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Um gostoso ambiente para um gostoso bate-papo, sem esquecer da diversão garantida. Não, esta entrevista não poderia ser formal. Por mais que o personagem principal, Antonio Claudino de Jesus, quisesse, talvez não fosse possível ir contra a sua natureza bem humorada.
Na realidade, entre um e outro gole de café, a entrevista acabou se transformando numa conversa descontraída, na qual Claudino se soltou para dissecar a sua própria história com o cineclube, o movimento que o fez ser conhecido no mundo.
"Isso. É até bom batermos um papo. Pronto. Nada daquele negócio burocrático", disse ele, já colaborando com a idéia de Século Diário, naquela manhã de sábado (no último dia 22), na residência do cineclubista, numa simpática rua do Ibes, Vila Velha.
"Vem cá, vem ver como a gente está jogando...", disse um garoto, com seus cinco anos de idade. "Titio não vai agora, está trabalhando", avisou, com carinho, aos sobrinhos. No quintal, um cenário agradável adocicado de ervas plantadas num jardim silencioso, mas que logo se faz notar.
Trocamos informações sobre plantas, sobre café, sobre o Nordeste, sobre o Espírito Santo. Também sobre a sua mais recente viagem, à Europa, encerrando no Brasil com Santa Maria, Rio Grande do Sul. Finalmente, começamos a gravar com ele, o menino admirador do cine São Francisco, depois médico, comunista, ator, cineclubista a presidente do Conselho Nacional de Cineclubes e recém escolhido vice-presidente da Federação Internacional de Cineclubes.
Século Diário: - Como podemos definir Claudino?
Antonio Claudino de Jesus: - Um cidadão comum, que gosta de Arte, Cultura, Meio Ambiente e... de fazer amigos. Não tenho essa história de "Ah, defeitos e qualidades"... (risos) Defeito todo mundo tem. Não há nada especial que chame a atenção. Sou um homem do interior, de barra de São Francisco.
Zona rural?
Zona urbana. Na verdade, a cidade, à época, eram duas ou três ruas, 1951. Era uma cidadezinha pequena e tal... Hoje é uma cidade razoável. Daí vim de lá em 1960 e poucos.
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Capital.
Não, primeiro vim para Colatina, para fazer o Ensino Médio. Então, terminei o "segundo grau" em Colatina e logo vim para Vitória para fazer universidade. Entrei na universidade, mas já fazia teatro. Em Colatina, eu já fazia teatro. Em Colatina, eu já comecei a agitar porque eu fazia parte de um grupo de teatro e nós montamos um festival de música. Durou três anos: Festival de Música Estudantil Colatinense. Daí, vim para Vitória, fiz vestibular, passei. Fiz vestibular para Medicina. Sou médico. Sou médico e professor da universidade, sou parasitologista. Minha área é patologia.
De longe, ninguém percebe.
Mas, como diz Caetano, "de perto ninguém é normal..." (risos)
Ninguém...
Então, as pessoas me perguntam se sou jornalista, se sou artista plástico...
Cineasta...
Cineasta!!!.... Não, sou professor dos cursos de Biologia, Medicina, Enfermagem, Farmácia...
Da Universidade...
Federal do Espírito Santo, vinte e poucos anos...
No Hucam, Hospital das Clínicas?
Sim, no Centro de Ciências da Saúde, porque há muito tempo não trabalho em hospital, dando plantão... Aquela coisa de hospital.
Aquele cheiro...
Aquele cheiro... Já tem uns quinze anos que não trabalho em hospital.
Mas já teve aquela rotina de hospital...
Já. Plantão vinte e quatro horas, CTI, Pronto-socorro... Mas nunca foi minha praia não, nunca gostei disso não. Fiz porque fui "obrigado", porque não gostava de fazer, precisava fazer. Gosto mesmo é de dar aula. Adoro dar aula. Então, entrei na Ufes e já fui agitando, já era comunista, já mexia, já fugia da polícia... Aquela coisa toda que todo mundo passou na época da ditadura. Eu entrei na universidade no governo Médici, o período mais trágico da ditadura brasileira, o mais cruel, o mais sangrento. Começamos a fazer movimento estudantil, mas estava tudo fechado, proibido. Nós que abrimos o movimento estudantil. Na verdade, depois, fizemos a retomada do movimento estudantil. Logo depois, surgiu o Paulo Hartung e todas as grandes figuras do atual cena política local. Na verdade, eles vieram depois dessa minha turma que abriu o movimento estudantil. Paulo foi o primeiro presidente do DCE (Diretório Central dos Estudantes). Nós é que fizemos a campanha dele. Estávamos saindo da universidade quando ele estava começando a se transformar no que hoje ele é. Na universidade, tive contato com o cinema. Muito engraçado porque eu sempre gostei de cinema, desde criança. Eu era compadre do dono do cinema de (Barra de) São Francisco!
