Vitória (ES), edição de 31 de julho de 2006
 
Presidente da Aracruz Celulose quer
confundir capixabas, diz Rede Alerta

Ubervalter Coimbra


O objetivo do presidente da presidente da Aracruz Celulose "é confundir e chantagear o povo capixaba". A afirmação é da direção da Rede Alerta Contra o Deserto Verde, ao comentar e reportagem com Carlos Aguiar, publicada na edição de domingo do jornal A Gazeta. As terras ocupadas pela empresa dariam para assentar 30 mil famílias de trabalhadores rurais, lembra dirigente do MPA.

Na reportagem de página inteira, o presidente da empresa aponta o que chama de campanha contra a Aracruz Celulose. A reportagem diz: "Os conflitos com os indígenas que reivindicam posse de terras; o trabalho conta a empresa junto a grandes clientes no exterior por parte de grupos defensores dos índios; as tentativas da Assembléia Legislativa de impedir novos plantios de eucalipto, e as comissões de inquérito instaladas contra a Aracruz Celulose, acionaram o sinal de alerta para os diretores e acionistas da empresa".

Na abertura da reportagem, a afirmação de que o Espírito Santo perdeu a quarta fábrica da empresa, um investimento superior a US$ 1,3 bilhão, para o Rio Grande do Sul, por força desta ação contra a Aracruz Celulose.

"A reportagem é uma boa dose de chantagem contra os capixabas. A Aracruz Celulose não pode colocar o Espírito Santo em segundo plano, pois 75% de sua produção é feita no Estado", aponta o membro da Rede Alerta Contra o Deserto Verde.

É lembrado que a Aracruz Celulose conta com o apoio do governo do Estado, que mobiliza em favor da empresa o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal (Idaf) e o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema). E também conta com o apoio do governo federal, que empresta à empresa o que ela pede. Com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e a juros de até 2% ao ano, como foi o caso do último empréstimo.

A quarta fábrica no Rio Grande do Sul é investimento anunciado há muito tempo. Agora, com o discurso do presidente da Aracruz Celulose, o que se busca "é colocar os capixabas contra a luta dos índios".

Os índios lutam contra a empresa que tomou 40 mil hectares de suas terras. Destas terras indígenas, o governo federal reconhece que são indígenas 18.070 hectares. E a empresa ainda tem eucaliptais em 11.009 hectares. Inconformados com a demora na demarcação de suas terras pelo governo federal, os próprios índios demarcaram suas terras e agora aguardam a demarcação oficial.

"A Aracruz Celulose jamais quis resolver a questão dos índios. Jamais cedeu nada do que ocupou", diz a Rede Alerta Contra o Deserto Verde.

Em relação ao fato de o eucalipto não destruir a terra, como diz Carlos Aguiar, o membro da Rede Alerta Contra o Deserto Verde afirma que as terras do Espírito Santo são muito boas, e que as chuvas são abundantes. E que se a empresa tem produção crescente, se deve ao desenvolvimento de tecnologia.

Aponta que os plantios de eucalipto são feitos de modo insustentável: "O modelo, com aplicação de alta tecnologia, vai continuar ocupando grandes extensões de terra. E as árvores serão cortadas cada vez mais cedo (hoje são cortadas aos sete anos). O consumo de água será sempre mais intenso. E o uso de agrotóxicos será mantido".

A Rede Alerta Contra o Deserto Verde diz que a produção insustentável da empresa criou uma má reputação da Aracruz Celulose no exterior. Lembra a rede que a empresa teve de renunciar ao selo FSC, certificação verde; e que a família real sueca retirou seus investimentos na empresa por esta insustentabilidade ambiental e social.

Já Valmir Noventa, um dos coordenadores do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) no Estado, diz que onde a Aracruz Celulose estiver "haverá gente preocupada com os estragos que ela provoca". Se "teve que tirar sua fábrica do Espírito Santo, continuará encontrando resistência no Rio Grande do Sul".

E segue o raciocínio: "Para o Espírito Santo e para o Brasil seria muito bom que a Aracruz Celulose deixasse o país. A empresa sempre fez muito mal e sua saída seria uma vitória do povo brasileiro".

Valmir Noventa faz as contas: "Os 300 mil hectares que a Aracruz Celulose ocupa no Espírito Santo dariam para assentar 30 mil famílias de trabalhadores rurais. Cada família gera três empregos, totalizando 150 mil pessoas ocupadas. E a renda familiar dos pequenos agricultores é de R$ 14/15 mil por ano. A Aracruz Celulose não gera emprego, não paga impostos, e causa problemas sociais e ambientais".

Ele afirma que muitos dos problemas ambientais gerados pela empresa nem podem ser quantificados agora. É o caso do desastre ambiental produzido pelos agrotóxicos e da destruição da mata nativa. O impacto de tudo isso só será contabilizado em algumas gerações.

Valmir Noventa assegura que se as áreas de eucalipto e cana-de-açúcar no Espírito Santo fossem destinadas à produção de alimentos, zeraria o problema de desemprego no Estado.


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