Vida de Imigrante - Cachorro também tem alma




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


Depois que algum fanático teve a idéia de nomear o cachorro o melhor amigo do homem, a condição social desses animais domésticos só tem escalado, em muitos casos com mais regalias que a maioria dos humanos. Nos Estados Unidos, maltratar cachorro pode dar cadeia, mas os exageros no trato com esses animais não obedece a fronteiras, e acontece em qualquer lugar.

Temos que respeitar quem os adota e deles nem pensa em se afastar, mas não gostar deles também é um direito que nos assiste. E não adianta culpá-los porque tem muitas crianças que não usufruem a vida boa de muitos cãezinhos de madame. As desigualdades sociais não vão deixar de existir se eliminamos os cachorros.

Os noticiários insistem em nos mostrar situações absurdas, surrealistas mesmo. Festas de aniversário e de casamento de cachorros de alto luxo, com gastos exorbitantes, enterros requintados (e lacrimosos), milionários que deixam suas fortunas para seus cachorros, e muitas outras histórias horripilantes.

Como o assunto dessa coluna deveria ser imigrantes, e não cachorros, conto o drama de Nena, que tem um cachorro de adoração chamado Capitão Nemo, para o qual vive e respira. O problema é que Nena quer visitar o Brasil, mas não tem com quem deixar o cãozinho. Apelos e chantagens com os amigos e parentes de nada têm adiantado, mesmo porque o cachorro da Nena é um chato.

Ninguém quer ficar com o Capitão durante os 30 dias de sua viagem. Levá-lo também está fora de cogitações, primeiro porque o preço do transporte fica mais caro do que a passagem de Nena. Mas principalmente porque Nemo não se dá bem em viagens de avião. Quer dizer, ao cachorro dão uma injeção para dormir, mas Nena não aceita esse tratamento, que considera desumano. Descanino seria uma expressão mais adequada.

Todos os anos Nena enfrenta esse drama. As férias chegam e se evaporam e ela não acha uma solução para o problema de Nemo, o Capitão. Pagar um hotel de cachorro também não lhe parece uma boa opção, pois seu cãozinho receberia apenas um frio tratamento profissional. Nemo se sentiria abandonado, desenvolvendo traumas e complexos talvez para toda a vida.

É nesse clima de desespero que um novo morador chega ao prédio, se encanta com Nemo, e por causa dele faz amizade com Nena. Rui é gentil, educado, e muito carinhoso com Nemo. Com as férias se aproximando, Nena resolve lhe fazer a proposta indecorosa. Poderia ficar com Nemo por 30 dias? Faço questão de pagar. Claro, mas por que iria cobrar por uma coisa que só me daria prazer?

Tudo pronto e resolvido, passagem comprada, Nena chama o táxi e ruma para o aeroporto, malas cheias de presentes para a família que não vê há muitos anos. No aeroporto, porém, toma a grande decisão e volta correndo para casa. A família pode esperar mais um ano, não vão deixar de ser parentes. O Rui, porém, talvez não esteja ali para sempre. Não pode perder a chance de conquistar um rapaz gentil, educado e muito carinhoso com Nemo.