Como era o nome do cine?
Cine São Francisco. Eu tinha oito anos quando o compadre me chamou para ser padrinho do filho dele. Então, eu entrava no cinema escondido. Eu vi "Terra em Transe" com dez, doze, anos de idade. Eu amava cinema, mas era uma coisa muito distante. Hollywood, né?
Era um sonho.
Era. Na universidade, no Restaurante Universitário, passou por nossa mesa um panfleto clandestino. Ia passar um filem de Pasolini, numa sala no IC não-sei-das-quantas lá no campus. O campus de Goiabeiras estava começando a ser construído. O restaurante era no Centro de Vitória.
Onde?
Perto da Casa de Cultura, onde funcionava a exposição "Salão do Mar", entre a Jerônimo Monteiro, pegando a Barão de Monjardim. Então, nos convidaram para ver esse filme, "Teorema". Juntamos a turma de clandestinos e fomos ao lugar, também clandestino. "Eles" nem sabiam que era um filme desses, proibido. Sempre dávamos um jeito de passar o filme, escondidinho. Era um grupo formado por mim, um aluno de Administração e dois funcionários da universidade. Pegávamos a máquina 16 milímetros e íamos trabalhando. Ninguém sabia também onde arranjávamos o filme. Aí foi tomando corpo aquela idéia de arrumar o filme, ver o filme e discuti-lo. Éramos um grupo de quatro pessoas que, religiosamente, assistia a filmes, discutia as obras... Com isso, fomos organizando o cineclube. Isso nos idos de 1974. Aí, o Rômulo Penina era pró-reitor da universidade e ele deu muita guarita para nós, os clandestinos. Ele fazia um guarda-chuva e a gente atuava. Daí, ele organizou um grupo de estudantes para trabalhar a questão cultural dentro da universidade, dentro da pró-reitoria ligada a ele, de assuntos comunitários. Eu já fazia parte desse grupo e nós, então, organizamos um cineclube na pró-reitoria. Organizamos uma coisa formal, pública. Já não era mais clandestina. Meu primeiro contato com cinema mesmo foi assim. Em 76, fiz contato com o resto do Brasil e descobri que existia cineclube no Brasil inteiro, que existia um Conselho Nacional de Cineclubes, e descobri que o negócio era outro, que o buraco era muito mais embaixo... (risos) Achei que tinha inventado a roda e a roda já estava longe. Daí, eu e Magno Godoy, um dos artistas mais completos do Espírito Santo e que atualmente dá aula na Fafi... Ele fazia parte de outro cineclube. Daí, fomos convidados para uma jornada de cineclubes em Campina Grande, na Paraíba. Lá foi o meu primeiro contato nacional. Aí, eu conheci o movimento do Brasil inteiro. Daí, aproveitei para conhecer o Nordeste inteiro também... (risos) Pegamos a estrada pedindo carona. Viemos "pingando" de lá até aqui. Levamos um mês para chegar no Espírito Santo. (risos) Já no ano seguinte, ia haver uma eleição e eu fui convidado para fazer parte da diretoria do Conselho. Fui secretário do Conselho e, na eleição seguinte, fui presidente do Conselho, em 79, 80... De lá pra cá, estou no meu quinto mandato. Meu contato foi com essa forma organizada, de mobilização social, muito mais do que como realizador, esse "glamour" todo... Nada disso. A meta foi tratar do filme como o elemento organizador do público, em torno dos seus objetivos, dos seus compromissos. Como todo movimento social à época, a gente funcionava meio como um biombo que ficava dando suporte a outros movimentos que estavam proibidos. Ninguém tinha direito de expressão: censura geral. O movimento funcionava assim, como suporte para realizar outras coisas. Queríamos aprender, decodificar aquilo, até para desmistificar ao público a linguagem do cinema. Dizer que aquilo era uma coisa tão simples quanto escrever uma carta, fazer um livro... A diferença é que o cinema requisitava um equipamento muito pesado, muito caro, de difícil acesso. O audiovisual hoje desmistificou geral. Hoje em dia, todo mundo pode fazer um filme. Todo mundo quer pegar uma câmera desse tamanhozinho [faz o gesto, equivalente a uma câmera digital], que custa mil, oitocentos e poucos reais na esquina, sai por aí gravando, senta no seu computador e edita.
