Se o Jonathan que Elijah Wood encarna em "Uma Vida Iluminada" adquirisse uma cópia em dvd do filme que protagoniza, teria dificuldade em nomear esta lembrança depois que a guardasse devidamente num de seus indefectíveis saquinhos plásticos. É este procedimento que o esquisito jovem americano usa sempre que se depara com um objeto que signifique algo para a história de sua família, e nessa foi acumulando na parede de seu quarto saquinhos que contém desde as dentaduras de sua avó falecida até uma camisinha usada de seu irmão mais velho. Com o filme em mãos, o que Jonathan escreveria no adesivo de identificação? É desse mesmo modo que a primeira experiência na direção do ator Liev Schreiber se apresenta para o espectador. Alguém que aponte a irregularidade como seu maior defeito talvez não esteja de todo errado - mas é esta mesma irregularidade que injeta no filme suas maiores qualidades. Num processo complicado e nem sempre claro, mas totalmente consciente da parte de Schreiber, "Uma Vida Iluminada" vai dizendo coisas para depois desmenti-las, apresentando-se a partir de um tipo de gênero para então tomar partido de muitos outros, às vezes até antagônicos, e nessa dialética interna, atabalhoada e cheia de graça, acaba atingindo objetivos bem precisos. Muito pela confiança de que possa comportar fluxos tão diferentes de narração sem necessariamente contrapô-los, mais ainda pela certeza que todos eles trabalham por uma idéia comum: na mão inversa de todas as estratégias pós-modernas que utiliza, o filme de Schreiber está impregnado de uma vontade de passado.
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Foto: Divulgação
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Que se sublinhe a palavra "vontade". A contemporaneidade cheia de sua frieza clean parece condicionar Jonathan a um tipo de objetificação que faz de sua relação com o mundo não mais que o acúmulo de marcas de um tempo que acaba mais rápido do que devia, e que por isso não permite a vivência plena de cada um desses momentos distantes. Guardar as memórias de seus parentes em sacos plásticos parece a representação máxima de uma ligação com a História (tanto a com H maiúsculo quanto com h minúsculo) que cede diante dos atropelos da vida e se contenta em pelo menos preservar suas relíquias indiciais para referências futuras que serão igualmente limpas, e igualmente frias - a própria apresentação de Jonathan parece ser a de um arquivista do tempo burocrático, com seus óculos sempre milimetricamente equilibrados, seu cabelo enrijecido à muito gel, seu terno preto impecavelmente alinhado. Daí que sua decisão de romper com esse mundo de memórias estáveis e se jogar na busca das memórias flutuantes, sua saída da América rumo à Ucrânia natal de seu avô, com o objetivo de encontrar a mulher que um dia o salvara da execução nazista durante a II Guerra, esta decisão escapa pelos dedos do filme. Num momento vemos o rosto impassível de Jonathan recuperar mais uma lembrança em sua parede, no momento seguinte já estamos com ele num trem em algum lugar do leste europeu: houve nesse intervalo o despertar para algo maior que a dominação pura e simples do passado, houve a própria vontade de experimentar o que já ficou para trás em sua inteireza de sentidos, para finalmente poder seguir adiante com alguma transformação real. Indo à Ucrânia, Jonathan conseguirá tirar a memória do saco plástico e colocá-la dentro de si mesmo.
É justamente esta necessidade do contato irrestrito com o passado que está no centro de "Uma Vida Iluminada". É possível evitá-lo através da bizarra coleção de Jonathan, mas há um outro modo de fuga, mais sutil, porém muito mais perigoso, e ele se afigura em Baruch, o velho motorista que junto de Alex, seu neto, guia o jovem americano pelas paisagens deslumbrantes do interior ucraniano. O que parecia um road movie com toques cômicos e fantásticos - o primeiro trecho do filme de Schreiber é um cruzamento de "Peixe Grande" com as comédias recentes de Emir Kusturica -, cheio de gags sobre o choque de culturas e a capitalização de um país ex-comunista, onde o protagonismo cabia tanto à Jonathan quanto a seu parceiro de aventuras Alex (Eugene Hutz, em atuação brilhante), ou seja, guiado pela experiência de uma juventude que se dispõe com o ontem quando ainda mal começaram a pensar o hoje, acaba tomando um rumo inesperado. Há um outro fio condutor em "Uma Vida Iluminada", ele é o velho Baruch. Se a viagem pelo país no combalido calhambeque azul tem um caráter iniciático para a dupla de jovens esquisitos, ela significa para o velho o confronto inevitável com o fim. Os olhos lacrimejantes do ator Boris Leskin roubam a atenção da câmera para mostrar alguém cuja única relação com o passado era o esquecimento, mas que a urgência do retorno às suas origens promove um choque do qual não se sai ileso.
"Uma Vida Iluminada" faz coincidir as trajetórias desses personagens tão diferentes entre si, e permite que cada um se relacione com a memória do jeito que sentir que deve. Baruch empresta ao filme uma tristeza que, em nenhum momento, podíamos imaginar que existisse por ali, e é só quando aparece que percebemos que ela nos rodeava o tempo inteiro. A disposição de se entregar por completo à resolução de suas lembranças não sofre com meios-termos: quando "Uma Vida Iluminada" manifestou sua vontade de passado, não fez seleção entre o que caberia na estética amarelada dos lindos campos de girassóis e o que caberia nos banheiros escuros das pensões por que passam seus protagonistas. Tudo faz parte de uma mesma coisa, esta matéria indefinível que chamamos de "vida". Ela passa por nós tão rápido quanto um avião à jato, e se nossa mania cartesiana insistir em pensar num começo, que não nos esqueçamos que ainda existe um meio e um fim. Para Baruch o fim chega junto com o fim do próprio filme. Mas quando sobem os créditos e ouvimos mais uma das belas músicas de "Uma Vida Iluminada" sabemos que para Jonathan e Alex, e para qualquer um que esteja assistindo e que acredite que ainda é preciso encerrar contas antigas para abrir outras novas, enfim, para o resto de nós tudo está apenas começando.
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