Vitória (ES), edição de 09 de junho de 2006    
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Nova tradição do samba capixaba



Vítor de Azevedo Lopes


  
Foto: Rodrigo Melo
  
Lajota, ao fundo, e Edson Papo Furado

Reunidos em um bar à margem do canal que cerca parte da capital do Espírito Santo, dois sambistas da Velha Guarda do Samba Capixaba observam uma folha que cai da árvore. O mais velho. Edson Papo Furado, segura-a com as pontas dos dedos e, olhando para o companheiro Carlos Augusto Lajota. sussurra:

- Este é meu amuleto do dia. Ficará ao meu lado.

A cena faz lembrar Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito em "Folhas secas", canção que evoca o passado e a nostalgia de um tempo em que a raiz do samba estava presente na história de vida dos sambistas. História e vida que sempre estiveram à margem no Espírito Santo. Falar dos primórdios da cultura musical local passa habitualmente longe do samba e cncontra raizes populares nas festas de congo e na celebração da folia de reis. O samba foi introduzido maciçamente nas vidas dos capixabas como no resto do país, com a popularização das rádios na década de 40.

Nesta nova era de identidades e revisões, finalmente chega um CD (Velha Guarda do Samba Capixaba) com a música daqueles que semearam o ritmo no estado. A tiragem, financiada pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, é pequeníssima, apenas mil cópias. A distribuição independente em lojas locais e em apenas um bar de Vitória.

- O CD é uma tentativa de mostrar a música e os sambistas que estavam escondidos nos morros e bairros daqui - explica Lajota, 59 anos.

A história da Velha Guarda do Samba Capixaba - assim mesmo, em maiúsculas, já que eles formaram um grupo e converteram a condição de velha guarda na instituição Velha Guarda - passa por Lajota e Edson Papo Furado. Os dois, como outros nomes do CD, entre eles Altamar dos Santos, entraram em contato com a música na Vitória dos anos 50, movimentada pelo comércio portuário, mas ainda com costumes interioranos.

- Minha avó era negra jongueira e aos poucos fui conhecendo o samba - lembra-se Lajota. - A nossa proximidade com o Rio fez o movimento ficar natural.

Papo Furado, sem querer revelar a idade ("sinceramente, só sei que envelheci um pouco"), lembra da época em que se fazia tamborim com couro de gato.

- Viver no samba era bem difícil. Se no Rio os sambistas não eram bem vistos, imagine em Vitória. Achavam que sambista era vagabundo. Sentíamos a discriminação na pele.
As coisas começaram a mudar com a criação das escolas de samba em meados da década de 60. Papo Furado foi um dos construtores da Unidos da Piedade, a primeira escola de samba do estado.

-Antes, o carnaval daqui era só batucada e congo. Não havia samba. - diz o ainda hoje intérprete da escola. - Aqui sequer havia cavaquinho. Na década de 60, começamos a ir para o Rio e ver o funcionamento do carnaval carioca. Trouxemos, então, a preocupação com as alegorias, a organização e introduzimos no Espírito Santo a estrutura do samba-enredo para os desfiles - relembra Lajota.

Atualmente, as escolas contam com o apoio da prefeitura e levam milhares de pessoas aos ensaios e desfiles oficiais. Mesmo com a badalação durante o carnaval, os primeiros sambistas capixabas percebiam que a valorização do samba de raiz não lhes batia à porta. Em 2001, Lajota e o colega Tonico do Cavaco resolveram subverter um costume bastante carioca: em vez de cada escola montar sua velha guarda, eles selecionaram sambistas de várias agremiações locais para montar apenas uma, a Velha Guarda do Samba Capixaba.

- Dói muito chegar nas escolas daqui e não ver nenhuma informação sobre os fundadores. Ninguém mais cultua isso - reclama Lajota.

Para agregar valor e tradição ao trabalho do grupo capixaba, a Velha Guarda conseguiu colocar em seu disco três sambas inéditos dos portelenses Monarco e Mauro Diniz, "Nem pensar", "Algo Estranho" e "Força da Paixão".

- Foi em um show que fiz com o Manacéa em um clube em Vitória, na década de 70 que conheci o Lajota - relembra Monarco. - Depois ele foi algumas vezes ao Rio e tocávamos juntos.

  
Foto: Rodrigo Melo
  
Enquanto Lajota e Papo Furado evocam a relação com os grandes nomes do samba carioca, no rádio do bar a tradição cede espaço à mistura de rap com samba do carioca Marcelo D2.

- Esses novos músicos tiram coisas do fundo do baú e apresentam para a nova geração do jeito deles. - diz Lajota. O D2 tem uma história com o samba, assim como a Marisa Monte, que por um lado também está preocupada com a preservação da memória do gênero.

- Uma vez me chamaram para fazer um show com uma banda de música eletrônica num teatro bacana aqui de Vitória. Fui e adorei. O problema é que não me pagaram até hoje - ri Papo Furado.

Mas ele fica sério logo depois, para, entre a fumaça do cigarro, tentar citar suas influência musicais:

- Me espelho nos amigos mesmo e vou cantando. Se agradar, bom; se não, eu paro. Quero viver no samba.

Para comprar o CD, entre em contato com Ângela pelos telefones (27) 3222-7015, 9933-6140 ou 3382-6265.


 

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