O próprio CD é muito fácil também...
Isso! Antes, era um "Deus nos acuda" fazer um disco... Então, por aí eu me meti nessa história de cinema e estou até hoje. A diferença é que passei a ser produtor. Tenho uma produtora, desde 1984. Basicamente, todos os filmes, que sejam produzidos por pessoas no Espírito Santo, por pessoas do Espírito Santo, de uma forma ou de outra, tangenciam ou foram produzidos pela minha empresa (Verve Produções e Consultoria). Aí, foi engraçado lembrar disso porque a imprensa, àquela época, dava muita atenção a gente. Eu saia todo dia no jornal só porque fazia cineclube. Rogério Medeiros me conheceu quando eu estava dando uma entrevista para Tinoco dos Anjos, para o Caderno Dois (A Gazeta), quando o jornal ainda funcionava no edifício Portugal, no Centro. Eu estava conversando com Tinoco quando Rogério Medeiros disse "Vem cá, garoto, você é de onde?". Eu respondi: "Ah, sou de Barra de São Francisco." Ele: "Ah, mas você tem um discurso tão estruturado..." Daí pra frente, nunca mais ele me largou: sempre interessado no meu caminho, em dar cobertura às ações do movimento. Aquela foto ali é dele [aponta para a parede do seu lado esquerdo] Cheguei numa exposição dele e estava lá a foto, com uma dedicatória: "Ao Claudino, com um beijo do Rogério..." Ele é lindo. É interessante porque naquela época a imprensa tinha outro olhar para a cultura local. Hoje em dia, os artistas ocuparam muito espaço na sociedade e a mídia não está correspondendo à altura, em relação àquela época.
Por que será que a imprensa está se comportando assim? Os cineclubes estão aí, no mundo inteiro.
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No mundo inteiro. Vim de lá agora [Europa] porque o negócio está pegando fogo. O que eu acho é que está faltando na imprensa local jornalistas mais voltados à questão da cultura. Mais "formados" para a questão cultural, assim como para a questão ambiental.
Mais especializados.
É. À época, tínhamos um Amylton de Almeida, por exemplo... Cinema no mundo? Era com ele mesmo. Sabia o que estava acontecendo, o que estava se passando e qual a importância daquele garotinho que admirava o Cine São Francisco. Ou no que esse garotinho poderia se transformar. Exibir um "... Andaluz" de Buñuel... Ou um Eisenstein... Ou um brasileiro: um Nelson Pereira, um Glauber Rocha, enfim... É essa coisa toda. Tinoco, por exemplo, formado por Amylton de Almeida, veio dando seqüência a isso, hoje é um jornalista importante, está na TVE... A TVE sempre deu muita importância à cultura local. Mas o que eu acho é que falta mesmo informação. Quer dizer, fala, mas não sabe criticar. Não é só registrar o fato, com a informação mínima. Acho que o jornalista tem que informar porque isso é o mínimo que ele pode fazer. Ele tem a obrigação é de polemizar, estabelecer um diálogo com a sociedade! Acho que isso faz muita falta. Toda vez que a imprensa liga para conversar comigo, fico meio ressabiado. Não sei o que vamos conversar. Muitas vezes, o repórter vem falar comigo e nunca viu falar de cineclube. Aí fica difícil explicar para um jornalista o que é um cineclube. Vou ter que explicar para um jornalista o que é um cineclube?
Parece incrível, mas acontece mesmo.
Acho impressionante. Não estou falando "mal" do jornalista. Não se trata disso. Só acho que ele poderia pensar melhor no futuro dele, como profissional. Um pouco as escolas de Comunicação são responsáveis.
