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Foto: Divulgação
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A fronteira. Texas de um lado, México do outro. Americanos maus temendo a contaminação de sua pureza democrática pela invasão alienígena do sul, americanos sórdidos acobertando crimes para a manutenção da ordem, americanos comedores de hambúrguer, bebedores de café, freqüentadores de shoppings, transando sem amor suas mulheres enquanto assistem a novela da tarde. Chicanos bons querendo uma vida melhor na terra da prosperidade, dispostos a arriscar a vida no deserto de ninguém, trabalhar em subempregos e ajudar a fortalecer a economia da metrópole, mandando uma parte do dinheiro de volta para a colônia. Chicanos que têm valores, que acreditam no amor e na amizade, chicanos leais, tementes à Deus e devotos da família. O roteiro de Guillermo Arriaga, como já tínhamos visto em "21 Gramas" e "Amores Brutos", é dado a maniqueísmos. No caso desses dois filmes, existia também na direção de Alejandro Gonzáles Iñárritu a disposição em levar adiante esta distinção radical entre o que merece o céu e o que há de arder no inferno.
"Três Enterros" (em cartaz no Cine Metrópolis), para nossa sorte, encontra nas mãos do estreante Tommy Lee Jones um tratamento menos absoluto. Não que escapemos totalmente desse mau cinema: as descrições feitas acima correspondem exatamente ao jogo de relações que se armam nesse novo espaço mítico que faz a América profunda se chocar com o terceiro-mundismo atroz. Sempre que ratifica essas impressões equivocadas, "Três Enterros" entra no jogo fácil das simplificações. Mas aqui e ali o filme permite-se contaminar por uma outra força, essa intangível, difusa, e portanto avessa à divisões morais rasas. É quando se afasta do retrato colorido preto no branco da aridez social da fronteira e embarca na insanidade do trajeto geográfico e interior do rancheiro Pete Perkins (interpretado pelo próprio Tommy Lee, em estado de graça), que vemos a tela se impregnar de verdades - todas elas, é claro, bastante falíveis, mas ainda assim encaradas com total entrega no momento em que aparecem - que escapam da nossa vontade de atribuir bandidos e mocinhos.
Há uma divisão em capítulos, cada um correspondendo a um dos enterros do mexicano bom Melquíades Estrada, e ela serve bem para marcar a flutuação do tom do filme ao longo de seu caminho. No meio dos três enterros há um capítulo entitulado simplesmente de "A viagem". É nesse trecho, sobretudo, que explode um cinema irracional, doente, que destoa de tudo o que veio antes ou depois - é como se ali, e só ali, fosse possível para Tommy Lee Jones realmente explorar a relação que mais lhe interessa, a amizade transcendente que se estabelece entre seu personagem e o mexicano que é assassinado por um dos patrulheiros da fronteira. Olhando para a periferia de "Três Enterros" vemos que o tratamento dispensado aos vários coadjuvantes que pipocam pela narrativa apenas confirma esse foco de atenção. Temos a mulher do patrulheiro assassino, patricinha da cidade que se muda para um trailer texano, alguns policiais da região, a garçonete oferecida e seu marido traído e manso: todos eles marionetes natimortas num espetáculo que não lhes reserva o mínimo interesse. Com a mesma rapidez que são introduzidos na história, como colorações diversas da "paisagem social" daquele ambiente, são abandonados à margem do filme, porque seu retrato unívoco não se casa com a viagem loucamente equivocada que Tommy Lee nos propõe.
E a viagem, como que num susto, aparece lá depois do meio do filme. Num plano aberto, vemos Pete Perkins e o patrulheiro que ele domina e obriga a acompanhá-lo até o México, onde enterrará seu grande amigo morto. O dado surpreendente é que o próprio amigo morto, reativado enquanto personagem vivo e que "atua" dentro de uma ação dramática, está ali. Com a candura de quem trata de um irmão enfermo, Pete aproxima do fogo o cadáver já em decomposição de Melquíades, para mantê-lo aquecido (por que, se afinal de contas é um morto? Ora, o coração tem razões que a própria razão desconhece). Quando o patrulheiro avisa que formigas estão comendo a carne do rosto de Melquíades, Pete imediatamente joga-lhe um pouco de álcool, ateia fogo no rosto de zumbi de seu amigo, queima-lhe os poucos cabelos que ainda lhe restam, e terminada a incineração dos insetos intrometidos, apaga o fogo e olha para o amigo com um sorriso de satisfação incontido. A insanidade absurda e alucinante desta cena (que terá gradações ainda mais incríveis dali para adiante) enche "Três Enterros" de um estado febril onde tudo o que existe já não pode ser mais passado pelo filtro da bondade e da maldade. Para acompanhar um filme delirante, apenas delirando junto, e Tommy Lee Jones faz isso da maneira mais clássica possível. Diferente dos filmes de Iñárritu, em que a câmera na mão e a agilidade exasperante são condições básicas para impressionar o espectador das mesmas sensações vividas pelos protagonistas, criando um cinema de artifício barato que só se efetiva por uma osmose inconsciente, em "Três Enterros" toda loucura é filmada com a calma de um hospital psiquiátrico vazio. A vontade de impressionar não força uma adesão automática de quem esteja vendo, tudo acontece como se fôssemos convidados, cena a cena, a participar de um universo paralelo ao nosso, mas que nunca tenta se mostrar mais ou menos verdadeiro que o universo do espectador. O cadáver que estava escondido no armário é trazido à público, e que cada um descubra uma maneira de se relacionar com ele. Pete Perkins já sabe qual é a sua, e não há um minuto sequer em que os olhos mareados de Tommy Lee Jones não confirmem na amizade entre estes dois homens um laço que nós, no universo do lado de cá da tela, estamos cada vez mais incapazes de estabelecer.
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