Vitória (ES), edição de fim de semana
 
A voz da indignação pede passagem
'Quero ser intérprete da insatisfação popular'





Cristina Moura


"Procedei como filhos da luz porque o fruto
da luz é a bondade, a justiça e a verdade."
(Ef 5,8-9)

Neste final de semana, o leitor vai rever as posturas políticas de uma figura já conhecida por um fato desconfortável e cruel para ela e para sua família. Aparecida Denadai, após o assassinato do seu irmão, Marcelo Denadai, em 2002, começou a se dar conta de que sua missão não era somente no plano jurídico, como advogada e procuradora municipal.

Em 2004, por um triz não se elegeu prefeita de Cariacica, o lugar que a acolheu e lhe rendeu quase 50 mil votos. Com o argumento dos números na manga, ela se prepara para um jogo político um tanto diferente: é candidata a deputada estadual pelo PDT, o mesmo partido que lança o ex-prefeito da Serra Sérgio Vidigal para governador, numa oposição declarada ao projeto de reeleição do governador Paulo Hartung.

Nesta entrevista, Aparecida Denadai não economiza críticas ao atual governo do Estado, principalmente sobre questões ligadas às áreas da saúde e da segurança, ao mesmo tempo que também não dispensa elogios ao seu candidato a governador. Para ela, que não concorda em misturar religião e política, a Assembléia Legislativa do Espírito Santo precisa de uma oposição mais ativa e menos subserviente ao governador. O Judiciário, assim com o Executivo, precisa também de uma reavaliação.

Aparecida também revela que só não se definiu pela candidatura a deputada federal por falta de dinheiro. Enquanto ela pensa na sua campanha para estadual, vai esperando a definição do caso Pagotto. Caso que a fez ficar, de uma forma ou de outra, mais conhecida pela população capixaba.

Século Diário: - Qual a sua avaliação, até o momento, do cenário político de 2006? Para as eleições deste ano, algumas pesquisas já indicam o governador Paulo Hartung no topo da preferência dos capixabas.

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
Aparecida Denadai: - Olha, as pesquisas sugerem um resultado que ocorre somente no meio político. Isso porque, quando você anda nas ruas, vê que as pessoas ainda não se definiram, as pessoas não estão pensando em política ainda. O único sentimento que tenho na rua é de descrédito total no meio político. Então, ninguém hoje pode bater no peito e dizer: "Ah, eu estou bem." Nenhum governante pode dizer: "Eu estou bem." Ou: "Estou bem avaliado pela população". Porque a população está extremamente insatisfeita com os administradores públicos. Falar de satisfação no Espírito Santo, onde se morre mais do que nas guerras do Oriente Médio... Quer dizer, é um absurdo um governador desses estar bem avaliado. Talvez ele seja bem avaliado porque o que o antecedeu era muito ruim. Então, qualquer coisa que viesse depois do governo de José Ignácio seria muito boa. Isso não tirando o mérito das ações que ele fez e que foram positivas para o Estado. Mas, por exemplo, com relação à segurança pública, somos hoje um fracasso. Não vejo problema nenhum, com relação às pesquisas. Acho que Sérgio tem condições de virar o jogo, que está fazendo um bom programa de governo. Só isso que a gente tem que ver.

- Esse é o quadro eleitoral, diante das pesquisas?

- Olha, com relação à preferência do eleitorado pelo governador, acho que tudo pode ser mudado. É natural que as pessoas lembrem mais do governador Paulo Hartung porque ele está no poder. Ele tem uma mídia todo dia, fala-se nele todos os dias. Mas a população agora tem a oportunidade de ouvir as propostas de Sérgio, que o programa de Sérgio é melhor, com certeza ele vira o jogo e ganha as eleições.

- Quando começamos essa série com entrevistados ligados às eleições deste ano, percebemos que eles, em sua maioria, diziam que não existe eleição "fácil" nem "difícil". Trata-se de um jogo de articulações.

- Exatamente.

- Pelo que a senhora começou a falar, o governador está sempre mais presente na mídia. O fato de ele estar no poder, com a máquina administrativa nas mãos, facilita o projeto de reeleição, a participação dele nesse jogo?

- Olha, naturalmente. Claro. Ele tem uma máquina nas mãos. Ele tem mais mídia, tem isso tudo, mas eu acho que naquilo que a população está insatisfeita, em algumas áreas, como a saúde e a segurança, por exemplo. A mídia não é suficiente para eleger o governador, não. Ele vai ter que apresentar propostas, dizer por que não fez. Ele não tem que dizer hoje o que vai fazer. Ele tem que dizer onde ele fracassou e como vai resolver. Se ele fracassou nessas áreas até agora, vamos continuar um governo que fracassou na segurança e na saúde? Qual é a estratégia dele? Qual é o "plano B" desse governador? Nós precisamos ouvir o "plano B" que ele tem. Se o plano dele não convencer as pessoas, nós temos Sérgio, que tem um plano para a segurança e para a saúde, um plano que pode, inclusive, conquistar o voto dessas pessoas que estão indecisas, estão inseguras em quem votar. Ninguém vive hoje em segurança nesse Estado. Hoje a gente vai na rua...

- Insegurança...

