Calço minhas chuteiras e lanço os dedos sobre o teclado, o retângulo mágico que me ajuda a ganhar a vida. "O futebol é o ópio do povo", ouço de uma voz distante que identifico vagamente como a de um velho pagão resgatado ao catolicismo. Não, não é por aí.
Estalo meus dedos entanguidos de frio e tento um novo chute: o futebol é uma das últimas atividades humanas em que ainda se pode exercitar a liberdade -- desde que:
1) os árbitros deixem,
2) os cartolas não atrapalhem,
3) as autoridades não se metam,
4) os torcedores não invadam o campo,
5) os jornalistas não façam interferências deletérias e, claro,
6) os atletas encontrem tempo na sua agenda cheia de compromissos com a mídia e a publicidade, que neste caso, mais do que em qualquer outro, caminham juntas, como se pode ver pelo espetáculo das câmeras dançando sobre dezenas de placas e cartazes nos estádios.
Aí que eu queria chegar. O grande espetáculo da Copa não é o futebol - este é apenas o pretexto. O que está em jogo é o conjunto da obra: o estádio, o roteiro turístico, os textos, os comentários, as colunas, o show das torcidas com seus hinos e bandeiras, a repetição dos lances pela televisão, que apura a tecnologia para explorar novas abordagens de cada detalhe, dentro das quatro linhas dominadas pela monocultura da grama inglesa (como colunista de economia, não posso deixar passar a oportunidade de criticar essa perversão da agronomia do primeiro mundo).
Sim, somos súditos temporários dos reis do futebol, que chegam aos estádios estressados, sem apetite por bola, dependentes talvez de boletas que os mantenham ligados e/ou desligados nas horas certas, de acordo com os interesses dos seus empresários. Os atletas passam os jogos trocando passes, repudiando as bolas divididas e encenando quedas nas proximidades da meta adversária. São especialistas em administrar o placar mínimo. Ganham fortunas para fazer malabarismos estéreis. É a suposta vitória do futebol-arte sobre o futebol-força.
Já viram esse filme? Já ouviram esse discurso? Já leram um texto como esse? Perdão, leitores, estou dopado pela mesmice do espetáculo. Mas quem escala os ronaldos da vida? A meu ver, tem dedo de patrocinador na escalação de Parreira, um dos coronéis desse jogo de cartas marcadas, mas pode ser apenas impressão de minha parte, afinal não resisti à oferta de uma latinha de cerveja do amigo aqui do lado (somos todos amigos nessas semanas da pátria).
Sim, estamos todos plugados nessa missa pagã rezada por D. Galvão Bueno, o cardeal da Globo, que se mete na escalação de técnicos e jogadores, administra as verbas de meia dúzia de grandes patrocinadores e subverte todos os princípios do jornalismo, submetendo-se ao marketing - mas há sempre a possibilidade de um artista fazer prevalecer seu talento.
Ou não é isso que esperamos? Toda nossa energia está colocada na esperança de ver a arte superar a força. Pagamos para ver o grande lance que dependendo da aprovação do árbitro pode ser o passaporte para o estrelato. Pagamos para ver esse mínimo que pode fazer a diferença. Até torcemos para que nosso herói vire garoto-propaganda, consagrando-se como mais símbolo (passageiro, é verdade) da desigualdade que grassa entre nós.
Pois a grana que sobra no topo da pirâmide é a mesma que falta na base.
|