Vitória (ES), edição de 19 de junho de 2006
Governo precisa regular crescimento
para evitar o aumento da miséria



Anderson Cacilhas
Foto: Ricardo Medeiros


"O limite da lógica do capitalismo deve ser dado pela sociedade civil e pelo governo que a representa". A frase é da cientista política Marta Zorzal e Silva sintetiza o seu pensamento sobre o novo ciclo de crescimento econômico capixaba: o governo deve ser agente regulador e limitador do processo de obtenção de lucro, sob pena de se produzirem novos bolsões de miséria na Grande Vitória.

Marta Zorzal, que também é professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), explica que qualquer processo de intenso crescimento gera bolsões de miséria, caso não sejam criadas políticas públicas que amenizem o surgimento destas mazelas. Isso acontece porque a propaganda, que se alastra assim que uma região se desenvolve acima da média nacional, faz com que milhares de pessoas se dirijam para as regiões prósperas em busca de uma oportunidade.

No caso capixaba, o crescimento tem a particularidade de se fundamentar na produção de grandes indústrias. Esse tipo de projeto cria muitas vagas de emprego nas fases de implantação e expansão. Essas vagas são direcionadas a trabalhadores sem qualificação, que após a conclusão da obra ficam sem trabalho e acabam empurrados para periferias sem infra-estrutura básica e condições mínimas para a inclusão destes trabalhadores e de sua família no mercado, o que impede seu acesso aos bens de consumo e tecnologia. Eles acabam engrossando o terceiro setor e passam a atuar no mercado informal.

Foi isso o que ocorreu na década de 70, quando os grandes projetos da Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST) e Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) se instalaram no pólo de Tubarão, inchando as periferias da Capital e do seu entorno, como Serra, Cariacica e Vila Velha.

É neste ponto que Marta Zorzal defende a ação do governo, já que os investimentos da ordem de R$ 15 bilhões anunciados pela Petrobras para os próximos anos no Espírito Santo tendem a produzir riqueza concentrada, característica da estrutura econômica brasileira. Este processo não precisa produzir todas estas mazelas, mas para isso é preciso que políticas públicas regulatórias exijam destas grandes empresas que os investimentos não sejam apenas em capital, mas também na geração de empregos e renda que garantam a inserção do maior número de pessoas possível.

"O capital quer lucro e, quanto mais, melhor. É a lógica do sistema implantado. A busca por este lucro é que não pode ser a qualquer custo. É aí que entra o poder público", afirma a professora.

O poder público (governo do Estado e municípios da região metropolitana) precisa garantir a capacitação da população e empresários locais para que eles possam interagir dentro da nova cadeia produtiva que se desenha. Hoje esta cadeia se modificou. No antigo modelo, toda a cadeia produtiva era feita dentro da mesma empresa. Hoje existe um conjunto de empresas que compõem o arranjo produtivo.

É preciso que essa cadeia funcione no Espírito Santo e que as pessoas estejam capacitadas para atuar. Por isso é urgente a necessidade de oferecer moradias populares com infra-estrutura básica e meios para que os migrantes advindos de outros estados, principalmente sul da Bahia e norte de Minas Gerais, acessem o mercado, assim como suas famílias. Do contrário, a explosão da violência que é assistida hoje pela sociedade capixaba tende a se agravar, já que existem projeções de que a população capixaba deve dobrar nos próximos 14 anos, atingindo a casa dos 7 milhões de pessoas.

Se não forem dadas outras oportunidades para estas pessoas, elas se tornarão suscetíveis ao recrutamento do mercado de atividade ilícitas. A vida acaba perdendo o valor, uma vez que a pessoa está excluída do processo, o que termina por gerar o espetáculo de violência assistido nos últimos dias na Grande Vitória. Marta Zorzal pondera que a pobreza não é o único fator de violência, principalmente no grau de sofisticação com que ela se apresenta atualmente. Entretanto, contribui para vulnerabilidade das pessoas que acabam sendo recrutadas pelo crime.

Esse movimento não pode ser freado, mas pode ter seus efeitos amenizados se o poder público criar políticas que ofereçam oportunidades para estas pessoas, além de cobrar das indústrias que dêem contrapartida à altura do problema que seus negócios podem gerar.

Outro ponto assinalado por Marta Zorzal é a necessidade da criação de fundos financeiros. Essas reservas possibilitam investimentos futuros, e também no presente, em novas tecnologias que possibilitem o surgimento de uma nova cadeia produtiva. Muitos países, como Canadá, Japão e os chamados tigres asiáticos, fazem isso.

"O petróleo não é eterno. O minério também não. E depois que acabar?", questiona a professora. Os fundos podem financiar alternativas como turismo, reciclagem e desenvolvimento de tecnologia. Seria o dinheiro do arranjo produtivo atual financiando as alternativas para o futuro e até mesmo do presente, como fez a Índia, hoje um grande pólo de tecnologia avançada.


Leia mais:
  • Novo ciclo econômico ampliará a miséria na Grande Vitória