O jovem Walt Berkman decide apresentar no concerto da escola uma música do Pink Floyd, com apenas algumas alterações na letra, dizendo ter sido ele mesmo o autor - seus pais são lidos demais para perceberem o plágio de uma banda que naquele 1986 em que se passa "A Lula e a Baleia" já era uma espécie de peça recém-entrada no museu do rock progressivo. A música é "Hey You", do clássico disco-do-muro. De um álbum cheio de petardos anti-conformismo, aquela canção que apela mais diretamente para uma consciência íntima, particular, que não passe tanto pela revolta coletiva, gritada pelas guitarras e pela bateria em marcha militar. Cheia de chamamentos àqueles que estão à sua volta, "Hey You", já certa da transformação que está por vir, avisa que é melhor abrirmos o coração porque ela está voltando para casa. O filme de Baumbach segue à risca aquilo que diz a letra de Roger Waters, não esconde em nenhum momento que está ali para abrir seu próprio coração, e no caminho levar Walt consigo.
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Foto: Divulgação
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Os lados estão bem divididos desde o começo: de um lado a mãe Joan e Frank, o filho mais novo, os filisteus, que não gostam tanto assim de livros ou filmes interessantes; uma definição de Bernard, o pai, que está do outro lado da quadra de tênis com o filho mais velho Walt, esses dois sim leitores de Kafka e fãs de Jean Eustache e seu "La Maman et la Putain" (que só cinéfilos devotos podem conhecer). Cruzar a rede no centro da arena significa deixar de lado certos preceitos que acabam conformando muito definidamente as personalidades de cada um dos jogadores desta partida que é a toda a idéia que "A Lula e a Baleia" tem de si mesmo. Não mais as construções milimetricamente determinadas que fazem de cada pessoa na tela uma fôrma cheia até a boca de conceitos tão inteligentes e espertos, personagens capazes de estar no mundo sem se deixar influenciar por ele, agentes de sua própria história ao mesmo tempo que narradores oniscientes dela mesma, num distanciamento bretchiano torto, que tem pouco de Bretch e muito de distanciamento, puro e simples. Daí a necessidade da câmera de Noah Baumbach estar sempre correndo ao redor dos quatro membros da família Berkman: este momento de suas vidas que está virando filme é o momento em que, depois de um jogo extenuante e sem vencedores, todos tomam um tempo para recuperar o fôlego, e à câmera não resta outra alternativa que não respirar junto. "A Lula e a Baleia" tem, em cada imagem, uma vontade irresistível de ar.
Porque aos filisteus não escapam somente os grandes clássicos do cinema e da literatura (apesar disso nem ser realmente verdade para Joan e Frank). Escapa também essa impressão tão cheia de si mesmo que contamina Walt e Bernard. Livres da obrigação de ser o palco tragicômico de um espetáculo oco, mãe e filho caçula se jogam com todas as forças e sem a menor vergonha na tentativa de alguma ligação com o mundo e com as pessoas que não passe pelas considerações profundas sobre a natureza humana ou pelo sarcasmo no canto dos lábios sempre pronto a ridicularizar o que parece menor. Joan se perde entre os amantes, troca e combina parceiros quase como uma adolescente, mas há nessa sua trajetória atabalhoada uma sinceridade de propósitos que abdica até mesmo de alguma explicação: Joan está ali, olhos mareados de Laura Linney como prova, apenas errando e seguindo em frente. Frank - mas na verdade Owen Kline, a grande interpretação do filme - bebe cerveja em rituais estranhos onde conversa consigo mesmo nu diante do espelho, espalha sêmen pela escola, chora quando acha que deve, xinga com a maior eloqüência, e há nele a certeza de que é impossível se separar da terra, daquilo que nos aproxima das experiências mundanas, que nos redimensiona como sim, personagens de um filme e por isso dignos de nota, mas também personagens como todos os outros não-personagens, imperfeitos e falíveis, errantes e tão idiossincraticamente humanos.
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Foto: Divulgação
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"Humanidade", difícil achar um termômetro para medir o grau que um filme tenha disto - qualquer copo d'água, se bem filmado, pode se encher dessa palavrinha. Talvez não seja questão de entupir-se dela, trazê-la a fórceps para dentro da narrativa, como se só fossem válidos aqueles filmes que façam do humano uma condição prioritária. A vida é cheia também do inumano e do sobre-humano, e mesmo no nível imediato da coisa, cheia de humanidades reprováveis, de cretinice, de escrotidão. A idéia então não é forçar a barra ou criar obstáculos para esta ou aquela manifestação: é tudo uma questão de permitir que as pessoas (diríamos aqui os "personagens", mas que diferença faz, não é?), enfim, permitir que as pessoas existam em sua plenitude de possibilidades e que possam fazer de suas trajetórias o que acharem que devem. Permitir, finalmente, que respirem. Aqui o crédito de produtor para Wes Anderson que vemos ao final de "A Lula e a Baleia" toma um sentido maior. Com seu "Rushmore" de 1998, o diretor americano trouxe nova energia a esse mesmo tipo de personagem esquisito e disfuncional que vemos no filme de Noah Baumbach. Essa disposição em abraçar o marginal, tornar próxima a diferença, fazer normal a anormalidade, chegara em "Os Excêntricos Tenenbaums" ao auge de sua graça, mas encontrara no passo seguinte, "A Vida Marinha com Steve Zissou" (do qual Baumbach é roteirista), o perigo da autovalorização. Esvaziados de qualquer autonomia, não são mais que bonecos os protagonistas do último filme de Wes Anderson. De algum modo, "A Lula e a Baleia" é a resposta de Baumbach à esta marionetização. Desde o acolhimento da psicologia tradicional - negação da mãe, valorização do pai, édipos, freuds, e tudo o que for possível - até a piada interna de trazer para o filme um irmão Baldwin ao invés dos obsessivos irmãos Wilson da matriz, "A Lula e a Baleia" é aquele momento em que se abre mão dos Bernards (andersoniano clássico) em nome dos Franks (baumbachiano recém-nascido). Walt é a figura de trânsito: sai de um universo sufocante para uma aventura franca e arejada. Na cena final, mais que o reencontro com um trauma da infância, diante da grande escultura no Museu de História Natural que dá nome ao filme, Walt conquista o direito de simplesmente ser.
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