Bom, daí o jornalista vai dizer que o tempo em que se dedica à profissão não pode ser conciliado com um tempo que dedicaria a uma especialização. Isso depende também do mercado, da linguagem das empresas, de como os patrões encaram essa formação. Ou estou enganada?
Isso. Não, não está. É isso mesmo! É outro problema. Se o jornalista que não quiser se encaixar, o chefe o troca pelo primeiro estagiário da esquina. Então, é esse o problema. A imprensa perdeu esse clima, de polemizar. Tinha um senso crítico, interferia na sociedade, discutia com a sociedade.
Posso pegar um gole de café?
Claro. É pra isso mesmo. Fique à vontade. Vou tomar também. (pausa) Pois é, acho que as linhas da minha história são essas.
E o seu envolvimento com o órgão internacional (Federação Internacional de Cineclubes)? Como foi que aconteceu? Humm... Gosto de café assim mesmo, forte e com pouquíssimo açúcar.
Eu também. É pra gente enfrentar a guerra. (risos)
Ih, derramei na toalha.
Não se preocupe. Toalha é pra isso mesmo. (risos)
É. Também nasci no interior, especialmente no sertão paraibano e, de uma forma ou de outra, sinto na pele a diferença entre litoral e interior.
Nossa... Grande a diferença!
Certa vez, fui almoçar na casa de uma amiga, na Ilha de Monte Belo. Fui me servir no fogão e, de repente, zap!... Deixo um pouco de feijão derramar e melar o tapete, no pé do fogão. Ela, rapidinho, disse também: "O tapete é pra isso mesmo."
(risos) Olha, a gente fica ressabiado mesmo. Não é impressão sua não. É outra cultura, outro comportamento. Mas a gente não precisa se importar em não sujar, em não quebrar cristais. Se o cristal não se quebrasse, estaria acabada a indústria do cristal. Como outras pessoas iam ganhar dinheiro? Esse negócio de internacional, foi aos poucos. Já na década de 1980, eu era presidente do nacional e Felipe Macedo era meu vice-presidente. E ele foi escolhido para a Federação Latino-americana de Cineclubes. O que é que é isso? A federação internacional é um organismo que tem as suas federações, suas comunidades, confederação e conselhos. A federação internacional é uma ong que faz parte do corpo consultivo da Unesco. Então, é um órgão de peso, muito importante. Além do seu comitê executivo, o órgão tem suas divisões, seus agrupamentos. Ou por afinidade geográfica ou afinidade linguística... Já existia o secretariado latino-americano, como tem até hoje. O Brasil é muito reconhecido. Macedo era do secretariado e então foi assim que me aproximei da federação também. De 1988 até 2000, o movimento se desorganizou. Enquanto movimento, de organização social, fragmentou-se. Os conselhos nacionais pararam de funcionar... Houve um envolvimento da sociedade com a Constituinte. Veio uma "liberdade"... Daí, o movimento arrefeceu um pouco. Os movimentos políticos clandestinos arrefeceram. Fragmentaram-se as identidades. Como nós éramos um pouco "biombos"... Isso aconteceu com os movimentos sociais, como um todo, com os sindicatos, os conselhos... O cineclube que participei da criação dele foi o Cine Metrópolis [Ufes], que existe desde 1974. Nunca deixou de funcionar. Passou por várias etapas, mas está lá. E assim foi no país inteiro. Eu estava conversando com um rapaz da Paraíba, que é cineclubista, quando estivemos no encontro em Santa Maria (RS). Eu estava dizendo a ele que eu havia ido lá no cineclube da terra dele e que foi lá que encontrei documentos que eu precisava tanto na época. Agora, estamos cuidando disso porque o Conselho está passando por um processo de digitalização. Estamos organizando nosso site... Mas já está no ar. É www.cineclubes.org.br. Já tem muita informação, o mapeamento de cineclubes do país... "Entonces", a retomada do movimento se deu em 2003. Foi feito um encontro, dentro da jornada internacional de Brasília. O que aconteceu? O movimento no país ganhou muita importância nos dois últimos governos. Com Fernando Henrique, com