Sempre tive uma certa simpatia por Fernanda Abreu e sua música, principalmente no início de sua carreira solo, há cerca de 15 anos. Essa moça popularizou o "sampler" - hoje em dia tão comum - por aqui, pelo menos a primeira referência que eu tenho quando penso nesse recurso, é ela. O disco "Da lata" é o auge, e não seria exagero dizer que a mistura feita ("batuque-samba-funk, é o veneno da lata...") ali teve uma espécie continuidade evolutiva no aclamado "À Procura da Batida Perfeita" do Marcelo D2. Ou seja, Fernanda estava quase 10 anos na frente do "rapper" - também carioca - e certamente contribuiu bastante na incessante "procura" pela tal "batida". Seus últimos dois trabalhos, "Entidade Urbana" (ainda fui ao bom show de divulgação) e "Na Paz", particularmente não me agradaram muito e, talvez por isso, me surpreende o fato de, nesse momento, sentir a necessidade de substituir repentinamente a pauta que eu tinha em mente para exaltar o recém lançado "Ao Vivo - MTV".
Comecei a ouvir despretensiosamente e agora não consigo largar.
Gravado no Teatro Carlos Gomes, o disco já tem a vantagem de possuir uma acústica que beira a perfeição e a produção impecável sempre presente nos trabalhos da cantora, segura a onda e mantém o alto nível. Fernanda sempre levantou a bandeira do funk, é uma espécie de "tradutora" e defensora do ritmo que vem da favela para o asfalto. Por essa razão, todo o clima e mesmo o cenário da apresentação fazem referências ao "som de preto, de favelado, que quando toca, ninguém fica parado". Inclusive há três músicas no set que falam diretamente a língua do batidão. São a inédita - excelente! - "Baile Funk" (versos de Rodrigo Maranhão como "Acabaram com o baile funk pois havia rebeldia / na palavra do poeta e no barulho que se ouvia" ou "Acabaram com o baile funk com tamanha hipocrisia / Tá todo mundo fazendo do jeito que fazia"), "Baile da Pesada" já gravada no "Identidade Urbana" e o "Bloco Funk" que, assim como o "Bloco Rap Rio 2006" (atualizado em relação ao gravado no "Raio X"), faz um medley com vários trechos consagrados do gênero e ainda insere algumas marchinhas clássicas de carnaval.
O disco, que abre com a "dance" "A Noite" (do primeiríssimo "SLA Radical Dance Disco Club"), mantém a chapa quentíssima durante quase todo o tempo. Baladas só temos, efetivamente, três, são a outra inédita, "Dance, Dance" - que não empolga tanto -, a clássica "Você Pra Mim" e a releitura de "A Dois Passos do Paraíso" numa roupagem totalmente lenta e intimista - claro, sem a parte do Arlindo Orlando, afinal, se ele não voltou para a Mariposa apaixonada até hoje, aviso a esta pobre criatura que o tempo de esperar, expirou...- para o primeiro registro de uma música da Blitz feito por Fernanda desde que deixou a banda. Outra surpresa bem bacana é a inserção do "samba-rock" "Kid Brilhantina" (Bedeu/Alexandre) na levada cheia de balanço e swing de "Roda que Se Mexe". Fora o que já foi citado aqui, ainda temos o resgate de sucessos incontestáveis como, por exemplo, "Rio 40 graus", "Veneno da Lata", "Kátia Flávia, Godiva do Irajá" e "Garota Sangue Bom" (que é a exata tradução para Fernanda Abreu).
Então, em resumo, as razões para dar uma chance a esse cd são simples, é um perfeito "best of" feito "ao vivo" (primeiro registro dela nesse formato), que conta os melhores momentos de uma bela história, e traz novidades que apontam um futuro digno de despertar interesse. Creio que muitos frutos serão colhidos por ela com esse trabalho, e se você parar para escutar, vai concordar comigo.
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