Na Europa, flechas atingem a Aracruz





Ubervalter Coimbra


A história da Aracruz Celulose no Espírito Santo é bem conhecida. Não é fácil uma síntese, mas a empresa amealhou, só dos descendentes de escravos negros, cerca de 50 mil hectares, no antigo Território de Sapê do Norte, formado por Conceição da Barra e São Mateus, como apontam pesquisas realizadas pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

No município de Aracruz, a empresa ocupou 40 mil hectares de terras indígenas. Destes, o governo federal reconhece (baseado em pesquisas científicas encomendadas, por força de lei, pela Funai) como sendo dos índios 18.070 hectares. Mas falta demarcar oficialmente 11.009 hectares, que a Aracruz Celulose insiste em dizer que são seus.

A Aracruz Celulose também tomou terras dos pequenos proprietários, e ainda se apossou de terras devolutas, portanto terras públicas, em vários municípios do Estado. Usou e abusou, em todos os casos, da violência física e moral.

Devastou 50 mil hectares da mata atlântica e sua biodiversidade, e usou a área para plantar eucalipto. Envenena a terra com agrotóxicos, que contaminam e matam gente, animais silvestres e plantas. Plantações que acabam com a água.

Sempre contou com favores do Estado: do governo federal, durante a ditadura militar, no seu processo de implantação. Dos outros governos, até hoje. E com favorecimentos permanentes dos governos do Estado.

Ocorre que as vítimas da Aracruz Celulose estão cada mais organizadas e combativas na luta pela recuperação do que é seu.

O líder Tupinikim Paulo de Oliveira e cacique Guarani, Werá Kwaray, foram à Europa no mês passado e denunciaram a empresa em vários fóruns. Entre os quais, o Tribunal Permanente dos Povos, na Áustria. Ainda fizeram contatos com representantes da Forest Stewardship Council (FSC).

O FSC concede certificação que torna os produtos florestais altamente aceitos e valorizados no mercado internacional. Mas foi enganado pela Aracruz Celulose, como mostraram os índios. Resultado: a empresa se apressou a solicitar o cancelamento da certificação das florestas de sua unidade de Guaíba, no Rio Grande do Sul, na ocasião em que podia dar entrada em sua revalidação. Temeu que o cancelamento fosse determinado pelo FSC após as denúncias, o que seria um estrago ainda maior em sua reputação.

Para se contrapor aos índios, a Aracruz Celulose também produziu comercial, através da empresa do conhecido propagandista Washington Olivetto, a W/Brasil. No ano da Copa, usou imagens de seis personalidades: de Pelé, do técnico Bernardinho, da ginasta Daiane dos Santos, do boxeador Popó, do cantor Seu Jorge, e do astronauta Marcos Pontes. Eles mostram suas competências com a bola, ou com ela se deixaram fotografar. E a empresa procura se vender: "Fazendo um bonito papel no mundo inteiro".

Pura propaganda enganosa, como apontam índios e ambientalistas. Tudo em resposta aos resultados obtidos pelos índios na Europa.

As providências da Aracruz Celulose confirmam que, naquele continente, os índios a flecharam, e bem no coração!


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