o próprio Sarney com a lei de incentivo às produções nacionais... Então, o movimento voltou, os cineclubes foram retomando seu lugar. As organizações voltaram a se comunicar umas com as outras. Aí vieram as associações, também importantes, como a Associação Brasileira de Documentaristas, Associação Brasileira de Cineastas. E o pessoal da minha geração, ligado a cineclube ou à produção cinematográfica nacional mesmo, vem ocupando esse lugar no Ministério da Cultura. São todas da militância do cineclube. Têm história com o cineclube. Se o cinema nacional não discutir a questão do cineclube, fica capenga, falta uma "perna". Ou seja: sem o cineclube o cinema brasileiro não existe. Então, o cinema veio buscar a gente. E, aí, fizemos reunião com os grandes "dinossauros". (risos) Saímos catando as lideranças pelo país afora. Formamos um grupo com várias pessoas envolvidas no cineclube, especialmente numa jornada em Brasília, um rapaz do Rio Grande do Sul, uma menina do Rio, outra de São Paulo, da Bahia, de Alagoas... Todos oriundos do movimento da década de 70, 80... Então, com o apoio do Ministério, da classe cinematográfica, a gente balançou o país e rearticulou o movimento. Aí, fui reeleito para a diretoria o Conselho Nacional, retomamos os trabalhos, fui eleito de presidente. E em junho (último), fui eleito presidente de novo. Quando eu fui presidente do Conselho, a Fic (Federação Internacional de Cineclubes) tomou conhecimento. O secretário agora por um argentino, Juan Carlos, que veio para a rearticulação do movimento no Brasil e, portanto, recontactou o Brasil com a Federação Internacional. Na jornada de 2004, fizemos um encontro latino-americano aqui no Brasil. O vice-presidente eleito, o italiano Paulo Minutto, veio ao Brasil. Daí, articulamos o movimento, ele nos convidou para a federação. Desde 2004, todo mês de junho, tenho ido para a plenária da federação internacional, como delegado do Brasil e o Festival Internacional de Cinema e Cineclube. Eu levo sempre filme brasileiro para esses países. Bom, mas a América Latina nunca havia ocupado um cargo dentro do Comitê Executivo. O núcleo de presidente, vice, tesoureiro e secretário sempre foi europeu. É a primeira vez na história da Federação Internacional, que faz setenta anos no ano eu vem. Ela veio junto com a ONU, a criação de organismos internacionais, a retomada pela paz e tal... O primeiro símbolo foi desenhado por Picasso.
Veio com a retomada das identidades de vários países, por exemplo...
Sim, sim, claro. Então, voltei da plenária para o Brasil, com delegado... Surpreendentemente, na eleição que tem mandato de três anos. Nessa última plenária, o mundo inteiro, unanimemente me indicou para o Conselho Executivo. Foi surpreendente, quando Paulo Minutto me indicou, os outros delegados aprovaram, mas... Fiquei muito, muito surpreso mesmo. A vice-presidência é um cargo de muito destaque dentro da federação. O presidente cuida mais de relações diplomáticas. O vice-presidente é quem, na verdade, administra as articulações. E um asiático foi eleito secretário geral. Aí, como diz o Paulo (Minutto): "O Terceiro Mundo, enfim, mostrou para o primeiro que está lá." Também sou coordenador da Comunidade Hispano-portuguesa. Estivemos em junho, na jornada de Santa Maria, e foi muito legal. Um encontro com dez países... E há uma conversa de fazer um mapeamento do cineclube no mundo, reorganizar essas informações...
No Brasil, já temos quantos?
Olha, mapeados pelo Conselho Nacional, uns duzentos. Mas temos certeza que esse número chega a mais de seiscentos.
Sim, há os que nem sabem da federação... Não divulgam o trabalho deles mesmos.
Isso. Nem sabem que existem.
Nem sabem que são.
Nem sabem que são. No Brasil, temos uma infinidade. Imagine, no interior do Nordeste... Gente, na Amazônia!!!...
E no Espírito Santo?
Nossa, eu falo demais...
Não! Para mim é bom. Para os leitores, também...
