"Nunca saberemos o que é suficiente,
enquanto não soubermos o que é mais do que suficiente."
(William Blake)
O povo brasileiro, de um modo geral, está frustrado e indiferente em relação às eleições de 2006. Não vai haver renovação. A maioria dos projetos se aproxima da reeleição. "Por enquanto, o quadro é triste." Tudo esse quadro é avaliado pelo nosso entrevistado deste final de semana, o desembargador Antônio Miguel Feu Rosa.
De política, ele parece entender. Já foi deputado estadual e federal: duas vezes em cada tribuna. Vem de uma família tradicionalmente política: quando não no poder, nos bastidores. Como jurista, ele alcançou o posto de desembargador, mas, antes, deu uma vasculhada por sua significativa biblioteca, que funciona no seu escritório, no Edifício Colombo, Centro de Vitória.
Entre uma estante e outra, amigos, correligionários e parceiro de longas jornadas políticas, a exemplo dos que estiveram com Antônio Miguel Feu Rosa em movimentos de esquerda no cenário nacional. Nos livros e, sobretudo, na sua prática jurídica, o desembargador aprendeu bem a arte da retórica. Como um perfeito repórter, também perguntou, também não respondeu. Admite que não quer se preocupar em outros assuntos, a não ser o que mais lhe seduz: a candidatura ao Senado.
Século Diário: - Desembargador, vamos falar sobre as eleições 2006? O senhor é mesmo candidato a senador?
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Foto: Rodrigo Melo
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Antônio Miguel Feu Rosa: - Perfeitamente. Meu nome já foi lançado pelo partido. O Partido de Mobilização Nacional lançou-me pré-candidato. Mas vai ser feito um lançamento oficial neste mês de junho.
- Está confiante?
- Tenho que estar confiante em Deus. 'A voz do povo é a voz de Deus'!
- Como é que o senhor está avaliando a posição do PMN no Estado?
- Eu acho que o PMN é um partido, o único no país que tem postura ideológica.
- Os outros não têm?
- Não! Antigamente o pessoal do PMN era visto como o pessoal do Partido Comunista. Os dois partidos ideológicos. Agora, só temos o PMN, de maneira que o trabalho do PMN é difundir sua ideologia. O povo sempre procura esses partidos que têm idéias. Então, vamos aguardar.
- Qual é a 'ideologia', então, da qual o senhor está comungando?
- O próprio nome está dizendo: Partido da Mobilização Nacional. O povo, embora muita gente não acredite nem veja, tem opiniões. O povo tem idéias. O povo tem posições. Por exemplo: vivemos uma fase no nosso país que o povo está completamente desorientado! Somos um país, um dos maiores exportadores de alimentos do mundo. Do mundo! E nós temos vinte milhões de brasileiros morrendo de fome por ano, conforme o IBGE anunciou recentemente. Nós somos um país que tem um índice de doentes abandonados, famintos, que é um dos maiores do mundo, de maneira que nosso povo vive completamente alienado. Então, o Partido de Mobilização Nacional, exclusivamente, quer criar uma personalidade no brasileiro. Você vê, você que é inteligente... Atualmente, qual é o maior produto de exportação brasileiro? Você pode dizer: é café, é soja... Não. Não é não. É o brasileiro. Ultimamente, até os jornais publicaram: três milhões de homens presos nos Estados Unidos, querendo entrar lá. Você está pensando que esses três milhões são sem formação? Não... Médicos, advogados, engenheiros... De repente, alguém recém-formado vai tentar a sorte nos Estados Unidos para ganhar dez por cento do que os americanos ganham. Então, são quadros terríveis no nosso país. Estamos na mão de um pequeno grupo que toma todas as decisões. Não, não é assim. O Partido de Mobilização Nacional quer criar uma personalidade no povo brasileiro. O povo brasileiro tem suas opiniões. Aqui no Brasil: um país eminentemente cristão. É uma personalidade. O povo brasileiro precisa ter concepção real da sua condição, do seu sofrimento, das suas humilhações... Temos nos Estados Unidos quadros dantescos, tristes. Eles matam, por ano, cerca de duzentos, trezentos mil brasileiros, que querem entrar no México para de lá entrar nos Estados Unidos. Essa é a realidade triste. O camarada fez um curso de Direito, de Engenharia, de Medicina e não tem onde trabalhar.
- O senhor tem uma história de participação em importantes movimentos políticos do cenário nacional. Que paralelo o senhor pode fazer dessa época e a atual, sobretudo no âmbito estadual?
- Piorou muito! O povo está completamente alienado! Nós vivemos alienados, no mundo da lua... Ninguém está analisando isso. Você está vendo, por exemplo, mais da metade do território brasileiro é constituído por florestas, sobretudo na Amazônia. Quem vai pra lá mata, não é queimar não. Mata. Não é ninguém de fora não. É o próprio brasileiro. O Partido de Mobilização Nacional quer debater os verdadeiros problemas nacionais. É isso.
- E no Estado? Qual o diferencial nas eleições deste ano?
- Eu não estou vendo diferencial nenhum, não... Aqui no Estado, temos a liderança do governador Paulo Hartung, que praticamente monopolizou tudo. De novo, não estou vendo nada, não.
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Foto: Rodrigo Melo
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- Mas parece que o PMN vai se aliar ao projeto de reeleição do governador Paulo Hartung...
- Não posso dizer. Vamos aguardar. Acredito que sim.
- O senhor torce para isso?
- Torço para isso e que Deus ajude.
- Mesmo com esse 'monopólio', de acordo com suas palavras anteriormente, será bom para o PMN?
- Mas essa é a realidade. Nós temos que analisar a realidade. O fato é esse no nosso Estado, no nosso país. E não sai disso. Política é uma atividade eminentemente pragmática. Política não é 'idealista', 'sonhadora', 'alienada'... Não. Política é pragmática. Qual a realidade? É essa. Então, temos que viver e agir de acordo com essa realidade.