Vitória (ES), edição de 17 de julho de 2006
 
Ministério da Justiça garante portaria
aos índios, mas não convence quanto aos prazos

Flávia Bernardes


Faltando pouco mais de 60 dias para o fim do prazo para a definição do parecer do Ministério da Justiça sobre as terras indígenas no Estado, a representante da área jurídica do órgão, Cristiane Calderon, garantiu que a portaria será assinada, mas lembrou que os 30 dias para análise e criação da portaria podem ser insuficientes.

A notícia deixou os índios preocupados. Segundo o cacique da aldeia Tupinikim Caieras Velha, Jaguareté, que esteve em Brasília na última semana junto com outras lideranças indígenas capixabas, a preocupação do Ministério da Justiça é agir com pressa e deixar falhas na portaria que permitam a sua contestação. Mas isso, para ele, não tira a importância de não atrasar os prazos para que o processo não seja prejudicado pelo período eleitoral.

"Ele nos disse que a portaria tem que ter boa fundamentação e por isso será tudo feito nos prazos, sem diminuir nenhum dia. Mas também não nos garantiu que faria tudo nos 30 dias combinados anteriormente. Pra nós, isso já está demorando a acontecer, não estamos satisfeitos em assistir estes prazos crescendo e entrando em período eleitoral", ressaltou o cacique.

Os índios devem se reunir na noite desta segunda-feira (17) para discutir as colocações feitas pela Funai e pelo Ministério da Justiça, em Brasília. Para os
Índios, os dois órgãos estão alongando os prazos.

A última promessa, envolvendo prazos, feita aos índios partiu da Advocacia Geral da União (AGU), no Ministério da Justiça, em outubro de 2005, também aumentou o prazo para a demarcação das terras indígenas de 60 para 120 dias. Na época a AGU afirmou que o prazo serviria para fazer uma complementação do estudo que lista os bens da Aracruz Celulose dentro das terras indígenas.
Sem este procedimento, o processo poderia se fragilizar e dar margem a recursos judiciais no futuro. No próximo dia 27 completam nove meses da afirmação da AGU e as terras indígenas ainda não foram demarcadas.

Outras promessas de cumprimentos de prazos, demarcação de terras, entre outros também já foram feitos aos índios. Eles contam, que sempre houve a promessa de devolver a terra aos índios, mas na prática, tudo não passa de política.

A comunidade está apreensiva e com medo de que mais uma vez os indígenas sejam enganados. O temor dos índios é em relação ao poder da multinacional, mas lembram que a promessa sobre o cumprimento dos prazos, feita pelo ministro da Justiça veio agregada à palavra do presidente Luís Inácio Lula da Silva, como afirmou o próprio ministro em sua visita ao Estado, em janeiro último.

Na pior das hipóteses, os índios esperam que até o dia 15 de setembro seja publicado o edital que abrirá a licitação para a demarcação das terras. A licitação vai durar em média dois meses. Depois, o documento de todo o processo volta para a Funai, que envia para o Ministério da Justiça, para que finalmente seja assinada a homologação que devolve os 11.009 hectares de terras indígenas.



Leia mais:
  • A luta dos índios por suas terras

  •