Vitória (ES), edição de fim de semana
 
É preciso que a riqueza extraída do Estado
fique aqui para atender aos mais pobres

'Crescimento sem distribuição
de renda gera injustiça social'





Cristina Moura


"É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito."
(Albert Einstein)

Nosso entrevistado desta semana começou sua militância com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) de Santa Rita, distrito de Timbuí. Isaías Santana, nascido no Rio de Janeiro, chegou ao Espírito Santo na década de 1950, um cenário que o acolheria para a luta em favor das camadas mais desfavorecidas da população.

Em seguida, veio o envolvimento em grupos como a Pastoral Operária, o Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil, a participação na fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Partido dos Trabalhadores (PT), além do apoio a negros, índios, homossexuais, idosos, entre outras minorias.

Este ano, pela primeira vez, ele se candidata a um mandato eletivo pelo PT, pleiteando uma vaga na Assembléia Legislativa, setor que, aos seus olhos, não teria avançado tanto. Outros segmentos que o entrevistado destaca são o Executivo e o Judiciário, que não teriam agido em função de novas políticas de segurança pública.

Atualmente, o militante político, em virtude da sua candidatura, licenciou-se da presidência do Conselho Estadual de Direitos Humanos. Mas, dentro desse tema de preocupação com o social, ele situa o Estado do Espírito Santo, provocando no leitor um questionamento sobre o futuro, pelo menos os próximos cem anos.

Século Diário: - Como o senhor interpreta o panorama político do Estado para as eleições deste ano?

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
Isaías Santana: - Bem, do ponto de vista do Estado do Espírito Santo, o que se coloca, o que se projetou nos últimos quatro anos com a eleição do atual governador, podemos considerar que houve uma recuperação da imagem do Estado, tendo em vista que o Estado sofria de uma ausência de lideranças políticas, ou seja, ausência de credibilidade política, tendo em vista uma cultura de corrupção que se instalou nas diversas instituições do Estado e de uma ação muito controladora do crime organizado, que envolvia não só as agências do Estado, mas também segmentos do setor empresarial. Toda essa situação vivenciada nos últimos anos, de certa forma, encaminhou um panorama diferente. Mas, por outro lado, isso não vem se confirmando porque temos uma situação no Espírito Santo que começou no governo Albuíno Azeredo, que recebeu, de certa forma, uma administração realizada por Max Mauro, e pelo menos combateu o crime organizado e saneou as finanças do Estado. Desde o governo Albuíno, vimos a tendência de o Espírito Santo ser um Estado promissor. Albuíno tentou impor o seu governo por dois anos e, nos dois últimos, rendeu-se à ação do crime organizado. A mesma situação foi na época do governo Vítor Buaiz, que também tentou implementar um governo democrático e popular mas acabou sendo atingido, de certa forma, pela ação desses grupos. Essa questão aflorou logo no primeiro ano de governo. Foi toda aquela situação que vivenciamos à época e que chegou quase a termos uma intervenção federal. Essa imagem foi, de certa forma, recuperada com o atual governo, mas que, agora, já no quarto ano de governo, essas forças voltaram a surgir, tanto é que estamos vendo a situação do Estado do Espírito Santo. Dá para se ver, nessa conjuntura hoje, que o governo, mesmo tendo recuperado essa imagem, é um governo que hoje está preocupado com a macro-economia, o seja, com a questão do mármore e do granito, a questão da chamada era ou avalanche do petróleo e a questão do desenvolvimento da celulose e a questão portuária. Não se conseguiu ter um governo que cuidasse das políticas sociais e que pudesse alcançar os segmentos da sociedade mais fragilizados, Mesmo com o desenvolvimento da média e pequena agricultura, da pequena e média empresa, atender à sociedade na questão dos movimentos reinvindicatórios na questão da terra... Os diversos segmentos, os indígenas, que têm uma luta histórica pela terra, os pequenos agricultores, o próprio Movimento dos Sem-terra.... Então, não houve uma preocupação com a agricultura familiar. O Estado hoje está reconhecido como um Estado promissor, um dos que mais crescem na região Sul e Sudeste. O Estado comporta essa visão na região Sudeste, mas com uma demanda social muito forte. Daí a minha preocupação com a questão dos grandes projetos que estão se instalando no Estado, principalmente esses projetos que não deixam a riqueza aqui. Esse governo não fez uma política de distribuição de renda. Apenas os projetos que têm distribuição de renda são os advindos do governo federal, que eu acho que é o grande responsável por essa nova imagem do Espírito Santo, tendo em vista que a própria situação da folha de pagamento dos servidores públicos foi paga com recursos federais. Isso colocou o Estado numa boa imagem perante o funcionalismo público capixaba e também diante da população, mas não houve uma política de recuperação do salário dos servidores e de políticas sociais estruturantes. Isso preocupa, como a questão do mármore e do granito, que são produtos de exportação, a celulose é produto de exportação, a própria Petrobras é uma empresa que cria elites nos municípios, mas essa renda não fica para o povo dos municípios. São rendas distribuídas em nível de projetos sociais, mas os produtores não estão incorporados na linha de produção e não ficam com os produtos nos municípios. Essa preocupação é do ponto de vista econômico e social.

