Vida de Imigrante - Tem algo no ar




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


Junho e julho têm algo mais além das chamadas festas juninas e o friozinho que às vezes se faz presente em terras brasilis. É tempo de rever a terrinha, dançar quadrilha e comer canjica com coco e papa de milho verde. As malas começam a ser preparadas, os telefones das agências de turismo saem da agenda e ganham lugar de honra na porta da geladeira, ao lado de fotos e desenhos escolares dos netos.

A cada ano as opções encolhem mais, já sabemos. Antes havia a Varig, pioneiríssima, a Transbrasil com os melhores preços, a Vasp. Agora nos restou a Tam como única opção nacional. Temos as estrangeiras, mas realmente, quando se volta para casa, queremos sentir o calor da nossa brasilidade já no aeroporto de saída.

Enquanto essas empresas lutam para voltar ao ar, nós envergamos ao preço de passagens exorbitantes. Certo que estamos na alta temporada, quando todo mundo viaja, e infelizmente caímos nesse funil, não dá para ir antes ou depois. O que também não justifica, se tem mais gente viajando ponham mais aviões, ao invés de subirem os preços.

Uma amiga viajou para a Grécia, de onde pretende esticar para uma chegada na Alemanha, para ver o final da Copa, a felizarda. Outra amiga vai para a Croácia, imagina, nunca pensei conhecer uma pessoa branquíssima da Croácia, que come beterraba com repolho todos os dias.

Vivemos numa aldeia global, e em Miami quem não é estrangeiro fica discriminado. Outra amiga está indo para a Belarússia, sempre pensei que esse nome era um adjetivo para a Rússia. Tem a amiga japonesa, já citada em outra coluna, que está indo adivinhem para onde? Pois é, para o Japão, onde moram os pais.

O que temos em comum, eu e todas essas pessoas de lugares tão diversos, além de só podermos viajar na alta temporada, com os preços mais altos? Há algo mais no ar além dos aviões de carreira e o aquecimento da calota polar. Todos os preços, de Miami para todos esses estranhos nomes no mapa mundi, são iguais.

Quero dizer, estou pagando para voar oito horas para o Brasil o mesmo que essas pessoas pagam para voar muito mais tempo, algumas até mais do dobro do tempo de vôo. Sem falar na amiga que vai à Copa, não pagou mais pela esticada. Por quê? Eis a questão.

Nossos aviões são melhores, nossos aeroportos mais bem equipados, a refeição servida a bordo mais requintada? Curvo-me ao inevitável, ao incompreensível, e já ando vasculhando as lojas de um dólar, procurando presentes que pareçam ter custado cem.

Isso para compensar a exorbitância da passagem, que custa 1000, quando podia ter custado 100.