Bastchão Bedurri se levanta cedo. Dona Neném também. Enquanto o marido dá comida à criação, por entre o alarido de galinhas, patos, perus e gansos que acorrem de todos os cantos do sítio, Dona Neném prepara o café. Da janela, nota um divertido sorriso no rosto do marido. E quer saber que lembranças são aquelas.
Depois de alimentar a bicharada e de lavar as mãos, o ribeirinho se senta para tomar café com a companheira. E então começa a contar a razão de sua expressão divertida, conforme abaixo se verá.
Naquela manhã de sábado, já faz mais de vinte e cinco anos, Bedurri dá banho na minhoca, sentado debaixo da copa de uma enorme gameleira nascida junto à barranca do Rio Doce. Um de seus pesqueiros preferidos. Logo a experiência lhe diz que aquele beliscão diferente é de um piau, justamente o peixe que o velho e sábio pescador tinha acordado com vontade de almoçar, naquele dia. Então, Bedurri puxa a linha de volta, recolhe a minhoca, isca o anzol com um grão de milho, gira a linha por sobre a cabeça, a chumbada e o anzol zunindo. Um tchá, um pequeno círculo nágua, e o anzol cai exatamente o pescador quer. Agora é se preparar para o embate com o arisco piau.
Mas quer o destino que naquele dia não haja a batalha entre o instinto do animal e a inteligência do homem. Entreouvido por entre o cantar do rio, um farfalhar de folhas e um quebrar de mato indica que alguém se aproxima, roubando a concentração do pescador.
-Ó, Bedurri - é Casco Escuro quem se aproxima.
-Ó.
-Beliscano, aí?
-Nada - Bedurri desconversa.
Mas o amigo quer conversa. Fazer o quê? Bastchão Bedurri relaxa, amarra a linha num pé de pau, e aguarda. A ansiedade do recém-chegado é tamanha.
Casco Escuro é casado, há mais de 10 anos, com a filha de um general da reserva, homem rude e de poucas palavras. Faz tempo que a relação do casal não vai bem. Convencidos de que são pessoas que nasceram pra ser só amigos, marido e mulher resolvem se separar, em paz. Depois de muita hesitação, enchem-se de coragem e vão juntos até o general, comunicar a decisão.
O carrancudo militar, que passou mais de 40 anos na caserna, ouve atentamente. E sua resposta quase faz o pacato Casco Escuro obrar na calça.
-Pra filha minha eu só admito dois estados civis: casada ou viúva. O senhor escolhe.
Depois de algumas noites sem dormir, Casco Escuro resolve pedir conselhos a Bedurri. O pescador, após ouvir atentamente o relato, aconselha prudência, sugere que aguarde. Afinal, o general já é homem de idade avançada, pode já estar no fim dos dias, não vale a pena correr risco de morrer matado, melhor pensar bem.
Casco Escuro resolve se mudar para a capital com a mulher. O assunto se espalhara pela cidadezinha e a humilhação sofrida já é pública.
Muitos anos depois, Bedurri cruza com seu amigo na rua. Época de eleição, tempo propício para rever muitas pessoas queridas que se mudam para a cidade grande mas não transferem o domicílio eleitoral, guardando o dia da eleição para um breve retorno à terra natal.
-Ó, Casco.
-Ó, Bedurri.
-Tudo em paz?
O amigo enruga a testa, passa a mão no rosto, olha em volta, preocupado.
-Nada, rapaz - Casco Escuro, já grisalho, é a imagem da resignação. -Já virei até avô, e aquela praga daquele general não morre.
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