(risos) Bom, no Espírito Santo, com regularidade, temos uns oito. Digamos que alguns participam de modo rápido, numa mostra, etc. Mas, de modo regular, temos uns oito a dez. Basicamente, temos o Metrópolis, na Ufes. O Falcatrua, que é famosíssimo, no mundo inteiro. O Falcatrua vem com a discussão do direito à livre exibição. Essa coisa do pessoal do comércio discutir conosco... Nós não temos nada a ver com a Organização Mundial do Comércio. Isso não é conosco! Não temos fins lucrativos. Somos uma atividade cultural sem fins lucrativos e democrática! E acabou! Temos que ter direito e acesso a toda produção de bens culturais e materiais. O que somos, na verdade, é intermediadores para levar esses bens ao povo. O povo tem direito a ver as produções. Então, não venham discutir esse negócio de mercado comigo... O Falcatrua vem contribuindo muito para essa discussão internacional pelo direito e vem batendo de frente com o mercado. Acontece um filme, eles conseguem antes de o filme ser lançado "oficialmente" e exibem ao vivo e a cores, na Ufes... Tomaram processo, claro. Estamos com eles nessa luta, até o fim. Eles não vão ficar sozinhos nunca.
Também houve o exemplo com o filme estrelado pela Xuxa de muitos anos atrás... Aquela Xuxa que as crianças não conheciam...
Pois é. A Xuxa lá, com um garotinho de doze anos... Xuxa não quer nem ouvir falar. Quer esconder, manda queimar as cópias... E o cara achar a cópia... (risos) Eles são garimpadores e são maravilhosos. Então, em Vitória, certos, com regularidade, temos dois. Em Vila Velha, temos seis bairros, com sessão semanal... O que eu freqüento, por exemplo, é aqui no meu bairro, toda terça-feira, às dezenove horas.
E sua produtora, onde funciona?
Atualmente, aqui em casa. Até o mês passado, funcionava em Vitória, na Praia do Canto. Eu acabei deixando porque eu estou parando pouco aqui.
E como realizador? Por que não aconteceu?
É, eu nunca tive tesão pela realização. Sempre gostei da produção e...
Digamos, que de uma "interpretação" das obras?
Da interpretação das obras! Da discussão... Estrutura para mobilizar o público, de organizar, de formar o público. De fazer com que o público seja todo o processo. Que não seja passivo. Eu sempre repito isso: o cinema comercial tem um problema grave. Não é como no supermercado. Se você vai e não gosta do produto, você devolve, denuncia ao Procon, quer o dinheiro de volta... No cinema é diferente: você assiste a um filme e, gostando ou não... Eles te empurram o filme goela abaixo e você não tem nem com quem discutir. E não tem como devolver aquela porcaria que você não gostou e receber o seu dinheiro de volta. Cineclube é exatamente a quebra dessa relação passiva. Não só tem como discutir como impedir que aquele tipo de discussão volte. E o público é quem programa o cineclube, na verdade. "Olha, queremos uma pornochanchada, queremos isso, queremos aquilo..." É assim mesmo. Cineclube não é só um espaço para passar filme brasileiro de qualidade. Mas, o que é que é "qualidade"?
Um espaço para discutir essa qualidade.
Não pode existir, num momento pós-ditadura, um lugar com cerceamento à liberdade. Filme de sacanagem? Pode sim! Tudo. Deve passar tudo e questionar tudo. É do cineclube que nasce o realizador. Não conheço um bom realizador nesse país que não tenha freqüentado um cineclube. Aliás, todos têm a honra de dizer: "Mais do que cineasta, sou cineclubista." Mas, eu, engraçadamente, nunca quis ir para a realização. O movimento, sim... O filme que a gente produziu foi um de dezesseis milímetros, em 84, 85... "O Fantasma da Mulher Algodão"... Mas discutir, tudo bem. Sempre foi a minha praia. A partir daí, nunca parei. Com a lei de incentivo, fizemos um longa com R$ 300 mil! Do início ao fim! Quando eu conto, não acreditam. Acham que é 300 mil dólares... (risos) Minha parte como "realizador" é incentivar a realização local. Acho que nossa produção é rica, diversa e sem espaço. Tem um problema na produção local que é a falta de legenda, por falta de recursos. Como é que vai participar e ser entendido pelo mundo? Como é que o público vai entender português? A solução é legendar em espanhol. É o que estamos fazendo. Vou a um encontro internacional e tenho que levar uma produção do Rio ou de São Paulo porque as do Espírito Santo não possuem legenda. Como assim? Temos que aprender que o que é produzido aqui tem importância no mundo inteiro.
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