A opinião pública se agita com a novidade, nem tão nova assim. Quotas especiais nas faculdades para pessoas de cor? Ao que tenho visto, parece que tem muita gente contrária à idéia. Somos uns copiadores contumazes. Liga-se a TV, abre-se uma revista, ou a maioria dos livros, ou quase tudo que penduram nas vitrines, e tudo que vemos foi copiado.
Dedução óbvia, por que não copiar também essa medida, que deu certo em outros países? Isso não implica, claro, copiar o racismo americano, como até já foi sugerido, e essa deveria ir para o Guiness das maiores idiotices de todos os tempos. Temos o nosso racismo camuflado, meio água-morna, que não é bom, mas é melhor que o dos nossos vizinhos do norte.
O pequeno privilégio de garantir vagas nas escolas e faculdades para as pessoas de cor mudou a situação social e econômica dos negros nos Estados Unidos. Hoje, o que vemos são bons empregos, cargos de chefia e responsabilidade ocupados por negros, o que não se via antes da medida. Privilégio? Por que não?
Dizer que estaremos privilegiando a ignorância é, em si, uma ignorância. Ninguém vai dar a um analfabeto uma vaga na Ufes, baseado na cor de sua pele. Mas aqueles que chegam lá, que disputam uma vaga passando pelo obsoleto e injusto crivo do vestibular, merecem sim, ter a regalia.
Porque, em sua esmagadora maioria, o negro é pobre, não freqüenta as escolas particulares e não tem como pagar cursinhos intensivos. Além disto, já vive em um ambiente menos culto, onde não é estimulado a ler, se informar. Ou não tem acesso à cultura. O vestibular é, então, o grande discriminador, ignorando essas nuances e mantendo o injusto status quo das diferenças sociais.
Alguém sugeriu que o privilégio das quotas deveria ser dado aos pobres, não apenas aos pretos. Essa medida também existe nos Estados Unidos com um sistema que eles chamam de "grants". Todas as faculdades americanas são pagas, e eles dão bolsas de estudo para os melhores alunos, e garante para pessoas que comprovem não poder pagar ou se manter na faculdade.
Isso vale para qualquer pessoa, e nada tem a ver com cor de pele ou minorias raciais. O sistema de quotas é diferente, e foi criado para tirar o negro do ostracismo social em que foi relegado desde a guerra civil americana. O preconceito não nasceu na escravidão, mas no atribulado período pós-guerra, quando as elites arrasadas do sul temiam que o poder na região fosse dado aos negros.
Com todo preconceito, perseguição, e discriminação, a situação social e econômica dos negros americanos é infinitamente melhor do que a dos nossos negros, que em sua maioria, vivem na miséria, relegados a sub empregos. O sistema de quotas foi responsável por essa escalada, não apenas por abrir as portas das faculdades aos negros, mas por incentivá-los a preenchê-las. Nada mais justo, e tardio, dar essa chance aos nossos negros.
|