Nossos analfabetismos





Tavares Dias


Dia desses, minha filhinha me disse, com seu jeito bom de criança:

- Pai, eu vi um carro parado na frente do outro. Aí a buzina do outro gritou: "Seu burro!"

Então me lembrei imediatamente de como me irritam as pessoas que desconhecem ou desprezam princípios simples e importantes como ligar a seta quando vão mudar de faixa, ou que estacionam em lugares que trancam a saída de outras, ou que não têm a menor noção espacial e/ou de lateralidade, ou que querem sempre se dar bem num cruzamento. Coisas que me dão vontade de gritar coisas muito mais pesadas do que seu burro ou similares.

Mas minha voz de pai falou mais alto:

-Pois é, filha. Mas essas coisas podem acabar em confusões sérias e às vezes até em mortes.

E esta semana a cena da buzina me voltou à memória. A cena, infelizmente, é comum: um jovem bem-vestido, com jeito de pessoa que freqüenta boa escola, segue caminhando, enquanto bebe água num copo descartável. Saciada a sede, atira o copo no meio da calçada, sem ao menos olhar para os lados em busca de uma lixeira. E havia uma, na esquina próxima, ao alcance de seus olhos.
De novo, a vontade de gritar, agora um pouco diferente:

"Aí, seu porco. Emporcalhando a cidade, né?"

Mas me contenho. Sei que não tenho esse direito, no país do jeitinho, do levar vantagem em tudo, de autoridades que dão os piores exemplos que o povo pode ter. E me calo. Não vale a pena o risco de sofrer uma agressão.

Então sigo meu caminho, lembrando que educação é uma coisa que a gente deve mostrar, não cobrar dos outros. E que se eu conseguir educar a mim e aos meus filhos já terei trilhado um bom caminho, porque, diferentemente do que tantos pensam, não é a escola, e sim a família, quem tem o dever de ensinar bons princípios às crianças e aos adolescentes.

Estamos no país onde reinam o analfabetismo político, o analfabetismo funcional, o analfabetismo financeiro. Além, é claro, do analfabetismo real, no sentido denotativo da palavra, aquele que condena ainda milhões de pessoas às trevas do não saber ler.

Cada um de nós pode ser analfabeto em algo: em noções de limites, de espaço, de respeito, de lealdade, de caráter, de cidadania, de tanta coisa mais. A gente que se enquadre como puder e tiver coragem.

Até um dia, quem sabe quando?, em que todos possamos compreender que o que muda o todo é a mudança das partes. E que as partes somos nós.