"But what can a poor boydo except to sing for a
Rock´n´roll band…" (Street Fighting Man - R. Stones)
Estou de volta à selva. Assim como me vi "obrigado" a tecer comentários à respeito do funk carioca recentemente, dessa vez falarei sobre um movimento, ou melhor, uma "manifestação cultural" que está tomando conta do nordeste - e dos pobres incautos que passam por lá.
Trata-se do "Arrocha". Por onde quer que você ande, onde quer que você esteja, o arrocha está tocando, há alguém dançando ou, pior ainda, cantando junto. Mesmo que não se procure, ele inevitavelmente, mesmo contra vontade de alguns, encontra a todos. Aliás, pelo que vi, se os artistas trocassem de lugar com os ambulantes que circulam carregados de cds e dvds piratas em que temos uma infinidade de títulos desse "ritmo", poucos notariam alguma diferença. Fácil explicar. A origem do estilo é a periferia, mais precisamente o município de Candeias (fica a 46 km de Salvador), e ele é feito por pessoas comuns, do povão mesmo. Sem preocupações estéticas ou vaidades extremas (postura louvável!) tão comuns nos grandes centros, e - méritos para eles - dessa maneira, fazendo o caminho "inverso", chegou à capital, avançou fronteiras estaduais, depois regionais e deu o "pulo do gato" com a ajuda da tão "prestativa" Rede Globo.
Bastou uma aparição em um quadro do Fantástico e, pouco tempo depois, cinco dos principais representantes do Arrocha, numa agradável tarde com o apresentador símbolo da emissora, num domingo em rede nacional e o serviço estava feito.
Claro que a região nordeste é sempre a mais afetada. Segundo seus principais difusores, o ritmo é uma mistura da música brega, a seresta e do estilo mais romântico e possui uma diferenciada forma de dança, que funde o pagode o forró e um pouco da própria seresta. Sempre na "filosofia" do Arrocha, ou seja, o mais junto, rebolado, colado, apertado, enfim, arrochado que for possível. Aliás, as letras no fundo de suas tenebrosas simplicidades, possuem um apelo sexual por vezes bastante direto sem pudor algum, e ainda perfeitamente classificável como incoerente quando se trata de uma "boy band" com integrantes cujas idades que variam de 11 a 15 anos. Dá pra imaginar? E eu volto a afirmar que isso existe. De maneira mais simples, especialistas em música resumem esse "novo" som como sendo um bolero acelerado - apenas é feita uma mudança de andamento -, uma fraude. Seja como for, esses artistas estão lotando grandes eventos regionais e até mesmo conseguindo sobreviver apenas com essa atividade. O teclado (salve primo!) é o mínimo necessário para tocar o Arrocha, mas claro que outros instrumentos sempre podem "enriquecer" o trabalho. As bandas se proliferam, no velho esquema de inversão proporcional entre quantidade e qualidade. Comunidades no orkut estão bem equilibradas, há uma divisão quase de meio a meio entre os que amam e os que odeiam, e ainda existem os que apenas se divertem muito com a situação.
Uma pena para quem não se deixa levar pelos encantos dessa sonoridade tão "sedutora", pois, diferente do que ocorre em outras regiões, e como já foi citado aqui, não há - no momento - saídas para quem mora no nordeste e quer se livrar do Arrocha. Ele está em todo lugar. A solução para uma fuga bem sucedida é ficar em casa, em um ambiente bem isolado acusticamente para que não haja possibilidade de uma "visita" inesperada.
E, mesmo parecendo que estamos perto do fim, é sempre bom lembrar que a Bahia já nos deu Glauber Rocha, Dorival Caymmi, Jorge Amado, Raul Seixas, Caetano Veloso, João Ubaldo, João Gilberto, Gilberto Gil, Ruy Barbosa, Bethânia, Gal e tantos outros nomes primordiais para a cultura nacional. Mesmo contrariando a história e fatos recentes, acho que podemos esperar sempre por algo mais relevante vindo de lá. "Arrocha" não dá.
* Colaborou Robson Alves Neto
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