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Foto: Rodrigo Melo
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Um deles toca pandeiro. O outro, chocalho ou maracá. Entre uma embolada e outra, explorando o que há de mais rico na tradição oral, eles bradam: "Aleluia!" ou "Aleluia, irmão!" Aparentemente, a fé estava ali, num êxtase que parecia um contato sobrenatural, com algo divino. Um vendedor de pipoca parou também para espiar, curioso, à espera de uma mensagem.
Cheguei perto para ouvir as rimas certeiras e afiadas dos dois emboladores. O pandeirista sorriu, ao tempo em que soprava uma pequena oração, com o fundo musical do chocalho, desta vez bem mansinho, quase silencioso. Do outro lado da rua, mais precisamente na praça, ouvi os gritos de outro fiel, não sei de que igreja.
Mas, de acordo com a sua pregação, assim como a música dos emboladores, falava ardentemente em Jesus, o salvador, o rei, o mestre, o caminho, dentre outras denominações, apreciadas também por Etevaldo, o picolezeiro, que alertou para o cadarço desamarrado do meu tênis do pé esquerdo. Agradeci. Ele sorriu e disse: "Aleluia, irmã, meu nome é Etevaldo. O picolé custa cinqüenta centavos." Agradeci e disse meu nome também. Ficamos quites, menos na minha resposta ao "Aleluia" dele.
Fiquei tão impressionada com as pregações do pastor que aceitei ficar sentada num dos bancos, por volta das 13 horas de uma segunda-feira. Uma senhora, vestida de amarelo, com uma miçanga na gola e um coque sutil nos seus cabelos grisalhos, olhou para mim e sorriu. Por mais incrível que possa parecer, ela também disse algo num tom semelhante ao do vendedor de picolé: "Aleluia, irmã, meu nome é Irene. O culto na nossa igreja é todo sábado e começa às dezesseis horas."
Eu sorri e agradeci. Continuei olhando aquele senhor moreno, esguio, vestindo uma terno escuro e portando sua mais preciosa arma cristã, a Bíblia. Houve um convite para que todos ficassem de pé. E eu fiquei também, embora não quisesse mais ouvir as pregações, naquele ritmo quase que estridente e insistente. Nesse intervalo de pensamentos, o pastor já havia citado três salmos, incluindo trechos de cada um deles.
Percebi a capacidade teatral que ele tinha para falar, decorar um texto bíblico longo (às vezes complexo), além de gesticular e convencer. Fui entrando no clima da pregação da hora do almoço. Estaria eu hipnotizada? Não sei, mas quando ele começou a falar no Gênesis, fiz uma longa viagem tão relaxante, tão serena, a ponto de chegar em casa e arrumar velhos papéis na estante.
Não parece tão fora do lugar o que acabei de dizer. É que o Gênesis do Antigo Testamento parece uma reorganização do que estava previsto ou proposto no plano divino. Alguns estudiosos e religiosos chamam o plano de astral, chamado pelo pastor da praça, por exemplo, de céu ou "morada do Senhor".
Se o pastor quisesse se referir ao oposto a tal morada, dizia que "o outro", "o coisa-ruim", estava azucrinando a vida de quem queria ir para o céu após uma vida de retidão. Vida que seria traduzida por conceitos de moral e ética bem sedimentados, lembrando-nos a poética de disciplinar o indivíduo, sob o olhar de um pensador como Santo Agostinho, por exemplo.
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Foto: Rodrigo Melo
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Um carro de som, anunciando uma festa, atrapalhou a pregação. Uma hora, eu ouvia "ela dança, eu danço, ela dança, eu danço...". Noutra, vinha um fortíssimo alerta do pastor: "Os pecadores que não quiserem ficar junto a Deus vão trabalhar para o outro, no fogo do inferno!" O carro de som passou, dobrou a esquina, o som funkeiro sumiu.
Fiquei com o finalzinho da pregação, aliás, daquele tópico da pregação, que havia começado às 12h30, e ia durar enquanto pastores estivessem ao redor para pregar. Esse negócio de ele falar "o outro" me fez lembrar Riobaldo, em "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa. Esse "outro" era sempre o medo relatado pelo jagunço. Medo que variava em pulsações de realidade ou fantasia, no meio de tanta dor de saudade, no furor das emboscadas ou naquele assustador silêncio da mata fechada.
Enquanto eu lembrava rapidamente do personagem pintado por Rosa, o pastor pintava o seu momento de eloquência na oratória. Por volta das 13h30, uma nuvem escurece aquele início de tarde. O pastor começa a provocar o público: "Vocês querem ser infelizes?" Uns vinte participantes gritam, claro, que "não". E depois o pastor, já suado e cansado de gritar, lança mais uma: "Querem queimar nas labaredas do inferno, onde só tem o que não presta?". O público continua negando.
De repente, um deles bem afastado, um senhor de careca reluzente e um olhar de quase 70 anos bem cansados, solta: "Aleluia!" E mais um punhado de gritos, de todos os gritos, de carros de som, cachorros latindo, meninos pedindo um trocado, cambistas dizendo que o jogo vai correr às 14h30, as promoções do supermercado, os espetáculos no teatro, o cheiro de fritura: tudo entrava numa sintonia.
Parecia que eu não ouvia mais nada, de tanto me concentrar num silêncio imaginário. Era tontura mesclada a sono e necessidade de cafeína no sistema circulatório. Surgiu uma dor de cabeça, mas, de qualquer forma, o exercício deu certo: fui ficando com sono, bocejando. Sabia que tinha que ir embora, mesmo querendo saber o final da pregação. Meu cansaço me venceu, mas tive a sensação de dever cumprido. Afinal, quero ir para o céu.
Ao sair, Irene acena: "Vai com Deus." Eu aceno também, intimamente desejando o mesmo para ela, uma fiel com a cara doce de uma tia-avó. Nessa hora, chegou um menino me pedindo um trocado. Eu não tinha. Pedi que ele ouvisse o pastor por um minuto, que valia mais do que o trocado. Ele riu e disse, com um olhar malicioso: "Isso é o maior doido." Se eu tivesse mais coragem, teria perguntado ao menino o que é ser doido. Juro que eu tive essa vontade. Talvez eu o encontre, um dia, nesse tão almejado céu. Vai depender do nosso comportamento por aqui.
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