, querendo assistir a uma partida de futebol que tem tudo para se tornar histórica, e ver um dos jogadores mais bem pagos do mundo se comportando como um selvagem.
Mas a violência talvez se torne o símbolo desse século que mal se inicia, e que portanto tem muito a nos mostrar ainda. Duas pessoas discutem por causa de uma exígua vaga de estacionamento em um shopping sofisticado. Depois de muito elogiarem as mães recíprocas, em altos brados, acabam chegando às chamadas vias de fato, e os seguranças correm para separá-los, antes que.
Brigas de trânsito não são novidades, claro. Mas no caso que assisto são dois senhores idosos, bem vestidos, proprietários de carros caros. Indícios inequívocos do que chamamos de gente civilizada. No entanto, se os seguranças não agissem depressa, não sei se sairiam vivos dessa contenda nada civilizada.
Em outro local, do outro lado da cidade, duas mulheres descem dos ônibus que despejam trabalhadores como um rio caudaloso. São simples e mal vestidas, e quando se vêm jogam no chão as sacolas de supermercado onde carregam o necessário para o trabalho diário, e partem para a luta.
O motivo da briga não ficou esclarecido, mas também não é difícil imaginar seu motivo fútil. As pessoas descendo apressadas dos ônibus acham tempo para parar e "aplaudir" as contentoras, que na arena da calçada põem para fora suas frustrações e traumas. Ninguém pensa em separá-las, e punhados de longos cabelos voam nos ares, acompanhados de chutes e unhadas.
Os dois acontecimentos, ocorrendo em lugares tão diferentes entre pessoas de níveis sociais tão contrastantes, nos mostram - como a cabeçada de Zidane - que nós não evoluímos muito desde o tempo das cavernas, quando as questões cotidianas eram resolvidas a golpe de tacape, ou dos tempos de Capone, quando a lei da bala prevalecia.
O mundo vai por aí, comemorando séculos e milênios, e somos incapazes de mudar seu rumo inexorável. E parecemos também incapazes de mudar nossos rumos, criar uma vida melhor e mais digna, nivelando diferenças com amor e tolerância. Por alguns dias, vestimos as cores dos nossos países e parecia que poderíamos fazer da festa do futebol a festa da fraternidade. Mas aí o Zidane...
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