O seu a seu dono




Trinta hectares de terras, dos 50 mil hectares dos quilombolas que a Aracruz Celulose ocupa e explora há quatro décadas no Espírito Santo, foram retomados pelos seus legtítimos donos em ação que mobilizou cerca de 500 pessoas. O histórico ato de retomada ocorreu na região de Linharinho, em Conceição da Barra, no último sábado (29), marcando o início de uma luta que vai se prolongar até que se encerre o trabalho de identificação dos territórios quilombolas no Estado pelo Comitê Gestor do Projeto Territórios Quilombolas do Espírito Santo.

O comitê é coordenado pelo Incra, com a participação de representantes da Ufes, do Ministério Público Federal, da Defensoria Pública e da Fase, além de organizações que representam os negros no campo e na cidade.

Ao lado dos negros atuaram na ação de retomada outras vítimas da empresa, os índios. E no grupo havia apoiadores de várias entidades, como da Rede Alerta Contra o Deserto Verde, que congrega mais de cem entidades que lutam contra a destruição do território, da cultura e da economia promovidos pela Aracruz Celulose.

Linharinho é parte do território quilombola de Sapê do Norte, formado por Conceição da Barra e São Mateus. O território recomeça a ser formado.

O líder quilombola Domingos Firmiano dos Santos informa que as terras plantadas com a monocultura do eucalipto pela Aracruz Celulose faz parte de uma área de terras devolutas, ocupadas historicamente pelos quilombolas. No seu centro está o cemitério, onde os legítimos donos do território fixaram uma cruz com nomes de algumas das personagens enterradas no lugar, entre as quais o lendário Negro Rugério, que combateu os escravocratas. E ainda Silvestre Nagô, Clara Maria dos Pretos do Rosário, Viriato Cancão de Fogo, Pai Joaquim Vitória, Mãe Diolinda, Mãe Didi e Constância de Angola.

A área retomada, lembra ainda Domingos Firmiano dos Santos, foi reconhecida como quilombola por estudos realizados pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Os resultados da pesquisa já foram publicados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Por lei, ao Incra cabe identificar, titular e devolver as terras aos descendentes dos escravos negros.

Escreve-se, assim, com esta sação legítima dos negros descendentes de quilombolas, mais um capítulo das lutas populares contra o domínio de territórios alheios pela transnacional dos eucaliptos. E encerra-se uma história de quatro décadas de usurpação e injustiça.