Vitória (ES), edição de 21 de julho de 2006

Cuidado: cursos de auto-ajuda
preocupam Procon e especialistas



Anderson Cacilhas
Foto capa: Divulgação


"Você está cansado da sua vida? Aprenda a ser um líder". Quem ainda não leu ou ouviu uma frase assim em material de propaganda? É preciso ter cuidado, alerta o Procon. É que proliferam na Grande Vitória diversos cursos instantâneos com apelos à auto-ajuda, prometendo auto-estima e avanços no trabalho e na vida pessoal. Todas estas promessas multiplicam as reclamações no Procon.

E não preocupam apenas o Procon, mas também especialistas, que vêm neles a exploração de fragilidades pessoais. Só este ano 56 pessoas reclamaram no Procon Estadual destes cursos. O número de insatisfeitos pode ser ainda maior, já que o órgão de defesa do consumidor informou que muitos não o procuram pela vergonha de terem sido passados para trás.

Os preços desses cursos não são nenhuma pechincha. Dois dias de curso (cerca de oito horas) podem custar de R$ 160,00 a R$ 300,00. Os atendentes que lidam com o público são bem treinados e argumentam sobre os benefícios que o curso pode trazer para a pessoa interessada.

Os apelos são muitos e direcionados a diversos segmentos, como pequenos empresários, estudantes, trabalhadores com ambição de crescimento na empresa e pessoas desestimuladas e com a auto-estima em baixa. "Aprenda a planejar sua empresa", "Faça negócios de sucesso", "Aprenda a aprender", "Aprenda a investir na bolsa de valores" e até mesmo "Como ler 50 livros em um ano sem esforço": eis alguns dos apelos dos cursos. Os temas são diversos e vão desde a memorização e formação de líderes até à neurolingüística.

O professor do Departamento de Administração da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Rogério Antonio Monteiro disse ter "um pé atrás" com relação a cursos no estilo auto-ajuda. "Muitos desses cursos se aproveitam de um momento de fragilidade e dificuldade pessoal e a pessoa acaba se escorando naquilo. Quem está dando o curso não precisa daquilo e acaba se aproveitando". Ele ainda completa: "Muitos profissionais de educação têm mentalidade de dono de supermercado".

Isso porque esses cursos são vendidos como se fossem produtos em prateleiras. O professor, que também é doutor em Comunicação e Semiótica, aconselha as pessoas a terem muito cuidado na hora de contratar esses cursos. Ele alerta até mesmo para cursos de especialização de pós-graduação e as próprias graduações, já que no Estado existem 60 faculdades de Administração, segundo ele, com "qualidade comprometedora". É preciso averiguar a credibilidade da instituição e do corpo docente.

Entretanto, o professor pondera que muitos cursos de rápida duração são eficazes, principalmente quando estão voltados para um assunto específico, de responsabilidade fiscal, por exemplo.

A orientação do Procon é semelhante. As pessoas podem procurar o órgão para averiguação da idoneidade da instituição, já que eles têm acesso a um cadastro nacional que poderá até mostrar quantas e quais reclamações existem contra aquela empresa. Todas as promessas feitas por estas empresas em suas propagandas podem configurar publicidade enganosa, caso o curso não surta o efeito prometido.

O Procon esclareceu ainda que ao se matricular em um curso do gênero a pessoa está firmando um contrato com a empresa. É preciso ler com atenção as cláusulas antes de assinar e exigir uma via do documento. As pessoas devem reclamar, caso se sintam lesadas ou enganadas por um deles, e podem se informar pelos telefones 3381-6230 ou 3381-6222.