Revisitando a terra natal no interior, ouço um dos líderes da cidade de 100 mil habitantes dizer que a crise agrícola não é o que pinta a mídia. Sim, os preços dos grãos caíram: o arroz está por baixo, o milho foi ao chão e a soja não levanta. Além disso, a carne continua barata, garantindo o churrasquinho do povo. Mas o barulho nas estradas teria um tanto de teatro, uma vontade de mostrar que a coisa não pode continuar assim etc. e tal. Por baixo da mobilização rural haveria um componente eleitoral. É uma versão plausível, pois todo mundo sabe que o pau começa a comer nos bastidores da guerra pelo poder.
Como prova de que nem todos os agricultores estão apertados, meu interlocutor diz que consultou vários lavoureiros e, entre eles, chamou sua atenção o caso de um amigo, pequeno fazendeiro, que plantou 60 hectares de arroz com recursos próprios, colheu bem (o rendimento foi excepcional em 2006 nessa lavoura) e está tranqüilo, apesar do preço baixo do produto: "Não devo nada a ninguém e guardei a colheita à espera de preço melhor", disse ele. O exemplo serve para ilustrar a hipótese de que na agricultura, mesmo no ciclo da baixa, é possível passar de ano sem ficar devendo. Bastaria manter os pés no chão, não se endividar e não querer dar um passo maior do que as pernas.
Claro que não dá para generalizar. Há folgados e apertados. Entre os manifestantes que colocaram tratores ou caminhões nas estradas, havia proprietários rurais em situação crítica por causa de dívidas impagáveis com os atuais preços agrícolas, mas havia também uma parcela disposta a criar encrenca e testar a capacidade de resposta do governo ou, quem sabe, tirar proveito de algum descontrole oficial. As manifestações coincidiram com a visita do pré-candidato presidencial Geraldo Alckmin. Para evitar problemas, ele viajou ao Sul de avião, passando por cima de eventuais barreiras rodoviárias. E não atendeu ao apelo de fazendeiros para que desse uma aterrissada num dos bloqueios no centro do Rio Grande do Sul. O tucano deu uma de avestruz: "Não me comprometam".
Encerrado o jogo, resta ver se do confronto resultou alguma lição. A curto prazo, veio o calaboca governamental, o ministro Roberto Rodrigues saiu prestigiado da crise e o presidente Lula segue firme com 40% da preferência dos eleitores, mas continua faltando uma política agrícola de longo prazo, como falta um projeto nacional de desenvolvimento. Algo que pelo andar da carruagem deverá ficar para depois da Copa, ou para depois das eleições, ou para depois da posse ou, mais provavelmente, continuará ao Deus dará, isto é, por conta do deus Mercado. Fica no ar uma pergunta: os 40% do Lula são o piso ou o teto?
A viúva do bombeiro
Só para não deixar cair o assunto da crise da segurança pública, que reflete a questão da desigualdade econômica, gostaria de registrar a admiração pela serenidade da viúva do bombeiro morto nos recentes conflitos polícia x bandido em São Paulo. Ao repórter de TV que lhe fez a pergunta óbvia sobre se esperava justiça (vingança) contra os assassinos do seu marido, que não usava arma, ela reclamou "justiça social", nada mais. Segundo o Jornal Nacional, ao dar a entrevista, ela fez aparecer ao fundo uma rosa branca, simbolizando seu desejo de paz. É raro ver tal grandeza de alma num momento de dor pela perda de uma pessoa querida.
|