Domínio e autodomínio





Tavares Dias


Ninguém perguntasse a Tião Rosca Seca por que era que ele
não gostava de Roberto Barba de Sapo. Era possível que nem mesmo o próprio Rosca o soubesse.

De sua parte, Barba de Sapo ignorava solenemente a antipatia do vizinho, o que só fazia aumentar ainda mais a birra do outro. Iam vivendo, meio que às turras. Uma alfinetada aqui, uma rabugice ali, mas nada que em princípio merecesse maior atenção nem por parte das famílias nem dos amigos.

Questionados a respeito do motivo da ingrizia, ambos davam respostas evasivas.

Rosca:

-Nossos cachorro num caça junto.

Barba:

-Sei não.

Segue o jogo, rola a bola, gira a roda da vida, como sempre girou e segue girando.

Até que um dia os dois se pegaram na porrada, sem prévio aviso. No meio da rua. Logo a turma do deixa-disso chegou junto e cada um seguiu para sua casa ruminando ameaças de morte. A coisa começava a complicar.

O causo, conforme foi depois explicado ao sábio ribeirinho e pescador Bastchão Bedurri, era que Rosca Seca queria, por força, convencer Barba de Sapo a votar em seu candidato, nas eleições que ocorreriam dali a pouco tempo. E Barba, um tanto por não concordar com o nome escolhido e outro tanto pela insistência de Rosca Seca, acabara explodindo e gritando pra todo mundo ouvir:

-Vai à merda, Rosca Seca!

Além do não e da grosseria, o ofendido não gostou de ser chamado pelo apelido, que tolerava desde menino mas jamais aceitara de todo. E agora, diante da fisionomia serena de Bastchão Bedurri, a quem fora pedir conselho, Rosca Seca parecia desconcertado.

E o velho Bedurri, com sua sabedoria, pôs a pensar, por muito tempo, não apenas seu amigo Jerônimo, apelidado de Rosca Seca, mas também a outros que ficaram sabendo, depois, pelo próprio aconselhado. Tomando por base a dificuldade de Rosca Seca, que sofria, em meio a recaídas, com o álcool e com o jogo de carteado, o conselho foi daqueles que na hora doem muito e só muito tempo depois a pessoa percebe o alcance do ensinamento:

-Pense bem, meu amigo Jerônimo, mas pense muito bem, mesmo, e não me responda nada agora, que depois a gente pode voltar a conversar sobre isso: o senhor não consegue dominar nem o senhor mesmo, ainda. Como é que já pode querer dominar outra pessoa?