Luzes capixabas




Geraldo Hasse

Morei no Espírito Santo apenas 10% de minha vida, mas nesse curto espaço de tempo deu para concluir que não faz o menor sentido a lenda segundo a qual a inteligência capixaba migrou para o Rio de Janeiro.

Migração é coisa séria, uma das marcas registradas do povo brasileiro, formado por uma mistura de etnias vindas de longe em busca de sobrevivência econômica.

Capixaba que migrou para o Rio deu sinal de burrice.

Para a antiga cidade maravilhosa migraram principalmente os cabeças-de-vento, que se deixam levar por idéias alheias, espalhadas principalmente por vendedores de ilusões.

Isso que os cariocas chamam de inteligência é pura verve, fruto de certa esperteza aprimorada em dois séculos de vida cortesã. É a versão surgida no Rio da malandragem inculcada nos baianos de Salvador pelos vivaldinos portugueses e espanhóis nos primeiros dois séculos do Brasil.

Como eu dizia, o Espírito Santo ficou mais leve com a migração de capixabas alucinados pela miragem carioca.

Só com as cabeças que ficaram em Vitória, daria pra fazer um PSN*, daqueles de fazer inveja aos cariocas da gema, que se julgam o suprassumo da inteligência nacional; aos paulistas de boa cepa, que se consideram herdeiros da inteligência lusa, e também aos mineiros de estirpe, aos baianos de escol e outros que se autoproclamam eleitos pelos deuses...

Uma das provas da inteligência capixaba é que o Espírito Santo sobreviveu ao terrível cerco que lhe impuseram os vizinhos: baianos malandros, mineiros espertos e cariocas fazedores-de-conta. Um cerco, um muro feito de morosidade e indolência; de inveja e cinismo; de maledicência e pouco caso. A isso tudo se acrescentem nos últimos quarenta anos a prepotência paulista e a mistificação de Brasília.

Como não admirar a insistência com que os capixabas procuram refletir sobre o destino do Espírito Santo? Como não reconhecer a bravura com que resistem à ameaça de alienação cultural implícita nas práticas econômicas ditadas por corporações sem raízes locais?

O que se identifica normalmente como progresso ou evolução nem sempre se traduz em conquistas locais e/ou regionais. Mas é preciso tomar cuidado para não cair no outro lado e ficar marcando passo em nome da preservação de uma identidade sem substância.

* Plano de Salvação Nacional


ghasse@th.com.br