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
- O senhor está ligado, há alguns anos, aos movimentos sociais, sobretudo ao movimento quilombola. Diante de toda essa problemática traçada na sua fala, como podemos entender o porquê de o movimento, assim como outros segmentos sociais, lançar seu nome para deputado estadual pelo PT (e outros partidos da coligação) Os atuais deputados estaduais não absorvem essa demanda?

- Veja bem, a minha candidatura foi forjada dentro do movimento negro, nas várias dimensões, tanto do movimento negro urbano quanto do movimento negro rural, nas diversas regiões do Estado. Também do movimento dos quilombolas, que é um movimento reinvindicatório, sobretudo o movimento dos negros no meio rural, e de um movimento social, principalmente daqueles mais fragilizados. Dentro do movimento negro há um apoio quase que maciço, também em segmentos de religiões de matrizes africanas, que são as pessoas que praticam e preservam essa cultura religiosa, os terreiros de candomblé e umbanda. Mas também tem outro movimento social, como os movimentos que lutam pela terra, como o indígena, o movimento dos pequenos agricultores, dos sem-terra, os sem-moradia, os movimentos homossexuais... Também temos afinidade com o pessoal da economia informal, os camelôs, os vendedores ambulantes, o movimento de mulheres, as entidades dos direitos humanos, de uma forma geral. Então, a minha candidatura é forjada no movimento negro, que é originário do movimento social, e com a militância do movimento negro nos direitos humanos. Por quê? Nós sentimos ausência no espaço legislativo de uma representação legítima. Tínhamos a idéia de que, com toda a luta da sociedade capixaba, que deu origem ao fórum permanente contra a violência e a impunidade, o Fórum Reage Espírito Santo. Nós tínhamos conseguido implementar o controle social na Assembléia Legislativa, mas isso não foi possível, tanto é que muitos daqueles candidatos hoje estão exercendo seus mandatos garantidos simplesmente pela ação judicial, mas não legitimados pela população. Por outro lado, podemos ver no quadro político que não houve mudança dos candidatos. Com toda essa movimentação social, esperávamos novas pessoas que se colocassem na condição de candidatos. Percebemos que a maioria dos candidatos está tentando reeleição, por três ou quatro vezes, são vereadores que já são mandatários nos seus municípios, são prefeitos que perderam as eleições e muitos deles, inclusive, já passaram pela Assembléia. Então, os partidos políticos, de uma maneira geral, não se preocuparam com a renovação. A minha candidatura vem, de certa forma, preencher ou colocar o anseio dos movimentos sociais capixabas com essa representação. É interessante porque, apesar de estar saindo candidato pelo Partido dos Trabalhadores, numa coligação com diversos outros partidos, minha candidatura extrapola os partidos políticos. Tem gente de vários partidos, de várias igrejas pentecostais, igrejas evangélicas, igreja católica, o pessoal ligado a religiões de matrizes africanas. Então, é uma candidatura que é a cara do povo...