- Sim. Eu não durmo, se minha filha sair à noite. Não fico segura enquanto ela não chegar em casa. E cada pai e cada mãe nesse Estado, eu tenho certeza, sentem as angústias que eu sinto. Ninguém está tranqüilo. Eu falo, inclusive, da minha situação, especificamente. Tenho uma briga com o crime organizado e costumo dizer assim: "Eu corro risco de morte." Eu costumo também pensar assim: "Nesse Estado, quem é que corre menos ou mais risco de morte do que eu?" Eu corro o "meu" risco por uma situação específica, mas posso morrer ali na esquina por um assalto. E tem gente que acha que eu corro mais risco... E estou aqui! Então, ninguém está a salvo nesse Estado. Não tem ninguém correndo menos ou mais risco. Todos estão correndo risco. Isso é um fato. Isso tem que ser resolvido. Isso não pode ser terceirizado. Ouço muito em discurso político assim: "Temos que chamar a sociedade, temos que ter uma conversa com a sociedade..." Olha, a sociedade já está fazendo a parte dela. As igrejas já estão fazendo. A Igreja Católica, especificamente, com a Pastoral Carcerária, a Pastoral da Saúde e outras tantas pastorais. Os evangélicos com o trabalho que é feito nos presídios. Onde o Estado não está, a Igreja está! Recentemente, vimos na mídia: uma rebelião na qual os evangélicos eram os reféns, que estavam ali conversando com aquelas pessoas, tentando trazer as pessoas para o convívio social. Coisa que o Estado deveria estar fazendo e as igrejas estão fazendo. Terceirizar a responsabilidade da segurança pública para a sociedade é uma covardia que esse governo faz. Na verdade, a missão é só do governo.

- Foi a questão da segurança que fez com que a senhora se lançasse à vida política, especialmente à disputa por um cargo eletivo, como aconteceu em 2004, nas eleições para a prefeitura de Cariacica?

- Particularmente, nunca tive vontade de participar da vida política. Nunca, nunca tive como um projeto meu fazer parte desse grupo de pessoas que trabalham na política, na vida pública. Sou advogada e nunca precisei da política para ganhar dinheiro, nunca tive cargo político. Quando consegui um cargo na administração pública, entrei por concurso público. Fiz concurso público, fui aprovada e sou procuradora do município de Cariacica. Então, nunca tive essa visão da política. Quando meu irmão foi assassinado, descobri uma coisa cruel, senti parte do problema. Quando se tem um poder para fazer o mal, isso se volta contra a gente. Então, quando eu achei que podia ter a classe política do meu lado, que eu pleiteava fazer justiça, eu percebi que essa mesma classe política, que foi eleita para defender os direitos do cidadão, estava unida para defender um assassino. Então, na verdade, o que me moveu para entrar na política foi o sentimento de indignação. A gente costuma criticar e eu critiquei a vida inteira os maus políticos. Eu fui uma espectadora que sentava em frente à televisão para me indignar com a classe política, mas eu mesma não fazia muita coisa. Eu não me lançava, eu não ia pra rua. Fiz a "mea culpa" e percebi que eu tinha culpa por aquela postura que eu estava tendo. Eu nunca enfrentei esse problema. Eu sempre me acomodei com ele, como muitas pessoas fazem. Não adianta falar que são todos iguais, todos ladrões. Eu tenho certeza que é uma minoria, mas deve ter gente de bem. Precisamos identificar essas pessoas de bem na política, nos unirmos a elas para fortalecer o trabalho delas porque, senão, os maus políticos vão ganhar sempre. É isso. Na verdade, o que me moveu para entrar na política foi o sentimento de indignação.

- Comenta-se no meio político, na imprensa e em outras áreas que a senhora poderá ganhar somente com a votação em Cariacica, para deputada estadual. A senhora pretende se manter nessa linha ou expandir seu campo de atuação?

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
- Olha, tenho um carinho muito grande pelo povo de Cariacica, que me honrou com quase 50 mil votos. Há um trabalho que faço em Cariacica, como procuradora municipal. É evidente que, quando eu me candidatei a prefeita, eu tinha uma visão de querer ajudar o município, fazer crescer o município. Hoje posso fazer esse trabalho numa visão mais abrangente. Ir para a Assembléia Legislativa significa o seguinte: ajudar o município de Cariacica também, como ajudar outros municípios que precisam. Quero ir para a Assembléia com um sentimento que há em mim: precisamos de uma tribuna que leve esse pedido de socorro do povo capixaba. As pessoas estão pedindo socorro, enquanto a gente vê um monte de deputados calados, omissos, achando que o problema não é deles. Então, esse problema da segurança pública não é só de Cariacica, mas do Estado todo. Quando eu digo que vou lá na Assembléia para ajudar, para dar minha contribuição para resolver o problema também da segurança pública, eu poderia direcionar o problema só de Cariacica. Do que me adiantaria resolver o problema só de Cariacica e continuar a violência na Grande Vitória? A Grande Vitória, assim como todo o Estado do Espírito Santo, tudo está interligado. As pessoas que morrem assassinadas num assalto em Vitória, morrem em Vitória, morrem em Vila Velha, morrem na Serra, morrem em Cariacica, morrem em Cachoeiro de Itapemirim... Isso é um problema amplo! São duas visões políticas diferentes. A minha missão é dar uma contribuição para o povo de Cariacica, mas também para o Estado do Espírito Santo.