Os elementos da nova propaganda da Aracruz Celulose - diga-se de passagem, uma propaganda milionária - surpreenderam-me quando abri o jornal "O Globo" desta segunda-feira (5). Com a participação de várias celebridades, a transnacional tenta vender seu peixe no País. A W/Brasil, empresa responsável pelo comercial, aproveitou o tema Copa do Mundo e colocou os famosos para brincar com uma bola de futebol. A frase-tema da campanha é "fazendo um bonito papel no mundo inteiro".
Assumem a responsabilidade da afirmação, com duplo sentido, ninguém menos que Pelé, o boxeador Popó, o astronauta Marcos Pontes, a ginasta Daiane dos Santos, o cantor Seu Jorge e o técnico Bernardinho, este de muletas. Certamente desconhecem que tal empresa prejudica índios, quilombolas e produtores rurais, em quatro estados brasileiros, com suas extensas plantações de eucalipto e sua política anti-social e ambientalmente predatória.
Assim, tal propaganda, como a grande maioria das campanhas promocionais criadas para a Aracruz Celulose, é enganosa, não condiz com a realidade desta empresa nos locais onde está instalada: Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul.
O trabalho com tantas personalidades vem exatamente após a empresa ter sido julgada no Tribunal dos Povos, na Europa, no mês passado. Lá, índios Tupinikim e Guarani denunciaram os danos provocados pela transnacional desde sua instalação no Estado, na época da ditadura militar, não só aos acionistas da empresa, como junto a movimentos sociais internacionais e ambientalistas. E saíram vitoriosos.
Como de praxe, a Aracruz Celulose tenta vender ao grande público a falsa idéia de empresa socialmente responsável. Querem, assim, contradizer os índios capixabas, o maior calo no sapato da transnacional. Pois, há décadas, eles lutam para reaver seu território no norte do Espírito Santo ocupado por eucaliptos da empresa, e nos últimos anos têm dado largos passos nesse sentido.
No exterior, há muito a fama da Aracruz deixou de ser positiva. As ações da empresa contra os índios, muitas classificadas como violentas, fizeram com que o governo sueco abrisse mão das ações da transnacional. Na última visita à Europa, um dos maiores compradores da empresa na Alemanha exigiu da Aracruz Celulose respostas à questão indígena capixaba. Fora a pressão de entidades nacionais e internacionais. Somente no Brasil, a empresa aglutina contra ela 157 entidades, de diferentes origens.
Ao invés de resolver de uma vez por todas o que já está mais do que provado, de que o território por ela ocupado realmente pertence aos índios do Estado e foi tomado por uma manobra arbitrária do então ministro da Justiça, Íris Rezende, no governo FHC, a Aracruz Celulose insiste na tentativa de convencer os brasileiros de que é dona do território. Soma com isso somente derrotas.
Não se propõe ao diálogo. E sem saída gasta milhões em propagandas como esta que começa a ser veiculada no País, dinheiro resultante de a uma parte dos lucros que teve com as terras que tomou no Espírito Santo.
Infelizes dos protagonistas desta cena comandada pela Aracruz. Receberão bem por isso, mas cederam sua imagem a uma empresa que não merece o menor respeito de muitos brasileiros e é digna somente de sentimentos de revolta e indignação.
Fica aqui o meu lamento.
Se existe algo que a Aracruz Celulose está longe de fazer é um bonito papel no mundo inteiro.
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